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Primeiras Impressões: The Bold Type

Primeiras Impressões: The Bold Type

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A primeira impressão após o primeiro episódio de The Bold Type não é das melhores. Mas eu costumo ser compreensiva e dificilmente escrevo sobre uma série após o episódio piloto. Na maior parte das vezes, o piloto é isso mesmo um piloto, um norte que se deseja seguir. Após ele ser exibido muitos ajustes podem ser feitos e muita coisa pode ser melhorada. Assim, ao terminar o primeiro episódio fiquei com uma cara meio bleh.

A sinopse me ganhou de cara: três amigas vivendo em Nova York. Não preciso de muito mais quando a história começa com amigas naquela cidade. A única vez que uma sinopse dessa me decepcionou foi em Girls. The Bold Type tem seus problemas, mas eles estão muito distantes das mimadas meninas Millennials lideradas por Lena Dunham.

Talvez o maior erro do piloto tenha sido colocar em destaque a história menos feminista possível. Assim que as personagens são recém apresentadas e somos introduzidas ao universo delas, o primeiro conflito profissional da personagem promete desenvolver uma boa trama. No entanto, o que parecia ser um desafio intenso e adulto, se transforma em uma pauta juvenil com a personagem tendo que stalkear um ex.

Sutton (Meghann Fahy), Kat (Aisha Dee) e Jane (Katie Stevens) formam a trinca de representatividade que você verá na série. Uma loira, uma negra e uma morena. Todas magras, com formação superior e um bom emprego. Há uma certa aura de Sex and the City subtendida. Elas têm aproximadamente 25 anos e trabalham na Scarlet, uma revista feminina, uma espécie de Cosmopolitan, que conseguiu se reinventar para os novos tempos e, ao contrário das demais publicações impressas, mantem-se firme em vendas e aceitação.

Apesar das três jovens mulheres teoricamente liderarem a série, é inegável que Jane é a protagonista. As histórias centrais estão sempre com ela, os enfrentamentos e conflitos da personagem dão o tom central do episódio. Apesar das histórias vividas pelas outras duas amigas não ficarem apagadas. Pelo contrário, apesar dos conflitos enfrentados por Jane, são as histórias de Sutton e Kat que nos saltam aos olhos em realidade e identificação.

Quebrando o paradigma, dessa vez a personagem negra é a rica da vez. Kat é filha de pais bem-sucedidos, estudou em excelente universidade, viajou o mundo, fala outras línguas e mora em seu próprio apartamento. É um alívio finalmente poder ver a personagem negra enfrentando outros dilemas que não o de grana. A personagem é firme, corajosa e decidida. Seu conflito principal nos primeiros episódios é lidar com sua orientação sexual e uma recém experimentada bissexualidade.

Enquanto isso, Sutton, que namora às escondidas – ou nem tanto – um alto executivo da revista é assistente. De família menos privilegiada, com uma mãe que nunca a apoiou, cursou a faculdade perto de casa e fez apostas seguras. Ao contrário das amigas, sabia que não poderia contar com uma rede de proteção em caso de tudo dar errado. Ela está tentando galgar outros espaços na revista. Quer trabalhar com moda, tem talento e vontade, mas a insegurança do que uma mudança como essa representa a deixa paralisada. O plot de Sutton nos remete vez ou outra à O Diabo Veste Prada.

Enquanto isso, Jane é a jornalista. Recém promovida a ter sua própria coluna na publicação, toda semana ela está às voltas com a dificuldade de encarar um assunto que não domina e falar sobre ele para milhares de pessoas. E é bem isso que é ser jornalista. O interessante nesse caso, é que ela é confrontada com seus medos e suas crenças, forçada a repensar a si e seu lugar no mundo. Nesse ponto, é impossível não lembrar da personagem de Kate Hudson em Como Perder um Homem em 10 Dias. Jane também quer produzir conteúdo mais engajado e político, mas para isso vai precisar provar seu valor.

Mas ela não faz isso sozinha. E é aqui que mora o ponto menos crível do show. A chefe é uma editora poderosa, ao estilo Miranda Priestly, mas ao contrário. Ela é boazinha, compreensiva e sempre tem um conselho salvador que faz com que suas pupilas encontrem o caminho adequado.

Um ser humano como Jacqueline (Melora Hardin) na redação de um veículo aos moldes da Scarlet é, como dizer, o santo graal do jornalismo, nón ecziste! E nesse ponto a série peca demais pra mim. É muito pouco crível que a mulher que toca uma revista de porte gigante, teria tanto tempo a dedicar aos conflitos pessoais de suas pupilas. Por mais que em alguma medida seja confortável vê-la apoiando Jane e Kat em seus embates pessoais e profissionais, esse ponto coloca uma certa dose de açúcar desnecessário à trama.

Por outro lado, assistimos as mulheres se apoiando, e não apenas entre as amigas, há uma certa sororidade entre todas elas ali. Arrisco dizer que a série está muito próxima de poder se encaixar como feminista. É claro que apenas com alguns episódios de uma temporada fica difícil afirmar. Ainda mais depois de uma temporada com lançamentos como The Handmaid’s Tale.  Mas a produção passa fácil no Teste Bechdel, que em alguma medida já a coloca em um lugar melhor do que o normal.

As mulheres em cena não dependem de ninguém para alcançar seus propósitos. Não há nenhum homem vindo salvar o dia. Os homens em cena cumprem com seus papéis propostos. Há Richard, o namorado proibido da Sutton que também é um dos chefes do corpo editorial. Nos primeiros episódios, Richard é companheiro, encorajador e divertido. Também há os velhos, ultrapassados e conservadores homens do conselho com quem Jacqueline e as demais têm que lidar. E também o jornalista Alex (Matt Ward), que cumpre o papel constante de ser um bom colega de trabalho para Jane, encorajando-a quando ela está prestes a desacreditar de si.

Enfim, The Bold Type aglutina muitas referências cinematográficas dos anos 2000 para contar a história de três jovens mulheres e seus desafios pessoais e profissionais em Nova York. Lança mão de um discurso engajado, mas o faz catastroficamente na trama central no primeiro episódio. Mas já não podemos dizer o mesmo dos episódios seguintes quando as personagens são confrontadas com situações absolutamente possíveis do mercado de trabalho. A série vale a audiência, é uma boa estreia e, a julgar pela evolução dos episódios, tende a melhorar bastante.

The Bold Type é uma produção do canal Freeform, criada por Sarah Watson.

PS: É absolutamente impressionante como Katie Stevens está a cara da Vanessa Giácomo! 

The Bold Type

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