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Rose e a invisibilidade da mulher negra em “Justiça”

Rose e a invisibilidade da mulher negra em “Justiça”

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Decidi começar este texto sobre o final de “Justiça”, exibido ontem (22), pela Rede Globo focando na verdadeira protagonista da trama das quintas-feiras.

Era de Jéssica Ellen (Rose) o posto de protagonista quando a série começou. Vocês se lembram do real mote da trama? Era a moça que foi presa por racismo e a amiga branca correu para longe, não a ajudou em nada. A mãe de Rose, uma empregada doméstica que batalhou durante a vida toda para que a filha pudesse conquistar o sonho da universidade, se decepciona com o episódio e morre de tristeza, acredito.

Os anos se passaram e Rose saiu da cadeia sem ter para onde ir, e acaba tendo que se abrigar no apartamento de Débora (Luísa Arraes), onde esbarra com a trama que tomou seu lugar como protagonista da história. Débora havia sido estuprada e ficou incapacitada de ter filhos, seu sonho de vida.

Vou fazer uma pausa nesse momento e recordar de outro texto publicado aqui no “Séries por Elas”: “Sou uma mulher negra e quero me ver na TV“. Neste texto, levantei uma discussão sobre as poucas protagonistas negras na TV como um todo e relembrei como Taís Araújo, que se tornou a primeira Helena negra de Manoel Carlos, perdeu destaque na trama para Luciana (Alinne Moraes). Não imaginei que teria de falar do mesmo assunto dois meses depois, nos episódios de “Justiça”.

A trama de Rose não só foi escondida, massacrada e invisibilizada, como se tornou insossa e chata. Cadê a pauta do racismo? Cadê a vingança ou a luta por justiça dela? A única coisa que vi foi um cenário surreal em que uma ex-presidiária negra rapidamente conquista um emprego, casa, tem filhos e vive feliz para sempre. Não digo que não aconteça, mas nós imaginamos e sabemos o quão difícil é para elas.

E no meio de todo esse contexto da invisibilidade da atriz, emerge uma trama mais forte, protagonizada pela atriz branca Luísa Arraes, que se tornou a protagonista não-protagonista. A trama dela envolveu estupro e vingança, depressão, morte. A cena da morte do estuprador me fez revirar o estômago, bem como a cena do estupro. Não ficou claro se Débora alcançou a paz que tanto procurava no final da trama, ou se só ficou louca mesmo.

Quero deixar claro, ainda, que não discuto o talento de Luísa Arraes como atriz e protagonista. Minha revolta é como uma trama que tinha um mote tão bom descambou para a violência contra a mulher – que não deixa de ser importante hoje e sempre. A luta contra o racismo continua, bem como a luta contra a violência, e estamos aqui, canetas em punho, para lutar contra a injustiça.

Rebeca Santos Especialista em panquecas com bacon, também se diverte assistindo séries. Acredita que anos ímpares são melhores pro amor e nunca aprendeu a andar de bicicleta. Sagitariana e jornalista, mora na Alemanha e tem 26 anos.

Comment(1)

  1. Sobre a trama de Rose propriamente, eu acho que ficaram MUITAS lacunas que poderia ser preenchidas, como: pq Celso nunca foi visitar Rose enquanto ela estava presa? Pois se ele supostamente gostava tanto dela assim como ele disse que gostava, é, no mínimo, estranho eles terem perdido contato. Obviamente não foi por falta de tempo da parte de Celso, pois ele visitava o personagem de Cauã (pelo menos é o que a narrativa indica).

    Eu acho que a autora perdeu o fôlego. Ela se propôs a tratar de um monte de tema, mas, com o passar do tempo, é notável que ela se perdeu. Não só na trama de Rose, mas em praticamente todas as outras.

    Justiça chamou mais a minha atenção pela proposta e pela direção/edição (com todos aquelas perspectivas) do que propriamente pela narrativa. Em uma das semanas da novela/série, o episódio da sexta-feira foi praticamente a repetição de todos os outros 3 episódios anteriores, só que filmados em ângulos diferentes. Achei meio arrastado.

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