A coluna Personagem do Mês apresenta quatro textos (um por semana) sobre uma personagem escolhida pela equipe do Séries Por Elas. Esses textos seguem a seguinte lógica:
1ª matéria: conta a trajetória da personagem e explica por que ela mereceu ser a personagem do mês
2ª matéria: mostra o que podemos aprender com a personagem e o que é melhor deixar pra lá
3ª matéria: buscamos inserir a personagem no contexto do blog, fazer link com empoderamento e feminismo
4ª matéria: vamos falar pouco da atriz. Curiosidades, declarações importantes e fofoquinhas saudáveis

É difícil falar de Peggy Carter sem começar falando do Capitão América, eu mesma não fui capaz de fazê-lo no meu texto anterior sobre essa personagem. Mas ainda que nascida como um par romântico, Peggy é a prova de que personagens femininas em filmes de super heróis, mesmo as sem super poderes, mesmo as envolvidas romanticamente com o herói que dá título ao filme, podem e devem ser mais do que a donzela em perigo ou o centro emotivo do herói masculino.

É claro que ainda assim, Peggy carrega o peso do seu envolvimento com Steve Rogers, tanto aqui no mundo real quando falamos sobre ela, quanto no mundo da ficção, onde o nome do Capitão América é jogado pro lado dela o tempo todo e o trauma de perdê-lo é o centro emotivo do seu arco de personagem na primeira temporada da sua própria série. Mas é uma mudança interessante, ter um namorado morto mexendo com as emoções da heroína da série que ela intitula. A mudança nessa dinâmica, junto aos excelentes questionamentos sobre o tratamento que mulheres recebem em ambientes dominados por homens, já faz o arco de primeira temporada de Agent Carter inspirador e envolvente.

Só que há um recorrente tema nessa primeira temporada que só perceberíamos algo de errado lá para o final da segunda: Oh! O Capitão América a ensinou tanto! É uma afirmação que não questionamos em momento nenhum. Mas revendo o filme do Capitão América: O Primeiro Vingador, não posso deixar de me perguntar se ensinou mesmo e se ensinou tanto assim.

Já que eu citei a segunda temporada, acho que esse é um momento tão bom quanto qualquer outro que possa vir para falar dela. Agent Carter foi cancelada em sua segunda temporada, que terminava com Carter finalmente ficando com o seu par romântico introduzido desde a primeira temporada, seguido por um cliffhanger enorme. Todo mundo tem suas teorias sobre o cancelamento de Agent Carter, mas o fato é que a série tinha baixa audiência desde a primeira temporada e na segunda diminuiu ainda mais. Sem contar que o aclame de crítica da primeira não seguiu a segunda em pé de igualdade. O que nos leva à minha teoria sobre o cancelamento, que na verdade é o motivo pelo qual a segunda temporada de Agent Carter é muito inferior a primeira: os homens da vida de Peggy.

Com o Capitão América congelado e dado como morto e a Peggy como a estrela de sua própria série da Marvel, é claro que ela também precisaria de seu próprio par romântico. Eis que na primeira temporada da série somos introduzidos a um possível par, Daniel Sousa, um agente da SSR que não tratava a Peggy feito um lixo. Como não se apaixonar por um homem desses? Brincadeiras a parte, os dois tinham química e muitos fãs da série torciam para o casal. Só que uma outra parte dos fãs apontou esse problema: Daniel Sousa era branco.

Não era exatamente namorar um cara branco o problema. O problema era que a Peggy dos quadrinhos era famosamente envolvida com o Howling Commando, Gabe Jones. Os dois formaram um dos primeiros casais interraciais da história dos quadrinhos, e até foram capturados pelo Caveira Vermelha, porque ele ficou revoltado por Peggy namorar um cara negro. O universo cinematográfico Marvel está longe de ser fiel aos quadrinhos e ele não precisa ser, mas era uma pena ver essa representatividade histórica, que era uma parte tão famosa da personagem, ser jogada fora.

E é aí que vem a brilhante solução, ao invés de mudar o foco do relacionamento entre Peggy e o agente Sousa, introduzir o Gabe Jones ao enredo da série ou algo do tipo, mantiveram o personagem de Sousa e introduziram um terceiro personagem, um cientista negro chamado Jason Wilkes e construíram um triângulo amoroso. O enredo do triângulo amoroso foi auto sabotagem pura.

Frequentemente tirava o foco do problema que precisava ser resolvido durante a primeira temporada, fazia a Peggy parecer menos inteligente e menos focada e demonstrou uma coisa muito importante para o público sobre os roteiristas de Agent Carter, Gabe Jones nunca foi parte do plano deles para a história de Peggy e nunca seria. Mas não tiveram coragem de bater o pé com sua decisão. Eles queriam os dois, o namorado branco de Peggy e o casal interracial, para ninguém reclamar. Não me surpreende que algumas pessoas tenham deixado a segunda temporada pela metade, ainda que ela tivesse alguns conceitos interessantes sendo explorados.

Por último, quero voltar àquele tema de “Oh! O Capitão América a ensinou tanto!”. Não literalmente, porque não tem muito para se criticar na relação de Steve com Peggy, mas para entender como esse tipo de frequente afirmação acabou sabotando a personagem. Lá para o final da segunda temporada, somos apresentados ao passado de Peggy, da criança durona e não tipicamente feminina, para a jovem trabalhando traduzindo códigos pro exército britânico que só focava em “trabalhos de mulher” e se casar, até a decisão de ir para o campo de batalha como uma agente do exército britânico.

Poderia ter algo interessante nessa jornada de rejeição dos padrões que a sociedade lhe impunha para se tornar a inspiradora agente Carter que nós conhecemos, mas ela é sabotada por ser impulsionada por um homem na vida de Carter, seu irmão mais velho, Michael. Ela é chamada para ser uma agente de campo porque seu irmão a recomenda, e mesmo assim ela rejeita a ideia e se coloca numa posição mais tipicamente feminina, escolhendo se casar e formar uma família. Ela só volta atrás na sua decisão por conta da morte do irmão. Tudo na narrativa de transformação de Peggy de uma mulher oprimida pelos padrões impostos pela sociedade para a agente empoderada que conhecemos é impulsionado por um homem, absolutamente tudo. Sabota completamente a construção de personagem feita até então.

Peggy Carter é importante e empoderadora porque ela subverte completamente a donzela indefesa que infelizmente é o comum para os interesses amorosos de heróis masculinos. Mas não só por isso. Ela é muito mais do que o Capitão América que nos apresentou a ela ou qualquer outro homem em sua vida. Peggy Carter é importante e empoderadora porque lutou contra imposições de gênero que nós, mulheres da vida real, somos obrigadas a enfrentar até hoje. Porque ela foi diminuída pela sociedade patriarcal a sua vida toda e mesmo assim prosperou, ascendeu de cabeça erguida fazendo seu trabalho e deixando sua marca no universo super heróico da Marvel (e em todos os nossos corações). É uma pena que os roteiristas da sua série tenham esquecido disso e deixado os homens à sua volta sufocar sua narrativa. Cabe a nós não esquecer!

Peggy Carter feminismo