Até então Star Trek: Discovery vinha sendo para mim uma boa hora de televisão semanal, mas absolutamente de nenhuma forma Star Trek era algo estranho, porque obviamente eu não preciso que algo seja Star Trek para que eu goste, mas eu estava e não estava assistindo Star Trek ao mesmo tempo. Levou o total de cinco episódios para acontecer, mas finalmente desde sua estreia, essa semana em Star Trek: Discovery eu me senti, ao menos um pouco, assistindo Star Trek.

A trama do motor de esporos vinha sendo algo estranho e desinteressante até a aparição do Estripador, a gigante porém dócil criatura gerou uma ótima linha narrativa. No final do episódio passado, já dava para o espectador perceber claramente que a pobre criatura estava sofrendo para navegar a Discovery e esse episódio já começa com a metáfora mais óbvia do mundo, em que Burnham está no lugar da criatura gritando de dor. Independente da falta de sutileza, a mensagem é clara, Michael não pode mais deixar aquela criatura sofrer.

Enquanto isso, a Almirante Cornwell informa ao Capitão Lorca que toda Frota Estelar está procurando por tardigrados espaciais, a espécie do Estripador, para replicar a tecnologia de navegação da Discovery. O que acontece é que, na volta desse reunião, Lorca sofre uma emboscada e é captura por uma nave Klingon. Entre os prisioneiros dessa nave conhecemos Ash Tyler, que está lá desde a Batalha das Estrelas Binárias, aquela que acompanhamos no segundo episódio da série. É entre os prisioneiros também que encontramos Harry Mudd.

Eu nunca fui a maior fã de Mudd, pra falar a verdade eu acho que ninguém nunca foi e eu acho difícil de entender justamente ele ser a escolha de personagem clássico para aparecer, mas eu também não desgosto do personagem e aqui ele é uma adição no mínimo interessante. A versão de Rainn Wilson do personagem é surpreendentemente sensata em certos momentos, e apesar de um pouco mais sério do que sua versão clássica, esse Harry Mudd é carismático e interessante o suficiente para fazer o espectador querer vê-lo novamente. O que, aliás, já sabemos que vai acontecer, existem imagens de Mudd na Discovery, então é esperar pra ver como ele vai parar lá.

Quanto aos klingons, a coisa deu uma piorada. Se o que me agradava nessa versão dos klingons era o quão distante dos humanos eles eram, de forma com que toda aquela codificação racista contra asiáticos fica de fora, nesse episódio isso foi por água abaixo. Eu tenho muitas questões a serem levantadas, mas  primeira é onde está o tradutor universal? Por que colocar klingons pra falar inglês com sotaque? Me deu um flashback bizarro pra todo o passado dos klingons que eram caras brancos com a cara pintada de marrom e bigode chinês. Discovery, não era pra você está me lembrando da parte ruim de Star Trek, mas da parte boa.

A segunda maior questão dessa versão dos klingons, que não faz muito sentido pra uma raça que dá tanto valor a honra serem torturadores, é que além de tortura física e psicológica, fica implícito que um deles, uma mulher pra ser mais exato, é também uma estupradora. Ash Tyler, um dos prisioneiros, alega ter sobrevivido por tantos meses naquela prisão sem muitos ferimentos porque a klingon L’Rell tomou gosto por ele. Mais pro final do episódio ainda tem uma cena brutal em que ele a espanca loucamente e queima seu rosto. A câmera foca nela ali jogada no chão e queimada, em uma posição fragilizada, por tanto tempo que não dá pra não achar estranho.

Poderia ser algo a se comemorar, termos um personagem não branco sobrevivente de abuso sexual entre a tripulação, Ash Tyler certamente tem uma história interessante pra se explorar. Mas pela forma como tudo sobre o personagem é mostrado me dá uma sensação muito ruim, e eu tenho a impressão de que um personagem apresentado inicialmente com uma vítima pode acabar sendo um traidor ou um espião e só de pensar nesse tipo de trama já deixa um gosto ruim na minha boca.

Mas vamos pras coisas boas, temos muito da tripulação trabalhando junta e resolvendo problemas com fortes questões morais nesse episódio. E tem coisa mais Star Trek que isso? Michael Burnham vai atrás do Dr. Culber pra pedir ajuda em pararem de machucar o Estripador, e ele concorda com ela que a criatura realmente está sofrendo. Aliás, temos um bocado de Dr. Culber nesse episódio e eu já o amor, que personagem sensato e querido! Os dois vão tentar convencer Stamets de procurar outras maneiras de fazer o motor de esporos funcionar, mas a tarefa se mostra muito difícil, já que o Capitão da Discovery foi capturado e eles precisam daquela tecnologia para trazê-lo de volta rápido.

Como Lorca não está na nave, quem age como capitão é Saru e há um excelente aprofundamento do personagem aqui. Conhecemos seus medos, ânsias e arrependimentos. Como Burnham o deixa inseguro, pois ela tirou tanto dele em seu motim. Entendemos a terrível posição em que ele é colocado, torturando uma criatura estranha, como ele pode ser visto por alguns, mas por necessidade de salvar seu capitão, depois de já ter visto um Primeiro Oficial perder a sua capitã anterior. É só através do tempo que a série nos dá para entender as forças que movem Saru que ele não se torna um personagem detestável nesse episódio, quando ele manda sua tripulação continuar a machucar o Estripador.

Quem salva o dia é Stamets, que arrisca a sua vida pela do Estripador, injetando DNA de tardigrado em si e navegando o motor de esporos ele mesmo. É interessante a escolha de ser ele quem toma essa decisão, eu passei o episódio inteiro achando que seria Burnham, mas ela é confinada a seus dormitórios propositalmente para que ela não pudesse ter a chance de fazê-lo. Stamets vinha sendo um personagem muito duro até então, mas algo que sempre soubemos sobre ele é que ele não era um soldado, mas um cientista. Esse ato amável, então, é uma surpresa só até certo ponto.

O que o DNA de tardigrado e a viagem com os esporos causa em Stamets, porém, é o que vai ficar desse episódio. Eu tinha escutado rumores de que Star Trek: Discovery teria o elemento do universo espelhado como algo muito importante. De que forma, eu não sei, mas a última cena de Stamets diante do espelho é o sinal para nos prepararmos para muito universo espelhado.

Em outras notícias, Dr. Culber e Stamets são um casal adorável e eu já shipo forte. Espero que o universo espelhado não impeça os dois de viverem felizes para sempre.