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A Rainha do Sul e a falta do feminismo

A Rainha do Sul e a falta do feminismo

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Rainha do Sul série

“No dia 25 de julho comemora-se o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. Durante todo o mês, núcleos e coletivos articulam entre si, campanhas de cultura, identidade e empoderamento dessas mulheres.”

Um ano após a estreia na TV americana, finalmente A Rainha do Sul chegou à Netflix. Alice Braga interpreta a mexicana Tereza Mendoza, uma mulher que entra no submundo do narcotráfico quando seu namorado traficante é assassinado. Apesar da premissa ousada, a série comete alguns deslizes ao apostar em clichês e referências clássicas, mas batidas. O feminismo, assunto que poderia ser amplamente explorado, também é passado de forma muito superficial.

O México de Tereza ocupa a sexta colocação entre os países com mais feminicídio no mundo. Uma das causas é justamente a guerra do narcotráfico, tema da série. Durante os episódios, é possível ver mulheres escravizadas, obrigadas a trabalharem para o tráfico como mulas, prostitutas e ajudando no armazenamento de drogas. Nesta última função, elas trabalham seminuas, para que não possam fugir. A grande questão é que nada disso é explicado ao telespectador, em nenhum momento. As informações são jogadas e não há uma reflexão, sequer uma menção sobre a fragilidade dessas mulheres ou como elas foram parar ali.

No cartel de Camila, a grande mentora de Tereza, é possível notar um pouco mais de sororidade. Apesar das mulheres continuarem a trabalhar como mulas e prostitutas, elas fazem o armazenamento das drogas vestidas normalmente. Camila, aliás, é uma personagem que poderia ser muito mais explorada neste sentido.

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No início da temporada, ela abre mão de sua família e vai para Dallas construir seu império. O marido, Don Epifânio, é um homem extremamente controlador, que não a deixa crescer nos negócios. Sem que ele saiba, Camila vai tecendo sua teia, até chegar a um final de temporada que não surpreende, mas deixa um bom gancho. Mesmo sofrendo pela distância da filha e tendo algumas reflexões sobre a maternidade, a história de Camila não se apropria realmente desses argumentos. Não há uma discussão real sobre o assunto, apenas frases soltas,  quase que para cumprir um protocolo.

Talvez porque o objetivo da série não seja debater tais questões. A rainha do Sul é claramente um produto de entretenimento, com foco na ação e aventura. Por isso, qualquer debate acaba raso. O que é uma pena, já que as personagens femininas tem um potencial enorme. A própria Teresa cresceria muito se tivesse uma construção um pouco mais trabalhada dentro do roteiro. Há momentos em que sua história é simplesmente engolida pela trama de personagens secundários. Você entende que ela precisa se virar, e torce por isso, mas ela perde peso quando não exploram o contexto do que é ser uma mulher tentando sobreviver neste submundo.

Se você chegou até aqui sem saber se assiste a série ou não, a recomendação é que sim, assista. É uma produção muito bem acabada, com boa fotografia e roteiro amarrado. Mas não vá esperando nenhuma virada extraordinária ou diálogos que te façam refletir sobre a vida. “A Rainha do Sul” cumpre apenas o seu objetivo, que é entreter.

Bianca Lanzelotti Meu pai e minha mãe me deram muito amor, mas quem me criou mesmo foram Brandon e Brenda. Com uma ajuda da Buffy e do Dean Cain.

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