Antes de começar devo confessar que dessa vez esperei que todos os episódios de The Handmaid’s Tale tivessem ido ao ar para assistir e escrever as resenhas de cada episódio. Não tenho para isso uma razão muito lógica. A verdade é que eu queria me manter um pouco a parte do frisson que a temporada geraria. Na primeira temporada eu me sentia assistindo a série sozinha, pouca gente acompanhou desde que ela começou, foi o trabalho de divulgação de sites como o Séries por Elas que instigaram o público brasileiro a acompanhar a trama, visto que o HULU não é internacional, ainda.

Então, quando a série realmente se tornou uma unanimidade entre o público, já avançávamos no sexto ou sétimo capítulo. Foi mais fácil não ser sufocada por uma avalanche de ‘diz que me disse’. O que já não foi tão fácil dessa vez. Confesso que assim que o primeiro episódio da segunda temporada foi ao ar eu assisti. Como sempre passei um dia remoendo os acontecimentos antes de poder comentar, às vezes até assisto de novo antes de escrever. Muita coisa passa despercebida em um episódio muito denso ou com muitos acontecimentos, para quem faz review de episódio é muito natural assistir mais de uma vez.

Bom, antes que eu pudesse me dedicar a escrever minha resenha dos episódios iniciais dessa temporada uma boa dezena de comentários surgiram por toda internet. Mas dessa vez não eram sites como nós ou nossos parceiros, eram os grandes veículos. E quando grandes veículos resolvem dar pitaco, minha amiga, geralmente a merda é grande. Um exemplo bem recente é aquela matéria que a Folha de S.Paulo fez com o pai do jogador Paulinho da seleção brasileira, né? Colocando o homem que abandonou a mulher e o filho como vítima.

Das coisas que vi o que mais me chamou atenção foram matérias que alegavam que as mulheres “jogavam a toalha” pra The Handmaid’s Tale pois havia muita violência. Outras classificaram a premiada série como pornô de tortura. Sinceramente eu gostaria de saber em que planeta pacífico e povoado de pandas essas pessoas – e esses veículos – vivem. A história da humanidade é uma história violenta. Territórios foram conquistados a troco de sangue, suor e diáspora. Em nome do deus cristão povos inteiros foram dizimados. A fé transformou ricos e prósperos continentes em mazela, sofrimento e dor.

E se a história da humanidade é uma história de violência, também o é a história das mulheres. Nós vimos sendo caladas, massacradas, estupradas, violentadas, castradas, assassinadas em nome do progresso, do avanço, da dominação e inclusive de deus. Em 2016, tramitaram na justiça brasileira mais de um milhão de processos referentes à violência doméstica contra a mulher, foram expedidas 195.038 medidas protetivas de urgência, em todo o país, 40% das mulheres que declararam ter sofrido violência física ou verbal de maridos foram de evangélicas, o Brasil registrou 1 estupro a cada 11 minutos em 2015 e cerca de 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes. Isso é violência.

Discute-se um projeto de escola sem partido no Brasil, uma clara intenção de silenciar mais e mais as meninas, os homossexuais e as mulheres. A escola é importantíssimo integrante na rede de garantia de direitos de crianças e adolescentes, muitas vezes é na escola que se percebe as mudanças de comportamento resultado de abusos e violações. Depois de casa, a escola é onde meninos e meninas passam mais tempo e como 57 % das violações acontecem dentro de casa, é no ambiente escolar que as mudanças de comportamento podem ser detectadas, isso é violência.

Em nome de uma dieta mais saudável acrescente castanhas de caju na sua alimentação. Acontece que a extração da castanha do caju é feita com mão de obra análoga a escravidão e INFANTIL, isso é violência. Mas será que quem acha que O Conto da Aia é desnecessariamente violento já parou pra pensar em como seus hábitos de consumo atingem violentamente a infância de crianças pobres?

Não faz muito tempo uma série de reportagens dava conta de que mulheres em situação de cárcere não tinham acesso a produtos de higiene e usavam miolo de pão como absorvente, isso minha amiga, isso é VIOLÊNCIA. É a violência mais comum, é diária, é naturalizada, é a violência cometida pelo Estado, cometida por quem deveria ser o primeiro a garantir os direitos humanos de mulheres, meninas, crianças e adolescentes.

E, se assim como eu, você já assistiu a segunda temporada de The Handmaid’s Tale, aí no conforto da sua casa, da sua cama, do seu sofá, no seu computador. Assistiu fazendo download ou streaming ilegal, né? Infringindo a lei. Mas tudo bem, do alto do conforto dos nossos privilégios isso é permitido. Compreendo absolutamente que certas cenas podem funcionar como gatilho para pessoas com um passado de abusos e violações. Mas se esse é o seu caso, amiga, você nem deveria ter começado a série, pois a trama é essa desde 1985, ano de lançamento da obra de Margareth Atwood.

Então, tendo essas coisas em mente, não espere nas nossas resenhas de The Handmaid’s Tale críticas à violência gráfica da série. Isso a gente reserva para Game of Thrones, que usa estupro como fetiche e sem acrescentar nada à trama. Ou House of Cards, que usa estupro para supostamente humanizar as mulheres da trama.

O mundo tem sido violento conosco desde sempre e a cada dia mais e ninguém parece se importar além de nós, as próprias mulheres. Se a cada 7.2 segundos uma mulher é vítima de violência física e ainda se ouve que a Lei Maria da Penha é injusta com os homens. Se a violência na porta ao lado não assombra, se a amiga que não usa mini saia por que o namorado não gosta, a tia que não corta o cabelo porque o marido não quer, a menina de 15 anos já sabe o quer ainda são corriqueiras no nosso dia a dia, nós precisamos sim contar com qualquer artifício que escancare para a sociedade o que é feito das mulheres.

Não sou ingênua de pensar que esse produto comercial tem como objetivo principal dar voz às mulheres ou jogar luz sobre os riscos que corremos quando deixamos idiotas como Trump e outros neo-fascistas nos governarem. Tenho plena consciência de que ele é feito por dinheiro, como tudo nesse mundo capitalista. Mas como tudo pode ser ressignificado, que tenhamos resistência para ressignificar esse produto midiático a nosso favor. Violenta tem sido a nossa história, violência é o que a sociedade faz conosco e com nossas irmãs todos os dias.

Dito isso – e eu espero que você tenha chegado até aqui – vou me dar o direito de ser um tico sem noção e fazer aqui uma comparação com Marx. O alemão disse: o proletário não tem nada a perder a não ser as suas correntes. Essa citação diz muito sobre a situação das aias nessa première. Uma coisa que me chamou muita atenção logo no início do episódio, foi o total horror das aias, todas elas, diante da possibilidade de serem enforcadas coletivamente. Pensando racionalmente, era óbvio que elas não seriam mortas.

As aias são a única esperança da sociedade continuar. Essas mulheres foram caçadas, separadas das suas famílias, treinadas e distribuídas entre os fiéis para que reproduzam seus filhos. Tudo isso porque o índice de infertilidade em Gillead é gigantesco. Assim, jamais que todas elas seriam sacrificadas. Isso seria um castigo para Gillead e não para elas. Mas o medo é o sentimento mais forte e simplesmente as impede de pensar racionalmente. As aias são o proletariado de Gillead, unidas detém o poder de estancar essa sociedade, mudar a escrita da história e dar fim aos horrores a que são submetidas, teoricamente.

Na prática o que se vê é o grupo que detém o maior poder sendo usurpado de todo e qualquer direito sobre seus corpos e mentes. Jogar sobre os ombros de Offred a culpa por todo o sofrimento é uma tática para quebrar uma liderança natural que ela passou a exercer sobre as outras. Isolá-la é senão a única, a melhor tática de fazê-la ir até o final da tão esperada gravidez sem que ela atente contra a criança, os Waterford ou o sistema.

O que Tia Lydia e os demais não contavam é que o Olho, provável pai da criança que June gesta, também tem planos para tirá-la de lá. Nós já sabíamos sobre o Mayday, mas ainda não tínhamos vislumbrado o tamanho de sua atuação. Há membros da resistência espalhados por todos os níveis. Desde os seguranças, os Olhos, motoristas, trabalhadores, aias. E é assim que June consegue fugir. A essa altura, June já uma espécie de Katniss Everdeen. Não foi sua escolha, mas ela acabou sendo transformada em um símbolo da resistência e agora, é provável que todos trabalhem em torno de salvá-la, para que ela seja o tordo dessa suposta revolução.

Isso tudo se realmente acontecer uma revolução nessa temporada, o que se houver será lá pelos últimos episódios, pelo que ouvi dizer pelas redes sociais. A minha questão aqui é que essa é a imagem que a première nos oferece. Nessa temporada, como já conhecemos o sistema, vamos nos embrenhar pelos seus aspectos mais nebulosos enquanto tentamos salvar a protagonista. Uma temporada que promete, sem dúvidas.

Voltando a falar em violência, ela está presente também muito antes da revolução teocrática começar. June é duramente julgada pela sociedade por ser uma mãe que trabalha em tempo integral. Cada vez que aquela assistente social se recusa a chamá-la de June Osborne e usa o sobrenome do marido, que June não carrega, violenta a personagem. E a cada pergunta em tom condescendente sobre os cuidados com a filha, June é violentada novamente.

Um retrato da nossa sociedade, sim ou com certeza? Cada mulher que é mãe já passou por isso. Os olhares culpabilizando a mulher por cada respirada mais funda que a criança dá. Se trabalha está largando a criança, se não trabalha abandonou a si mesma por causa do filho. Quem nunca respirou fundo no supermercado e pensou “pra que trazer crianças aqui”? Quem nunca achou ruim uma gestante passando na sua frente na fila? Quem nunca pensou que se mãe tivesse dado educação a criança não estava sapateando e chorando em público?

É queridas, isso é o quanto nosso feminismo ainda precisa crescer. Acostumadas que somos enquanto sociedade e excluir as mulheres que são mães da nossa militância. Mas um feminismo que não abarca em sua luta as crianças e adolescentes, não poderá vigorar. Mulheres que são mães merecem e precisam de acolhimento, compreensão e mais do que isso, apoio. É certo que cada uma de nós já torceu o nariz pra criança birrenta, sem pensar por um segundo que aquela mãe pode estar cansada, tendo que dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo e apenas naquele momento ela largou aquele pedacinho de gente ali aos berros simplesmente para não enlouquecer.

Se nos indignamos com a forma que June foi tratada nesse episódio mesmo antes da revolução, por que fazemos a mesma coisa? É aí que The Handmaid’s Tale veste as luvas e dá na nossa cara. É um tapa delicado, mas que deveria servir como alerta muito mais do que as cenas de estupro. A violência silenciosa que cometemos umas com as outras diz muito sobre nós e nossa militância.

The Handmaid’s Tale 2×01