O texto pode conter spoilers do episódio piloto, mas acredite, vale a pena!

No dia 3 de junho foi ao ar o primeiro episódio de Pose, nova produção de Ryan Murphy (Glee e American Horror Story). A série é ambientada em Nova York nos anos 80 e mostra como o movimento das Drag Queens começou nos subúrbios e o início dessa cultura LGBT marginalizada. Confesso que não estava nada animada para assistir devido o histórico de Ryan Murphy.

Depois de Glee foram algumas decepções como a vazia Screen Queens e a popular American Horror Story. Essa última não cumpre seu objetivo, deixando a desejar em todas as temporadas.Mas me surpreendi e posso dizer que Pose tem um dos melhores pilotos que já vi. Há tempos eu não via algo tão brilhante.

No período retratado na série existiam as tais ‘Casas’. Eram grupos de pessoas que se uniam por afinidade, principalmente depois te terem sido rejeitadas por suas famílias. Essas ‘casas’ eram lideradas por uma ‘mãe’, que ditava as regras e dava um nome à casa para poder participar dos bailes, que anos 80, era uma espécie de clube totalmente comandado pela comunidade LGBT, as casas se enfrentavam com desfiles temáticos ou competições de dança.

O episódio se inicia de uma maneira grandiosa, ele pega na sua mão e fala: você vai se apaixonar por essa história. Começa com a Casa Abundance invadindo um museu nova-iorquino para roubar figurinos da realeza que servirão para a temática do baile. Depois de desfilarem, a polícia entra no local e o grupo vai desfilando, bem pleno, em direção aos policias com as mãos estendidas para ser preso. Eles conseguiram o que queriam: ganharam noite, ganharam o baile.

No entanto, a Casa Abundance vai sofrer uma mudança: Blanca (Mj Rodriguez) se descobre HIV positiva e decide desertar e criar sua própria família. Essa ruptura enfurece Elektra Abundance  (Dominique Jackson), a mãe-drag que acolhera Blanca no passado. Ela deixa bem claro que não dará seu apoio e muito menos sua benção. A partir disso se gera uma grande rivalidade entre as duas.

Blanca, agora independente, cai no mundo atrás do seu sonho, arruma um apartamento e logo recruta Damon, um rapaz de 17 anos expulso de casa pelos pais por ser gay e bailarino. A série se preocupa com a rejeição e o preconceito sofrido por transexuais e gays. É inevitável não abordar essa questão, mas ela vai fazer isso muito bem, sem seguir aquela uniformidade que séries com esse tema tratam.

O episódio, de 1h17, provoca uma descarga de emoções, eu nem senti esse tempo todo passar. Um único episódio foi suficiente para eu ficar inteiramente conectada e maravilhada com os personagens.Pose é um show de representatividade. Com um elenco majoritariamente negro, é também a primeira série a ter o maior elenco regular de atrizes transgêneros da história da televisão. Essa decisão de Murphy não poderia ter sido mais certeira e crucial para verossimilhança. As intérpretes conhecem a dor de suas personagens que usam arte como âncora.

Encaminhando para o final do piloto, a Casa Evangelista é definida com Blanca, Damon e Angel (Indya Moore) uma transexual que começa um vínculo com Stan (Evan Peters), um executivo casado com Patty (Kate Mara). Blanca fará de tudo para que Damon consiga fazer um teste em uma famosa escola de dança em Nova York. Ela fará um discurso comovente para a diretora da instituição mostrando todo seu lado materno e é nessa cena que você aceita que está encantada por essa protagonista cheia de atitude.

Eu nem consigo descrever o quão incrível foi o teste de Damon ao som de “I Wanna Dance With Somebody”, da Whitney Houston. É como se Glee – com toda sua trilha sonora espetacular – e RuPaul’s Drag Race – com todo seu estilo, gírias e performances – tivessem tido um filho maduro, talentoso e merecedor de um futuro brilhante.

Pose é transmitida todo domingo pela FX e terá oito episódios em sua primeira temporada. Já no Brasil, o canal pago Fox Premium transmitirá o seriado no segundo semestre de 2018, sem uma data definida até o momento.

Curiosidade

Em um anúncio feito por meio da sua conta oficial do Twitter, Murphy revelou que vai doar 100% de seu lucro com a produção de Pose para organizações voltadas para a comunidade LGBT. Nos próximos 14 dias ele divulgará – todo dia – o nome de uma organização diferente que será beneficiada.

Confira o trailer