One Day at a Time.

O dia 28 de junho é o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Nessa mesma data, em 1969, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e drag queens se uniram contra as batidas policiais que ocorriam com frequência no bar Stonewall-Inn, em Nova York. O episódio marcou a história do movimento LGBT, que continua lutando por direitos e visibilidade. Em homenagem à data, durante o mês de junho, portais nerds feministas se juntaram em uma ação coletiva para discutir de temas pertinentes à data e à cultura pop, trazendo análises, resenhas, entrevistas e críticas que tragam novas e instigantes reflexões e visões.

Em janeiro deste ano a Netflix lançou a primeira temporada de One Day at a Time. Uma sitcom que é uma versão moderna de uma série homônima dos anos 70. A série original já era conhecida por ser progressista e feminista para o seu tempo. À época, sua protagonista foi uma das primeiras mães solo da televisão americana. Para continuar os ideais da original e se manter com a evolução do que a “família tradicional” significa, a versão de 2017 é estrelada por uma mãe solo e sua família de origem cubana.

O formato já tão conhecido de sitcoms, a curta duração dos episódios e a forma leve como a série aborda cada tema a torna bastante confortável de assistir e fácil de maratonar. É justamente o conforto e familiaridade do tom da série que a ajuda a ter a atenção do público quando as risadas pré gravadas param e o assunto fica sério. A comédia aborda vários temas atuais como igualdade salarial, estresse pós traumático, imigração ilegal, cotas, padrões de gênero e, o mais importante, sexualidade.

Quando digo que o mais importante desses temas é a sexualidade, não é simplesmente a minha opinião, mas porque ainda que Penélope, a mãe da família, seja a protagonista, no centro dessa primeira temporada está Elena, a filha mais velha. A série segue os acontecimentos que precedem a festa de 15 anos de Elena. Uma jovem feminista que tem muito a desconstruir nessa tradição, ao mesmo tempo em que aprende o valor que sua cultura tem. Entre todos esses acontecimentos, o maior é a descoberta de sua sexualidade e como sua família lida com isso.

“Saídas do armário” são as histórias mais batidas para personagens homossexuais hoje em dia, mas com uma personagem tão jovem e decidida, há um leque de novas possibilidades. Há o contraponto de Elena ser a personagem mais decidida da série e, mesmo assim, duvidar de si no seu processo de descoberta. É bonito como a série não julga a personagem por começar indecisa. Ela é realmente muito jovem e está se descobrindo. Elena sai de seus experimentos ainda mais decidida de quem ela é, ainda que ainda esteja em formação.

Sendo uma série sobre família, o mais interessante é como Elena se assumir lésbica afeta todos a sua volta. Alex, o irmão mais novo, é o mais rápido a aceitar. Seu amor pela irmã mais velha é lindo. A avó Lydia, extremamente religiosa, tem a reação mais surpreendente. Mesmo em um momento cômico oferece uma explicação comovente e convincente para aceitar a neta tão rápido. A mãe é quem oferece a reação com maior nuance. Oferecendo nada além de amor para sua filha de imediato, ainda há uma parte nela que reluta com a mudança. Mas o quão aberta ela está para entender e aceitar é realmente incrível.

Elena quebra imposições por onde passa muito antes de sabermos que ela é lésbica. Uma nerdzinha empolgada com o progresso e preparada para lutar pelo que acha certo, ainda que sua idade peça por uma ajuda aqui e ali. Sua festa de 15 anos, que encerra a temporada, é uma celebração não só ao seu aniversário ou seu crescimento como mulher, mas a quem ela é, com todos que a amam e estão dispostos a apoiá-la.

O amigo que superou uma paixãozinha e se dispôs a apoiá-la com sua sexualidade sem pensar duas vezes. A amiga que se mudou mas continuou melhor amiga. O dono do prédio que mesmo sendo a figura masculina da casa, serve mais como um irmão mais velho do que uma figura paterna. E toda a sua família. O vestido que Lydia passa tanto tempo tentando entender porque estava errado, e no fim é transformado em um terninho fabuloso para Elena debutar, é simbólico de como ela é compreendida, aceita e amada sinceramente por aquelas pessoas.

Toda história de “saída do armário” precisa de ao menos uma reação extremamente homofóbica. Neste caso o pai, Victor, é quem reage extremamente mal à notícia. No fim das contas, justamente o abandono de Victor torna a família mais forte. Quando todos os personagens que acompanhamos durante a temporada, se unem à Elena na pista de dança, ocupando o lugar que o pai deveria ocupar, compreendemos imediatamente que eles não precisam daquela aceitação. O que eles têm é o suficiente e esse é o clímax da família Alvarez e seus agregados como uma família.

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