Faz 12 anos desde que Star Trek esteve na TV pela última vez, quando Enterprise foi cancelada em sua quarta temporada com baixíssima audiência. Star Trek se reinventou desde então, como uma franquia cinematográfica de sucesso e conquistou muitos novos fãs, eu inclusive. Assistir a mais clássica franquia de ficção científica do mundo voltar para TV, estar viva para ver Star Trek na TV, não pode ser nada além de um momento marcante. A estreia de Discovery é uma alegria para qualquer fã ansioso para ver a criação de Gene Roddenberry adentrar essa nova era de ouro televisiva.

Discovery é muito diferente de suas antecessoras, a série opta por uma narrativa seriada mais parecida com a dos dramas televisivos atuais e deixa de lado o caráter episódico da série clássica. Por conta disso, é difícil falar da série como um todo logo nesse começo. Ela é definitivamente a série de Star Trek com maior valor de produção, mais bem dirigida e tem potencial para ser a mais bem atuada. Discovery, em seus dois episódios de estreia, é a encarnação mais sombria e pessimista da franquia. O que é uma pena, porque é justamente o otimismo que torna Star Trek especial.

Nós vivemos um momento muito pessimista na mídia ultimamente, especialmente na TV. O futuro não tem sido algo que imaginamos com otimismo. Então o futuro desconfiado e em guerra a que somos introduzidos nesse início de Discovery, como uma forma de modernizar a franquia, não é tão surpreendente. Mas ainda há esperança para quem esperava o retorno de Star Trek para a TV como um suspiro otimista. “The Vulcan Hello” e “Battle At The Binary Stars” parecem muito mais um prólogo. Nesses primeiros episódios não somos apresentados à tripulação que acompanharemos ou sequer à nave.

Algumas das interações entre a personagem de Sonequa Martin-Green e outros membros da tripulação da USS Shenzhou nos mostram o que a série pode vir a ser. A capitã Georgiou, interpretada por Michelle Yeoh, é apresentada como uma capitã confiante e divertida. Ela soluciona seus problemas de forma criativa e só se preocupa na hora que preocupação é realmente necessária. Seus primeiros minutos em tela, no deserto ao lado da sua primeira oficial, Michael Burnham, lembram o capitão Kirk e a dinâmica entre as duas à de Kirk e Spock. É impossível não ter um sorriso no rosto. A interação de Burnham com Saru (Doug Jones) também é ótima e tem potencial para trazer mais humor à série.

O que Discovery faz de melhor em seus primeiros episódios é desenvolver sua protagonista. O desenvolvimento e drama alimentado por personagem é impecável aqui. Michael Burnham é uma personagem complexa, tridimensional, com um passado interessante e profundamente ligado à trama que acompanhamos. Suas reações às situações são facilmente compreensíveis e o espectador rapidamente se apega a ela. Sonequa entrega uma excelente performance. Há nuance nas diferentes fases em que somos apresentados à personagem e em como ela interage com as diferentes figuras de autoridade em sua vida.

Aliás, o que me lembra que eu preciso elogiar a performance de James Frain como Sarek. Toda vez que ele aparecia eu me sentia mais estabilizada. É exatamente o mesmo efeito que ele tem na protagonista. E ainda assim, há nuance na forma como ele demonstra afeto e deposita confiança além das suas palavras, por trás da lógica vulcana. Ele é um dos personagens que eu estou mais ansiosa para ver mais. É um personagem tão conhecido, mas que teve tão pouco explorado. E mais, ainda estou me perguntando se Amanda vai aparecer em algum momento. Amanda, eu quero ver a senhora!

Quanto aos klingons, eles são vilões interessantes aqui. Seus motivos são claros e até compreensíveis de certa forma. A guerra conta a Federação como uma forma de voltar a ser uma raça unida faz sentido. Chris Obi, que interpreta T’Kuvma, o capitão da nave que entra em conflito com a Shenzhou, é convincente e intimidador. O visual novo dos klingons é interessante. A maquiagem é criativa e é fácil diferenciá-los entre si, o que é extremamente importante para dar suporte ao argumento de individualidade que a raça faz na série.

Para mim, o esforço para tornar os membros de uma raça alienígena diferentes entre si é tão milagroso em ficção científica hoje em dia, que consegue superar qualquer outra reclamação sobre como a maquiagem e a armadura são restritivas para as performances dos atores. Eles são grandes e intimidadores, eu tenho a impressão de que era exatamente isso que eles queriam quando os deram esse visual, então faz sentido.

O único problema que eu realmente tenho com os klingons de Discovery é que eles são uma máquina de exposição ambulante. Tem tanta exposição vindo deles nesses primeiros dois episódios que há momentos em que eles se tornam entediantes. Klingons entediantes! É quase uma tragédia. Mas quando tanto os klingons, quanto qualquer personagem de Discovery está fazendo, ao invés de expondo, a série tem bom ritmo e engata em boa ação e drama de personagem.

Em dado momento do episódio, um jovem membro da tripulação da USS Shenzhou diz pra Michael Burnham: “somos exploradores, não soldados“, e ainda que haja muita guerra em sua introdução, só pelo fato dessa fala estar aí, eu não acho que os criadores de Discovery se esqueceram. Ainda que seus primeiros episódios não lembrem tanto o que eu amo em Star Trek, Discovery apresenta uma das melhores introduções à uma série que eu já vi na vida, e talvez a melhor para uma série de ficção científica.

Mais do que qualquer coisa, eu estou ansiosa para conhecer a tripulação e a USS Discovery. Porque no fim do dia, é isso que importa em Star Trek. Se esse prólogo for algum indicativo, Discovery se importa profundamente com seus personagens. Assim, estou otimista que a série dará espaço para sua tripulação brilhar e ansiosa para ver o real começo da Discovery a partir de semana que vem.

Star Trek Discovery