Séries Por Elas tem como prioridade máxima noticiar e discutir questões que envolvam o universo das séries. No entanto, vez ou outra, sentimos a necessidade de abordar questões que passem pelo cinema, música e artes de maneira geral. Para isso, criamos a coluna Tudo Por Elas. Nela, uma vez por semana, discutiremos sobre alguma questão do universo midiático e a mulher que não esteja relacionado às séries.

Qualquer um que passa os olhos pela sessão de filmes da Netflix e depara com Morning Glory (em português Uma Manhã Gloriosa) no catálogo irá pensar que se trata de uma comédia romântica comum. Porém, eles não entregam o que vendem e, talvez pela primeira vez, esse é um ponto muito positivo. Lançado em 2010, além de de Rachel McAdams (Meninas Malvadas, Spotlight) no papel principal, o filme tem no elenco nomes como Harrison Ford (Indiana Jones”, “Star Wars”) e Diane Keaton (O Poderoso Chefão, O Natal dos Cooper), pela primeira vez trabalhando juntos, e J.J. Abrams como produtor.

Explorando um assunto não muito original (a mesma premissa foi utilizada como base para o sexista A verdade Nua e Crua), o roteiro conta a história de Becky Fuller, personagem de McAdams, uma produtora de TV que é demitida logo nos primeiros minutos em nome do curriculum mais floreado de outra pessoa. Jovem e antes acomodada, Becky sai em busca de um novo emprego, lidando com mais graça do que aconteceria na realidade, mesmo não tendo recebido seus direitos trabalhistas e sendo reprimida pela mãe por ter escolhido uma profissão incomum e instável.

A primeira virada, então, se dá quando a personagem principal tem a oportunidade de desempenhar a função de produtora executiva, mesmo sem experiência e recebendo metade do salário que recebia somente como produtora, em um programa matinal decadente, de audiência cada vez mais baixa e com fim iminente chamado DayBreak. É nesse mesmo momento que o público pode perceber que não se trata de uma comédia romântica, embora a estrutura seja a mesma com a personagem branca, magra e dentro do padrão , mas desleixada, atrapalhada e desbocada.

Morning Glory concentra-se mais nos aspectos profissionais da vida de Becky, a qual tem de aprender a se virar em uma cidade diferente, desempenhando uma nova e desafiadora função como responsável por todos os detalhes técnicos do DayBreak, algo que nunca havia feito, e cujo primeiro ato é demitir o âncora egocêntrico que que tenta assediá-la no primeiro dia. É o que dá espaço, aliás, para sua primeira interação real com o personagem de Harrison Ford, jornalista premiado e de longa carreira, classificado por todos como pessoa detestável, apesar da genialidade.

Lidando com a tomada de decisões e a pressão para aumentar os números de audiência, Becky decide que a salvação do programa é a interação de Mike Pomeroy (Ford) e Coleen Peck (Keaton), embora o primeiro considere aquele tipo de programa baixo nível demais para alguém com um curriculum como o dele. Tendo isso em vista, o roteiro não economiza nas cenas de estrelismo e orgulho de dois personagens de peso e com presença de cena, que não estão na mesma página, imprimindo como um desafio para a produtora executiva fazer os dois funcionarem juntos perante as câmeras.

Interessante aqui fazer um contraponto à personalidade difícil de Pomeroy, atribuída por um Harrison Ford que sorri pouco e mantém uma eterna carranca para todos ao seu redor, imprimindo certo receio aos profissionais que trabalham com ele, mas ainda considerado um gênio em seu ramo com a probabilidade de que, se fosse uma característica da personagem de Keaton, esta seria facilmente rotulada por histérica, como acontece e já aconteceu com muitas mulheres da indústria do cinema e TV (como Julia Roberts e Katherine Heigl).

Além disso, Rachel McAdams dá certo carisma à sua personagem, demonstrando que pode haver mulheres desempenhando papéis de liderança e, principalmente, que elas não precisam ser retratadas como megeras mal educadas, como se fossem uma “versão profissional de mães” de seus funcionários, somente obedecidas somente pelo temor da reprimenda (como Sandra Bullock em A Proposta). Ou mesmo, que essas mulheres ocupam esses cargos por merecimento e não por estar dormindo com as pessoas certas – como ocorre em muitos produtos de TV e cinema -, algo que o filme até mesmo explora quando Becky consegue que Pomeroy seja apresentador do DayBreak.

Não em Morning Glory. A protagonista é jovem, enérgica, às vezes retratada como inocente demais, mas inspiradora para aqueles que a cercam, talvez até uma workaholic (termo inglês que remete a pessoas viciadas em trabalho), o que em algum momento se torna um impasse para o relacionamento amoroso desenvolvido em segundo plano com Adam, o personagem de Patrick Wilson (Invocação do Mal). Justamente pela concentração em salvar o programa ao qual se afeiçoou, Becky sente certa pressão para conciliar as novas exigências profissionais com a relação ainda instável iniciada com Adam, algo corriqueiro no universo feminino e que é frequentemente demonstrado como um dilema que o homem sempre vence.  No filme, porém, esse novo desafio surge como uma parte da vida da personagem, um complemento, o qual é importante, mas não é sua prioridade no momento.

Assim, apesar de ter sido lançado há oito anos e não fazer parte dessa safra de produções recentes e empoderadoras, encabeçadas por pessoas como Reese Witherspoon, o filme é um grande refresco às comédias românticas que tornam como objetivo de vida das mulheres um casamento – às vezes com seu melhor amigo, o noivo de sua amiga ou qualquer um que as trate minimamente melhor do que todos os outros, como ocorre nos filmes desse gênero – ou somente um relacionamento, pois é supostamente inaceitável manter-se solteira. Morning Glory tem suas previsibilidades, mas é mais um filme sobre relações humanas, adaptar-se à novas realidades e às exigências da vida, e superar os obstáculos, o que Rachel McAdams mostra com muita naturalidade.