one day time netflix

Uma das mais satisfatórias surpresas em matéria de séries que eu tive esse ano foi One Day At a Time. A Original Netflix é uma releitura de um sitcom homônimo lançado na década de 70, que mostrava os percalços de uma mãe divorciada tentando criar duas filhas adolescentes sozinha nos Estados Unidos. A nova versão tem como principal novidade a família ser latina, descendente de cubanos. A nova série também inclui a mãe da protagonista – ABUELITA, MI AMOR – e em vez de duas adolescentes, ela tem uma filha de 15 anos e um filho um pouco mais novo.

O formato da série é o tradicional sitcom. Com risadas inseridas, cenários fixos e as típicas piadas das comédias nesse formato, One Day At a Time tem tudo – em primeira análise – para ser só mais uma comédia americana. Mas é tão mais do que isso! Além de ser, na minha opinião, mais engraçada que a média dos sitcoms americanos, ela traz elementos muito diferenciados, dois dos quais – os principais – vou falar a seguir: representatividade e protagonismo feminino.

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REPRESENTATIVIDADE

Este é o foco desse mês temático e é algo que a sitcom tira de letra. Os protagonistas são uma família latina, com sua progenitora, Lydia (Rita Moreno), tendo imigrado de Cuba quando era uma adolescente. Ela e seu marido, também cubano, tiveram uma filha, Penélope (Justina Machado), que é o fio condutor da série. Penélope se casou com um homem, também com ascendência latina, teve com ele dois filhos e se separaram.

A família portanto é constituída pela avó – uma senhora tradicional com sotaque maravilhoso – a mãe – uma veterana de guerra que agora trabalha como enfermeira numa clínica – uma filha de 15 anos feminista e engajada, um filho adolescente que se acha o último alfajor Havana do pacote – mas que na verdade é socialmente desajeitado – e, como não poderia deixar de ser, Schneider – um playboy de 40 anos que mora no apartamento acima mas vive na casa dos Alvarez dando palpite onde não é chamado.

Todo o dia a dia deles é permeado por dezenas de referências e costumes de uma família cubana, principalmente com a inserção constante de expressões em espanhol no meio das falas em inglês. A descendência latina da família não é um aspecto secundário na trama, e sim um constante na rotina. Porém, eles não deixam de passar por todas as situações tradicionais de uma família americana de classe média. Tudo isso é trazido com muita naturalidade, muita sensibilidade e um humor que deixaria Friends com inveja.

PROTAGONISMO FEMININO

Escolha qualquer episódio de One Day At a Time e passe ele por um Teste de Bechdel. Vai perceber assim que, por possuir muitas personagens femininas complexas e de destaque, qualquer episódio passa no teste com facilidade, mostrando um compromisso com o protagonismo feminino. As três principais personagens femininas, a avó, a mãe e a filha, são três exemplos de diferentes gerações com muitas diferenças tendo em comum a perseverança. Cada uma dela tem suas lutas, e se envolve na lutas das outras – às vezes  até onde não são chamadas – e mais importante: estão sempre em desenvolvimento.

“Oi! Minhas proporções corporais não representam a de uma menina típica da minha idade!”

É notável a progressão dessas personagens ao longo da temporada, conforme os conflitos vão se desenrolando e, um a um, vão sendo resolvidos. Abuelita do início não é a Abuelita do season finale. Elena (Isabella Gomez) do início definitivamente não é a Elena do fim da temporada. Assim como com Penélope.

Isso mostra que as incríveis mulheres da série foram desenvolvidas com cuidado e muito longe dos estereótipos de personagens femininas em sitcoms americanas. Isso é algo que a gente valoriza e agradece muito, porque o que não falta nesse tipo de seriado são mulheres sub-representadas, que se resumem a seus relacionamentos com os homens da série.

One Day At a Time é uma série que está pouco na boca do povo para o quanto ela vale. A série é um alívio de humor maravilhoso, coisa que todo mundo adora, mas que traz questões extremamente atuais e personagens que saem da caixinha dos sitcoms americanos. One Day At a Time é, na minha opinião, uma ode ao valor e a complexidade da mulher. Mais especificamente, da mulher latinoamericana!