Baseada no livro homônimo de Caleb Carr e produzido por Hossein Amini, The Alienist entrou recentemente para o catálogo da Netflix. Originalmente, seus dez episódios foram ao ar entre janeiro e março deste ano pela TNT. Com Daniel Brühl, Luke Evans e Dakota Fanning no elenco principal, The Alienist mostra uma difícil investigação que busca solucionar uma série de assassinatos que acometeram apenas meninos prostitutos de Nova Iorque.

Na série, o comissário de polícia Theodore Roosevelt solicita que o alienista Laszlo Kreizler, o repórter John Moore e sua assistente Sara Howard conduzam uma investigação paralela, por entender que a polícia não estava dando a importância devida ao caso. O trio principal é auxiliado pelos irmãos gêmeos judeus Marcus e Lucius Isaacson, inspetores do departamento de polícia. É interessante observar que o enredo mistura fato e ficção, uma vez que Theodore Roosevelt foi não apenas presidente dos Estados Unidos (1901-1909), mas também responsável por reformar radicalmente o departamento da polícia de Nova Iorque, enquanto comissário.

Por suas cenas fortes de suspense e por volta e meia enganar os espectadores a partir de um jogo de informações não reveladas, The Alienist pode também ser considerado um thriller psicológico. Apesar de contar com poucos episódios, a série apresenta seus personagens principais com profundidade, enquanto nos deixa a par de uma transformação cultural profunda que o final do século XIX e o início do século XX traziam para os Estados Unidos –  e para o mundo.

Laszlo é um alienista. Para a época, ele é o que hoje chamamos de psiquiatra. É um personagem fascinado pela loucura, com uma carga empática tão grande que, ele mesmo, parece ser um louco (e não é que somos todos?). É como se ele estivesse descobrindo a psicologia, à medida em que ela se revelava enquanto prática a todos. Por isso, ele mesmo comete equívocos no meio de todo esse percurso. Lidar com pessoas que tenham qualquer transtorno como pessoas comuns, como iguais, não era comum para a época. Mas Laszlo o faz e é ele mesmo um elogio à Psicologia como um todo.

John Moore é um bom moço. Trabalha como jornalista do New York Times (sim, ele existe desde 1851) e leva a sério sua função de informar, arriscando a vida para conseguir as informações que quer compartilhar. Foi traído pela esposa e é mal visto por todos por beber muito e viver em prostíbulos. Grande amigo de Laszlo, John é corajoso e passional. Por vezes, ele não entende a frieza com que o alienista lida com o assassino que buscam.

Sara Horward é amiga de John desde sua infância e é grande admiradora do trabalho de Laszlo. É a primeira mulher a integrar o Departamento de Polícia de Nova Iorque, onde trabalha como assistente de Roosevelt. Sara é uma mulher deslocada para sua época. Solteira, fuma em locais públicos e permite-se andar sozinha pelos becos da cidade. O que hoje é comum, no século XIX era hostilizado. Frequentemente vítima de assédio em seu ambiente de trabalho, Sara persiste e quer provar sua inteligência a todo custo. Seguindo seu ímpeto questionador, ela entra em conflito diversas vezes com seus próprios amigos – que tampouco estão habituados a conviver com uma mulher como ela.

Além de toda a trama principal, a série conta com um pano de fundo singular. O Manifesto Comunista de Karl Marx foi publicado em 1848 e marcou as lutas urbanas que ocorreram na Europa durante esse período. Como reflexo disso, Nova Iorque vivia a formação de seus primeiros partidos trabalhistas e, sim, esse detalhe histórico é apresentado em algumas cenas. No mesmo ano, aconteceu a primeira convenção pelos direitos das mulheres em Nova Iorque, que marcou a história do feminismo no Ocidente. Uma de suas reivindicações era pelo voto feminino e, em algumas cenas do seriado, é possível ver passeatas de mulheres sufragistas.

Inclusive, a própria entrada de Sara na polícia é reflexo desse momento que vivia Nova Iorque. A História nos conta que Minnie Gertrude Kelly foi a primeira mulher a trabalhar na sede da polícia da cidade, nomeada como secretária da Junta de Polícia em 1895. E, em 1912, Isabella Goodwin foi apontada como a primeira detetive do sexo feminino.

Há ainda questões mais singelas tratadas na série, como os relacionamentos afetivos e as controvérsias de ser uma mãe solteira na época. Tudo isso com uma sutileza que, sugiro, assistir quantas vezes for preciso para captar tudo o que o seriado quer dizer. Os meninos prostitutos assassinados também representam um dos principais pontos da série. As crianças, sempre vestidas com roupas consideradas femininas, eram mutiladas e deixadas em locais altos, como pontes e terraços.

Por serem figuras marginalizadas, muitos não encaravam seus assassinatos com a profundidade necessária – revelando assim os preconceitos que eram senso comum na época. Por essa razão, e pelas dificuldades de se realizar uma investigação dentro de um departamento corrupto, o comissário Roosevelt recorre aos amigos especialistas. O perfil psicológico não era considerado até então como algo relevante para solucionar os casos. Também não era popular a expressão “serial killer” – que na verdade só foi nascer nos anos 1970.

Laszlo, contudo, se dedica a desenhar esse perfil e a determinar os padrões do assassino tanto para solucionar o caso, quanto para dar sequência a suas pesquisas científicas. E o que temos como resultado disso é uma história cheia de suspense, com um final rico e, como pano de fundo, uma linda homenagem à Psicologia, ao Feminismo, ao Jornalismo e à História.