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Sansa Stark e a violência contra a mulher em “Game of Thrones”

Sansa Stark e a violência contra a mulher em “Game of Thrones”

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Contém spoilers

Durante a quinta temporada de Game of Thrones, muito se falou sobre as violências sofridas por Sansa Stark após seu casamento com o sádico Ramsay Bolton. Ambos protagonizaram uma das cenas mais chocantes da série na qual Sansa é estuprada por Bolton, que ainda obriga Theon Greyjoy a assistir.

Mas a verdade é que Sansa, como a maioria das personagens femininas de GoT, trilha um caminho de violência desde a primeira temporada. Caminho esse que, inclusive, serve de grande metáfora para o histórico de violência que assola as mulheres há milênios – entendendo aqui o conceito de violência de gênero como uma relação de poder de dominação do homem e de submissão da mulher.

São muitas as formas em que a violência contra a mulher se apresenta, mas nem todas são tão facilmente notadas. A socióloga feminista brasileira Heleieth Saffioti, soube pontuar bem essa linha tênue entre os diferentes tipos de violações cometidos contra as mulheres, em seu livro “Gênero patriarcado violência” ela disse:

“O que se mostra de difícil utilização é o conceito de violência como ruptura de diferentes tipos de integridade: física, sexual, emocional e moral. Sobretudo em se tratando de violência de gênero, e mais especificamente intrafamiliar e doméstica, são muito tênues os limites entre quebra de integridade e obrigação de suportar o destino de gênero traçado para as mulheres: sujeição aos homens, sejam pais ou maridos”.

Assim, pontuamos aqui algumas das violências que Sansa Stark sofreu desde o início de sua trajetória em Game of Thrones, justamente para colocar essa questão em foco e nos fazer refletir sobre o que é e como se dá a violência contra a mulher.

A obrigação do casamento e a sujeição ao marido

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Sansa começou na série como uma menina ingênua, tanto quanto mesquinha, que acreditava em contos de fadas. Toda a realidade que ela conhecia era a que envolvia Winterfell, seu lar. Ela foi educada para ser uma lady e, diferente de sua irmã Arya, aceitou bem esse destino. Tudo bem você querer ser “do lar”, né? Mas o problema é que quando Sansa começou a conhecer o verdadeiro caráter de Joffrey Lannister, o futuro rei, a quem estava prometida, claramente não ficou mais feliz com esse destino e, não, ela não teve poder de escolha sobre isso.

Em Westeros, as mulheres devem se casar e ter filhos para garantir a continuação da sua família e, assim, a permanência de sua casa. Esse é o destino traçado para elas (e não é que se parece com o destino de muitas mulheres da nossa história?). Joffrey, contudo, teve poder de escolha e decidiu não se casar mais com Sansa e sim com Margaery Tyrell, por influências políticas.

Ao longo das seis temporadas, Sansa se casou com Tyrion Lannister (que durou muito pouco devido a fuga de ambos de Porto Real) e depois com Ramsay Bolton. Tudo isso porque ela não tinha como se proteger sozinha, já que até onde sabia, toda sua família estava morta. Casar-se foi a forma mais simples, senão a única, que encontrou de conseguir algum nível de proteção e, assim, garantir sua sobrevivência. Em todas essas ocasiões, não foi permitido a Sansa discordar de seu marido. Caso o fizesse, sofreria outros tipos de violência, como ocorreu com Joffrey e depois com Ramsay.

Ainda hoje, muitas meninas continuam enxergando no casamento uma forma de ascensão e, por isso, aceitam se casar cedo como forma de livrarem-se de pais abusivos. Porém, quase sempre elas encontram nos maridos um espelho do que tinham em casa. Além disso, o casamento forçado infelizmente ainda é a realidade de muitas meninas em todo o mundo. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), todo ano, cerca de 10 milhões de meninas são casadas antes de completar 18 anos de idade. As meninas que são vítimas de casamentos servis passam por diversas outras violências domésticas, como servidão e escravidão sexual e sofrem violações de seu direito à saúde e à educação. Esses são meios de negar à mulher seu poder de escolha, fazendo com que ela seja obrigada a “suportar o destino de gênero traçado para as mulheres”, ou seja, a sujeição aos homens.

A violência doméstica

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A violência doméstica é aquela que, essencialmente, ocorre dentro de casa, entre familiares ou parentes. No caso de Sansa, ela começou a sentir na pele o que isso significava já em seu noivado com Joffrey. Mesmo que ele não a agredisse fisicamente, a violência ocorria de outra forma, tanto é que o então futuro rei chegou a assassinar o pai de Sansa, Ned Stark, na sua frente, após ela ter pedido misericórdia em seu nome. Além disso, ela foi forçada a fazer um passeio em torno das muralhas do castelo, onde são exibidas, penduradas em estacas, as cabeças dos traidores da coroa. Joffrey lhe obrigou a olhar para a cabeça decapitada de seu pai, afirmando que em breve colocaria a cabeça de seu irmão, Robb Stark, em uma estaca também. Sansa acaba reagindo e diz que talvez acontecesse o contrário. Como consequência, Sor Meryn Trent, que os acompanhava, a agride fisicamente.

Já no casamento com Ramsay Bolton, a violência foi muito menos sutil. Após obrigar Sansa a ser acompanhada até o altar por Theon Greyjoy, quem ela acreditava ter matado dois de seus irmãos, Ramsay estupra Sansa em sua noite de núpcias e obriga Theon a assistir toda a violência. Essa cena, aliás, gerou tanta repercussão entre os fãs que nos levou a refletir sobre a presença do estupro na série (leia no site Lugar de Mulher o texto Game of Thrones e o estupro). Ele ainda a manteve em cárcere privado e fazia com que Theon levasse sua comida.

A violência doméstica e intrafamiliar contra a mulher é certamente uma violação dos direitos humanos e é também uma realidade das mulheres brasileiras. No Brasil, em 2011, o Sistema Único de Saúde atendeu mais de 70 mil mulheres vítimas de violência, sendo que mais de 70% desses casos ocorreram no ambiente doméstico. Esse tipo de violência caracteriza qualquer ação ou omissão que cause à mulher morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial. Ela pode ocorrer: 1) dentro de casa, compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas; 2) no âmbito familiar, compreendido como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa; 3) ou mesmo dentro de qualquer relação íntima de afeto na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação (como é o caso de violência entre casais e ex-casais). Saiba mais acessando o dossiê elaborado pela Agência Patrícia Galvão sobre o tema.

Abuso psicológico e inteligência questionada

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Sansa só consegue finalmente escapar de Porto Real com a ajuda de Petyr Baelish (o Mindinho) e, a partir daí, ele se sente em posição de dominação e passa a exigir, ainda que de forma extremamente sutil, determinados comportamentos de Sansa – mesmo que contra a sua vontade. Mindinho a leva para o Ninho da Águia onde sua tia Lysa vive. Lá, ele deixa claro que tem segundas intenções com Sansa dando-lhe beijos forçados sempre que podia. Lysa descobre e, sendo apaixonada por Baelish, ameaça jogar a sobrinha no Portão da Lua. Mas, no fim, quem foi empurrada foi Lysa e por Mindinho. Foi ele quem, inclusive, levou Sansa para a casa dos Bolton e acabou provocando a realização de seu casamento abusivo e desastroso com Ramsay.

Após fugir dos Bolton com Theon, Sansa reencontra seu irmão Jon Snow e só então ela começa a ter uma leve ascensão na trama e uma pequena vitória em sua luta por liberdade. Mesmo tendo sua inteligência questionada diversas vezes por Jon durante o debate sobre a Batalha dos Bastardos, Sansa decide (uma decisão, enfim) pedir ajuda a Mindinho, solicitando que envie o exército do Vale como reforço para a batalha – o que, então, leva à vitória de Jon e Sansa contra os Bolton. A sexta temporada termina com Sansa cedendo o comando de Winterfell (afinal ela é uma mulher solteira, não “pode” governar) para seu irmão Jon Snow, sob os olhares de Mindinho que pareciam querer cobrar-lhe alguma dívida.

Abusos psicológicos, chantagens emocionais e diversos comportamentos machistas são também formas de violência. Ainda que mais sutis, essas violações fazem parte do nosso dia-a-dia e nem sempre percebemos. São “gestos que parecem inofensivos, mas que na verdade roubam nossa força, nosso espaço e limitam as possibilidades das mulheres”, como explica o texto O machismo também mora nos detalhes, do site Think Olga.

Há uma guerra de Game of Thrones contra as mulheres?

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É importante, em discussões de análise de conteúdo, ter sempre em mente que mostrar determinados comportamentos na ficção, seja na TV, nos livros ou no cinema, não significa apoiá-los. Porém, é também necessário entender que qualquer roteiro, qualquer romance, qualquer produto de ficção é feito por alguém e para alguém. E é a partir daí que podemos começar a discutir a presença da violência contra a mulher como instrumento narrativo na série Game of Thrones.

Após a reação negativa dos fãs com a cena do estupro cometido por Ramsay, os produtores tiveram que explicar suas escolhas. “Nós realmente queríamos que Sansa desempenhasse um papel importante nesta temporada […] Se continuássemos a ficar absolutamente fiéis ao livro, seria muito difícil”, disse David Benioff ao Entertainment Weekly. Será mesmo? Segundo o texto A Guerra contra as mulheres em Game Of Thrones, havia sim nos livros uma opção de enredo que pudesse destacar a personagem na nova temporada.

“Ao final de Festim dos Corvos, Sansa está em um ponto alto de ação e esperança: é óbvio que ela ainda está sendo observada por Mindinho, mas percebe-se como ela começa a ultrapassá-lo e, pela primeira vez nos livros, ela realmente tem algum controle sobre a própria situação. Sansa não está apenas surgindo como “sua própria mulher”, mas também como uma verdadeira jogadora no jogo dos tronos – e uma ameaça àqueles que a maltrataram no passado. Petyr a oferece “Harry, o Ninho e Winterfell” e ao final do livro, Sansa começa a ter a oportunidade de tomá-los. Mas esse simplesmente não era o enredo que interessava os roteiristas. Alguma felicidade e um vestígio de algo bom surgindo não era nem um pouco interessante”.

Então, por que submeter a personagem de Sansa Stark a mais um “marido carrasco”, fazendo-a sofrer violências agonizantes e traumáticas, sendo que depois de tudo o que aconteceu em Porto Real, ela já havia acordado de seu “conto de fadas”? Era realmente necessário para a construção de sua história? Com certeza foi mais chocante e fez a série sair em inúmeros sites e canais de TV. São escolhas como essa que demonstram, enfim, uma recusa gritante de enxergar as mulheres além das situações traumáticas que podem acontecer com elas.

É comum em Game of Thrones usar a violência para evidenciar a força de um personagem. No caso de Sansa, por ela ter começado na série como uma menina sem muitas ambições, parece que o nível de violência teve que se superar para mostrar que “sim, ela é uma mulher forte, veja quanta coisa ela suportou”.

Você pode me dizer que Westeros é assim mesmo e lá os homens odeiam as mulheres. Certo. É isso mesmo, mas não estamos falando de um programa policialesco que faz tudo pela audiência. Estamos falando de uma série televisiva, mais premiada da história, que possui um enredo com um mote importante que vai  além da violência: o empoderamento dos marginalizados. Então, pensemos, de que forma essa violência generalizada contribui para esse mote? Apenas por meio da violência um marginalizado pode se empoderar?

A discussão é longa e complexa, mas precisa ser pautada e levada a sério com responsabilidade e de maneira qualificada. E é a essa reflexão que convidamos nossas leitoras, a olhar além das possibilidades superficiais apresentadas nos produtos audiovisuais. Como dissemos no texto Precisamos falar sobre o estupro nas séries de TV, “só estamos pedindo cautela. E isso não é muito”.

Isabella Mariano Jornalista, poeta, feminista e completamente impulsiva. Gosta de beber cerveja, ouvir música, tatuagens e de cachorros. Atualmente, tenta lidar com o vício em Game of Thrones, Sense8 e Gotham da melhor forma possível. Mas é aquele ditado, vamos fazer o quê?

Comment(4)

  1. Eu acredito que a série literária constrói as personagens femininas de forma mais complexa e individualizada. Elas tem características, conflitos e destinos diferentes. São aceitas e compreendidas pelo leitor. Seja a inércia inicial da Sansa, a psicopatia da Arya, a bissexualidade e leve loucura da Dany, o ciume mal direcionado das irmãs Tully, os abusos psicológicos causados pela Cersei. Na série estas mulheres são homogeneizadas em apenas 2 grupos. O das jovens sexualmente abusadas, ou das mães cujo instinto materno prevalece sobre todas as suas características. Fica repetitivo e inverossímil.

  2. Morre homem a série inteira das formas mais cruéis e inimagináveis possíveis. Quando acontece algo com alguma mulher é esse auê todo. Que geração fresca!

    1. Nenhum dos homens da série morre apenas porque é homem. Eles estão envolvidos em tramas violentas, traições, disputas de poder. Por outro lado, as mulheres sofrem violência de todo tipo apenas porque são mulheres. Apenas porque os homens, em suas jornadas supostamente heróicas, acreditam que devam ter poder sobre seus corpos. Ou vai me dizer que Bolton foi estuprado antes de morrer? Ned foi sexualmente exposto e usurpado antes de ter a cabeça cortada? Não, né? Mas estuprar as mulheres, violenta-las apenas porque acreditam que podem é corriqueiro. Fresco mesmo é quem não é capaz de parar de olhar o próprio umbigo e perceber que tanto na vida real quanto na ficção as mulheres continuam enfrentando jornadas marcadas por violência praticadas por homens idiotas, ignorantes e preconceituosos que insistem em não compreender que mulheres não são objetos.

    2. Oi, Rodrigo. Como vai? Você leu o texto todo, até o fim? Bem, vou falar sobre ele, já que é sobre ele seu comentário. E fui eu quem o escrevi. O texto, caso seja necessário uma ajuda no exercício da interpretação, é uma tentativa de aproximar temas levantados no seriado Game of Thrones com realidades que assolam, ainda hoje, muito mulheres, em todo o mundo. Se observar bem, eu coloquei bastante dados e resultados de pesquisas para que o leitor, e aqui está você, compreenda a ligação que eu pretendi fazer. Eu não chamaria de “auê” a jornada de violência que as mulheres experimentam ao longo da vida, chamaria de feminicídio, machismo, efeito do patriarcado, entre outras coisas. Mas posso ver pelo seu comentário que você acha tudo isso uma bobagem. Imagino o por quê. De qualquer forma, se eu fosse argumentar eu estaria sendo muito repetitiva, porque expliquei bastante e incansavelmente todo meu ponto de vista no texto. Dito isto, sugiro uma segunda leitura, com calma, com menos raiva e com um pouco mais disposição de entender e interpretar. Por fim, endosso o comentário da Fernanda. As violências destacas no texto são violências relacionadas à condição do sexo feminino, isto é, à condição de gênero, de ser mulher. Isso significa que há uma compreensão na sociedade que a mulher deve cumprir determinadas ordens e caso fuja delas pode ser punida de qualquer forma e que seu corpo nunca é sua posse e sim posse de outrem, seja do marido, seja do estado ou até mesmo da igreja. Ainda bem que muitas mulheres vivem para quebrar essa compreensão e libertar as mulheres de todas essas amarras, mas sem um exercício de interpretação da realidade por parte de todos essa luta fica ainda mais difícil. Conto com sua colaboração nessa 🙂

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