Falar sobre uma personagem tão bem construída como Stella Gibson, da série The Fall, é fácil. Justamente porque Stella é produto do seu meio. Um ambiente naturalmente misógino e violento. Seu comportamento frio e misterioso disfarça uma profunda sensibilidade e sororidade. Stella sofre as dores femininas do mundo.

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É visível sua luta para empoderar as mulheres a sua volta. Ao transformar a insegura policial Ferrington em sua assistente, Gibson não só a protege como dá a chance de que ela se destaque. Um exemplo claro da força da parceria feminina. Ao formar sua equipe, ela preferiu misturar homens e mulheres, sempre atenta à habilidade individual deles.

A maneira como Stella encara a pressão no trabalho é incrível. A tensão aumenta a cada temporada, já que o tempo todo sua vida pessoal é usada como argumento para questionar sua competência. É interessante ver como não há privacidade quando uma mulher está no poder. Tudo vira domínio público. Mas Gibson rebate com um discurso sempre afiado e coerente às suas atitudes. Ela não se desculpa por ter transado com um policial casado. Ela não aceita a proteção de seu superior, Burns, que constantemente tenta “preservá-la”. Mas a cena mais representativa é quando Stella vai a um bairro perigoso e acaba abordada por uma gangue de homens. Ela não aperta o passo, olha nos olhos e juro, em alguns momentos achei que ela fosse cuspir na cara deles. Stella não teme a ninguém, principalmente os homens.

Mesmo durona,  não perde sua feminilidade. Seu guarda roupa é sempre sexy, com decotes e saias. Não descuida nem da lingerie. Stella é totalmente consciente de quem é e se orgulha disso. De ser mulher. Sabe controlar suas emoções como ninguém, não perde a compostura nem nos momentos finais. E acreditem, eles são bem tensos. Gibson dá uma lição sobre cultura do estupro, quando pede para que o marido da vítima seja solidário e não questione por que sua mulher não tentou fugir. A culpa nunca é da vítima. Quando é indagada sobre sua obsessão pelo assassino, Stella é taxativa. Enquanto o maior medo de um homem é que as mulheres riam deles, o maior medo de uma mulher é ser morta por um homem. Ou violentada. Não há lugar seguro para as mulheres. Gibson se dedica a mudar esta realidade.

É como se ela fosse o modelo ideal, a mulher que lutamos para ter o direito de ser.  Algo quase utópico, de tão libertador. Talvez esse seja o único defeito dessa personagem tão bem amarrada. Gibson te desperta admiração, reflexão, e um monte de outros sentimentos. Inclusive o de que talvez você nunca tenha a chance de ser como ela.