Ser mãe feminista não é fácil. Uma desconstrução por dia, minha e dele. Ao longo desses sete anos de convívio intenso, já respondi às mais diversas perguntas. “Mãe, é verdade que as meninas se arrumam pra arranjar namorado?”. Ou “mãe, um garoto da escola gosta de se vestir de princesa. Ele é gay?”. A luta diária contra o machismo estrutural pode ser árdua, mas também gratificante. O Matheus, por exemplo, tem seus parças, mas a melhor amiga dele é a Lorena, uma menina adorável a quem ele se refere como “quase irmã”. Por isso, quando estreou Mulher Maravilha, não tive dúvidas.  Liguei para a mamãe dela e partimos com os dois para o cinema.

Matheus e Lorena

A dupla estava animada. Perguntei se eles tinham alguma expectativa e a resposta do Matheus foi categórica: “Eu acho que vai ter muita luta!”. A Lorena parecia mais empolgada em ir ao cinema com o melhor amigo, mas tinha certeza de que não se tratava de um filme “de menino”. Mesmo com a fila cheia deles. Fato, aliás, que me surpreendeu. Quem é mãe, sabe que ainda há muita resistência dos pais sobre as super-heroínas.

Quando o filme começou, os dois logo se entreteram. A identificação com a pequena Diana foi imediata. Eles riram com a personagem, que imitava os movimentos de luta das amazonas. Lorena comentou “Parece você quando brinca no recreio!”. Matheus confirmou: “é mesmo!”. E a vida seguiu numa boa, sem nenhuma crise por causa da comparação.

Quando a ilha de Diana foi invadida e ocorreu a primeira luta, confesso que esperei algum tipo de reação das crianças. E foi muito bacana ver a admiração deles por mulheres fortes, que lutavam com maestria “Elas lutam bem, né?”. Lorena, em especial, tinha os olhos presos na tela e comia sua pipoquinha sem respirar.

O filme segue, e Diana parte para sua jornada de heroína. Quando amazona, é impedida de falar e expulsa de uma reunião, a dupla começa um burburinho, “por que não deixaram ela falar?”. A essa altura, a Mulher Maravilha já tinha conquistado a torcida deles e de todas as crianças que assistiam ao filme. Algumas, inclusive, se manifestavam com empolgação. Um menino mais afoito comemorou quando Diana foi pra frente de batalha pela primeira vez. Rolou até um “uhuu!”.

Com torcida explícita, o jogo já estava ganho. Bom, mais ou menos. No meio do caminho Matheus quis saber se o Super Homem e o Batman não iriam aparecer. Expliquei que aquele filme era só da Mulher Maravilha. Isso deixou meu rapaz um pouco decepcionado. Afinal de contas, ela apareceu no filme deles. Não é justo eles não aparecerem no filme dela!

Mas um dos momentos mais importantes pra mim, como mãe, foi quando Diana partiu para o corpo a corpo com um dos vilões. Matheus imediatamente soltou um “covarde!”. Claro que eu perguntei por que ele estava dizendo aquilo. E a resposta me encheu de orgulho! “Porque a gente não pode bater em mulher, né mãe? Tem que respeitar!”.

De todos os super-heróis, Diana é a que mais se aproxima das crianças, pelo coração puro e a certeza de que o bem pode vencer o mal. Seu olhar descobre algo novo a cada cena, exatamente como uma criança enxerga o mundo. Como uma grande e maravilhosa novidade. E mesmo com toda a polêmica sobre a verdadeira representatividade da Mulher Maravilha para a causa feminista, a importância de sua existência é inegável. Ao fim do filme, perguntei à Lorena se ela preferia ser uma princesa ou uma super-heroína. Independente da resposta (que foi super-heroína, aliás) nada é mais significativo do que você crescer com a certeza de que pode ser o que quiser.

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