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Precisamos falar sobre o papel da mulher em Westworld

Precisamos falar sobre o papel da mulher em Westworld

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A nova série da HBO, Westworld, gira em torno do parque dos sonhos de, imagino, milhares de pessoas. Parece ótimo: cheio de androides perfeitos, feitos especialmente para agradar a quem chega e que interagem com os visitantes como pessoas reais do faroeste. Nesse parque, você entra em uma realidade diferente e pode experimentar uma nova vida por algumas semanas com a ajuda desses moradores robóticos. O objetivo do parque Westworld é trazer à vida as fantasias dos visitantes e recém-chegados.

O que isso fala sobre a humanidade quando a enorme maioria das androides desse parque são criadas para serem prostitutas ou para serem estupradas pelos visitantes? Com a exceção das mulheres humanas (técnicas do parque) e de Armistice, uma androide que acompanha Hector (o fugitivo), as mulheres são exibidas apenas como feitas para o prazer dos visitantes. Desde a roupa que vestem até o fato de seus corpos serem feitos seguindo o padrão estético vigente.  Resumindo: essas androides são feitas para terem suas histórias guiadas por homens.

Westworld é uma série ficcional, o que significa que ela não necessariamente se espelha na vida real, mas vivemos em uma sociedade machista, em que milhares de mulheres são abusadas física e psicologicamente todos os dias. No Brasil, segundo uma pesquisa do 9º Anuário Brasileiro da Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, realizada em 2014, há um estupro notificado a cada 11 minutos no país. E temos um dado ainda mais alarmante: apenas 10% dos estupros são notificados. Não é à toa que há uma preocupação ao redor da série sobre apologia ao estupro.

A protagonista, em especial, causa o maior incômodo.  Seu objetivo no parque é ser a mocinha que todos desejam, o prêmio maior para todos os visitantes que tiverem coragem de desafiar Teddy, o mocinho. Ela foi feita para ser estuprada todo dia depois de ter seu amado morto. Além disso, não é só porque ela é um robô que ela não sente dor. Pelo contrário, seus criadores as fizeram perfeitas o bastante para sentirem dor, resistirem e sofrerem. Até porque, como diz Man In Black (o visitante e estuprador mais antigo e frequente de Dolores) no primeiro episódio, ele não iria querer nada se ela não lutasse com ele, se ela não resistisse.

Claro, a série mostra como elas, principalmente Dolores, sofrem com o abuso e como o estupro é errado, mas, ao mesmo tempo, ainda é um estupro normalizado dentro de um ambiente futurista que muitos desejam ser real. E, se não o estupro, o machismo. Mesmo os visitantes não adeptos ao abuso sexual ainda aparecem tratando as mulheres como nada.

Muitos podem argumentar que é porque elas são robôs ou então falar que também há prostitutos, homens. Para essas pessoas, peço para que leia os dados sobre abuso sexual no Brasil e que vejam a quantidade de homens e de mulheres prostitutos na série (nos cinco primeiros episódios, só vi um homem, mas vi inúmeras mulheres, inclusive parte dos personagens principais, como Clementine e Maeve).

 

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É a literal objetificação da mulher. Elas são criadas, objetos para servir homens. A ideia é que satisfaçam suas necessidades e seus desejos mais obscuros (e errados, ilegais e imorais), porque sabem que não podem fazer isso fora do parque, pois seriam presos.

E quando pensamos que essas androides estão adquirindo consciência e começando a lembrar de todas as vezes que sofreram abusos, a situação só piora. Dolores começa a lembrar ao acordar que foi estuprada no dia anterior, o que não deveria acontecer, já que sua memória deveria ser apagada. Isso me dá uma esperança (e é o motivo de eu não ter abandonado a série), porque sei que quando ela tiver certeza do que está acontecendo e para que eles são criados, ela vai se rebelar e mostrar para esses turistas as consequências de suas ações. Já começando no terceiro episódio, quando ela aponta uma arma para o Man In Black pouco antes dele estuprá-la mais uma vez.

Westworld é uma série maravilhosa e tem tudo para dar certo, tem tudo para se tornar uma série de empoderamento feminino, se Dolores seguir o caminho que penso que seguirá. Talvez possamos ver nos próximos episódios essa personagem se levantar cada vez mais por si mesma, antes de finalmente colocar um basta nessa situação.

 

Tathiane Forão Estudante de Rádio, TV e Internet na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), estudante honorável nas aulas de Cinema (aulas eletivas, melhor coisa), 19 anos e louca das séries

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