*Este texto contém spoilers!

Sharp Objetcs (em português Objetos Cortantes), a nova produção da HBO acaba de estrear e vem abertamente para tentar seguir uma matemática de sucesso do canal.  Criada por Marti Noxon, que tem no currículo de produtora executiva Dietland, UnReal, Code BlackPrivate PracticeBuffy The Vampire Slayer, entre outras, a minissérie é baseada no livro homônimo de Gillian Flynn, que por sinal se tornou bastante conhecida por seu livro Garota Exemplar ter sido adaptado para um longa-metragem dirigido por David Fincher, e  que rendeu a Rosamund Pike uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz em 2015. Muita informação, né? Mas já é para entrar no clima de confusão mental proposto pela narrativa.

A trama, um thriller psicológico, gira em torno da repórter Camille Preaker, numa potente interpretação de Amy Adams, que se vê obrigada a voltar a Wind Gap, Missouri/EUA, sua cidade natal, para cobrir uma possível co-relação entre o assassinato de uma jovem ocorrido há cerca de um ano e ao desaparecimento de uma outra jovem, que neste primeiro episódio acaba sendo encontrada morta em condições similares à primeira vítima. De início, Camille já demonstra traços de uma vida desregrada e dolorida, para qual ela encontra escape na bebida e no cigarro, além de uma alimentação à base de junkie food. Há na personagem atitudes que a deixam entre um estado blasé e de total incômodo ao lidar com tarefas corriqueiras, como por exemplo o simples fato de estar no trabalho, a redação de um jornal de St. Louis, também no Missouri, ou o modo como lida com as pessoas do passado com quem vai encontrando ao longo do episódio.

Nada precisa ser muito dito para expor essa complexidade da personagem, bastam as expressões de uma Amy Adams que por certo está em um dos mais grandiosos papeis de sua carreira, por isso a potência da qual me referi. Adams entrega uma tormenta, uma perturbação mental sem precisar emitir um som sequer ou expor qualquer parte do seu passado. São as escolhas de câmera e de direção que começam a revelar a fonte dos problemas de Camille. Aliás, me retrato. Há uma fala no diálogo entre Camille e seu chefe, Frank Curry (Miguel Sandoval), que já dá indícios do que Wind Gap significa para ela ao dizer que lá as pessoas só têm duas possibilidades na vida.

Ao chegarmos de fato na cidade começamos a entender relutância de Camille para aceitar a tarefa dada por seu chefe e, mais tarde, começamos a entender o plano arquitetado por ele para mandá-la de volta a Wind Gap, uma espécie de terapia de enfrentamento de demônios. Inclusive, vale a pena prestar atenção na relação entre Camille e seu chefe pois ela tem um potencial auto-destrutivo tal qual Camille demonstra ter com a mãe, uma coisa de ensinar pela dor e por uma sinceridade humilhante. E é justamente no primeiro encontro entre Camille e sua mãe, Adora Crellin, interpretada pela magnânima Patricia Clarkson, que a gente tem a certeza das fontes das dores de Camille. Ela é persona non grata em sua própria casa e as palavras não são medidas para deixar isso claro. Há muita dor pulsando na veia de mãe e filha, numa a relação baseada em culpa e martírio, restando transparente o quão amedrontada Camille se coloca diante da mãe, muito diferente da impetuosa repórter que ela demonstra ser, e Adora sabe disso. Ali, se há qualquer vontade de resolver as questões, isso passa longe.

Quando falei que Sharp Objects faz parte da matemática do canal é por seguir os passos do burburinho de sua prima mais velha, Big Little Lies. Não só por serem uma adaptação de um livro que aborda a tormenta de mulheres de certo status social que se vêem envolvidas com a morte de alguma forma, mas também por terem o diretor Jean-Marc Vallée como denominador comum. E ter Vallée à frente de um projeto tem sido sinônimo de saber que as histórias não serão lineares, que as escolhas de estética e linguagem serão sentidas e que a trilha sonora será impecável.

Falando primeiro da narrativa, a trama começa com o que parecem ser flashbacks mostrando a infância de Camille e de uma menina que mais tarde se descobrirá sua irmã já falecida, Marian. Parecem porque os ares de flashback são massacrados quando se revela que aquelas imagens não se tratam necessariamente de momentos do passado das irmãs Preaker, pois elas se apresentam e desaparecem ora como pesadelos, ora como devaneios de Camille. É aí que entra a força da fotografia, dos movimentos de câmera e da montagem da minissérie deixando tudo muito turvo e confuso, deixando o telespectador intrigado e abrindo margens para uma interpretação em duas camadas para tentar entender o que se passa com Camille.

De um lado temos imagens que se fundem, anacronismos e personagens que estão ali sem estarem de fato que vão ajudando a construir essa narrativa gélida e pungente. É como se a toda a perturbação mental de Camille fosse exposta através desses recursos, como se peças que nos fossem sendo dadas para entender o que de fato aconteceu com Marian e o que causou tanto ressentimento. Em meio a isso, voltar à cidade natal é voltar a enfrentar dores muito fortes do passado e uma relação nada fácil com a família. É rever pessoas, histórias e lugares que causam dor apenas por existirem. É enfrentar uma relação nada passivo-agressiva com a mãe – uma surpresa aqui porque quando se trata de drama familiar os norte-americanos adoram soltar alfinetadas sem dizer e eu particularmente amo – e conhecer uma irmã que tem muito vivo em si as dores do que nunca viveu e do que está preterida de viver, primeiro por saber sobre Marian e segundo por ser uma jovem numa cidadezinha em que outras jovens estão na mira de um potencial serial killer.

Por outro lado, enquadramentos precisos e uma direção de arte lindíssima revelam mais sobre os tormentos físicos de Camille. É um sonho em que sua versão jovem tenta furar sua mão; é um talho na escrivaninha de madeira da casa da personagem; é o figurino que esconde seus braços, mas que em determinado momento deixa o colo à mostra; é uma tela de celular quebrada pela qual a personagem passa o polegar incansáveis vezes, quase que um tique nervoso; e sequências no banheiro extremamente bem decupadas que vão dando pistas, ou melhor, que trazem a confirmação de que Camille se auto-mutila. O nome não é Objetos Cortantes à toa. Mas o requinte da revelação fica com a palavra vanish (desaparecer) cravada no braço, palavra inclusive que dá título ao episódio (“Vanish”, 1×01), num modo poético de expôr algo tão violento.

Sobre o terceiro ponto destacado, a trilha sonora, bastaria dizer que Led Zeppelin toca incessantemente no celular de Camille para que a gente já corra para os serviços de streaming para montar uma playlist da série. Porém temos mais do que isso. A música aqui tem sua função narrativa explorada ao máximo, servindo como componente da história diegética e extra-diegeticamente. Tanto que uma versão de Eric Burdon & The Animals para “Ring of Fire”, apontada pela protagonista como sua música no karaokê e que em seguida toca no bar. A música parece ser um refúgio para ela, quando ela coloca os fones é como se o mundo parasse, quando ela escuta música é como se ela finalmente desse conta de controlar tudo o que perturba.

No entanto, há que se admitir que o roteiro ainda precisa engrenar e os personagens secundários, formados por alguns nomes fortes como Chris Messina Elizabeth Perkins, respectivamente nos papeis de Richard Willis, detetive responsável pelas investigações dos crimes, e Jackie, amiga de longa data da família Preaker,  precisam ganhar um propósito maior ao longo dos sete episódios que ainda estão por vir. Assim, sem dúvidas, a trama é sobre Camille e sobre sua relação com Adora, e tanto Adams quanto Clarkson são capazes de segurar essa barra sozinhas, porém fica uma vontade de ver explorada todas as facetas que Camille apresenta, sobretudo por se tratar de uma personagem tão densa, tão atordoada e com uma história tão visceral. Inclusive, fica aqui uma observação que talvez seja um outro ponto forte da trama: não se trata de uma relação entre mulheres que depende de um homem para existir, a história é sobre elas, sobre Adora e Camille.

Ah, e a abertura é simplesmente fantástica! Selo HBO de aberturas!