Uma expectativa que eu tinha para essa segunda temporada era saber mais da vida das personagens. Já sabemos de June, de como conheceu o marido, do seu trabalho, da filha, de sua relação com Moira. Também acompanhamos uma parte do nascimento dessa nova ideologia pelas mãos de Serena e Fred. Mas estávamos no escuro quanto a Jeanine, Emily e Alma, por exemplo.

O plot de Emily ainda na universidade me remeteu muito a algo que aconteceu comigo recentemente na faculdade. Aquele momento que uma aluna faz uma pergunta e o aluno desdenha da colega com ar superior mesmo falando bobagem. Eu estou na minha segunda graduação e semestre passado optei por pegar uma disciplina que parecia muito interessante no curso de Ciências Sociais. As aulas eram muito legais, os materiais de leitura idem e o professor ótimo. Até que um dia ele precisou se ausentar e mandou em seu lugar um professor todo popzinho do departamento. Alunos e alunas adoram esse professor.

Pois bem, ainda estávamos no começo da aula e ele fez um comentário sobre um seriado. Quando ele terminou eu levantei a mão e disse que aquilo que ele achou interessante a Comunicação estudava como Teoria do Agendamento. Ele disse que não sabia e perguntou como era. E eu expliquei, expliquei o contra-agendamento, dei outros exemplos. Aparentemente ele achou interessante. Então, sem que eu pudesse contar com isso, ele virou pra um colega, estudante de Jornalismo e que também cursava aquela disciplina como matéria optativa e soltou: – “Fulaninho, é isso mesmo essa tal teoria?”.

O Fulaninho olhou pra mim muito sem graça e: olha professor eu não faço ideia, nem sei como passei na matéria de Teorias da Comunicação. O professor esquerdomacho super pop deu risada, o menino ficou um pouco constrangido e eu fiquei ali no meio daquela broderagem escrota enquanto um homem tentava confirmar com outro homem um conhecimento que eu dominava. Quando comentei com algumas colegas, elas saíram em defesa do popfressor: ah, ele não fez por mal, vai ver nem percebeu, é porque ele conhece o Fulaninho. Enfim…

Foi exatamente isso que The Handmaid’s Tale ilustrou na cena em que Emily dava aula. Há muito homem que não pode admitir que uma mulher detenha mais conhecimento sobre um assunto acadêmico do que ele. Se esse homem for um professor universitário e a mulher for uma aluna, como vi pessoalmente, é praticamente inadmissível. Ainda que as mulheres sejam maioria nas universidades brasileiras, muitas se sentem deslocadas no ambiente acadêmico. É um ambiente que precisamos ocupar, mas essa ocupação nos custa ansiedade, depressão, resistência e , talvez, uma certa humilhação diária,

Assim, ver Emily bater o pé com o chefe do seu departamento de que daria aulas no próximo semestre sim é bastante significativo. Ainda mais pois ele tentava coloca-la de volta no armário, como ela mesmo falou. Ele mesmo achou melhor esconder sua orientação sexual e essa é outra violência que não é exclusiva d’O Conto da Aia. Quantas notícias nós vimos de adolescentes, meninos e meninas, que dão cabo da própria vida por não aguentarem mais esconder quem são? Nossos meninos e meninas continuam tendo que enfrentar um mundo inteiro para assumirem suas próprias identidades, pois a nossa sociedade está preocupada demais em controlar com quem cada um de nós se relaciona sexualmente.

Continuo batendo na tecla de que The Handmaid’s Tale é um aviso, uma espécie de alerta para onde estamos sendo conduzidos. Esse avanço conservador inadmissível que assola o mundo nos coloca no caminho de uma teocracia. O pastor que finge que é prefeito na cidade do Rio de Janeiro disse recentemente que apenas um Brasil evangélico vai dar jeito nessa pátria. Eu não me importo com a sua religião, defendo o seu direito de professá-la a sua maneira e como bem entender. No entanto, quando a sua religião passa a interferir na vida daqueles que não acreditam nas mesmas coisas que você, sua religião é abominação. Fé, cada um que tenha a sua e a viva particularmente, um país, um estado, um município não pode ser governado com base nas crenças espirituais de ninguém.

Ainda falando sobre a Emily descobrimos finalmente nesse episódio que a vida na colônia não é nada fácil. A sociedade destruiu a Terra. A sociedade fez exatamente o que o presidente sem votos do Brasil está fazendo agora ao liberar, no Brasil, agrotóxicos proibidos no mundo inteiro. O uso indiscriminado de veneno no solo não vai matar apenas a gente, vai matar também a terra, os rios, riachos, o bioma. Posso parecer alarmista, mas diante do cenário que enfrentamos, como não enxergar The Handmaid’s Tale como uma advertência do que virá.

Já no plot de June outra vez senti uma certa raiva dela. June é muito como nós e, às vezes, eu fico esperando que ela vai ter total consciência do mundo que a cerca e de que é preciso agir com cautela. Mas não, ela cede às emoções e se enraivece, grita, quer resolver tudo na hora, assim como muitas de nós. Quando estamos vivendo uma situação de perigo, medo, tensão estamos tão mergulhadas nessas emoções que é difícil raciocinarmos do que é melhor ou mais seguro fazer. É o que acontece quando June, finalmente em um lugar que parece seguro, pede as chaves para Nick e resolve que vai embora para o norte sozinha.

É um lampejo de coragem desmedida, é um desejo sobre-humano de resolver as coisas, de livrar-se do jugo, de seguir adiante, de abraçar a filha. Mas do mesmo jeito que esses 5 segundos de coragem desmedida chegam, também partem. E as cenas de sexo entre Nick e June logo após ela perceber que não pode sair dali naquele momento, querem nos mostrar que aquele é único momento em que ela pode ser dona do seu corpo e dos seus desejos. Naquele momento, assim como no quinto episódio da primeira temporada, o sexo entre Nick e June é libertação. June outra vez cavalga os seus desejos em liberdade, porque aquilo é o que ela quer fazer e não algo que a estão obrigando a fazer. Mas sim, está na hora de June poder fazer mais coisas além de se entregar aos seus desejos com Nick.

Por fim, mais uma coisa que me tocou profundamente nesse episódio foi o cenário do abrigo de June. Como jornalista, vislumbrar uma redação morta, com as rotativas paradas no meio do processo, as mesas vazias da energia enlouquecedora que mantém um jornal ativo foi um choque. A imprensa de um país diz muito sobre ele – o Brasil que o diga. No caso de Gillead a imprensa foi calada, seus operários aparentemente assassinados, suas vozes foram extirpadas do mundo como se fossem pragas. A imagem daquela redação diz muito sobre o que foi feito da liberdade de pensamento, opinião e existência na sociedade teocrática de Gillead, e o que ela diz é assustador.

The Handmaid’s Tale 2×02