Baseada na série literária recorrente de vinte livros (1989- ) da autora australiana Kerry Greenwood, Miss Fisher’s Murder Mysteries (Os Mistérios de Miss Fisher, em português) é uma série policial que se passa na década de 20 em Melbourne, Austrália. Exibida entre 2012 e 2015, contando com três temporadas de treze episódios cada, e comandada por mulheres (Fiona Eagger e Deb Cox), a trama encerrou seu último episódio com um baita gancho, deixando os fãs desolados. A sorte é que logo teremos um filme para fechá-la com chave de ouro.

Existem muitos sentimentos que afloram em meu coração ao pensar nesta série que é uma jóia escondida na Netflix e abaixo listarei os principais deles.

Phryne Fisher e a reinvenção do protagonismo

A série tem como protagonista a inigualável Phryne Fisher (Essie Davis), uma mulher autoconfiante, capaz, inteligente e audaciosa que retorna a Melbourne, após muito tempo vivendo no exterior, para começar uma nova vida e também para garantir que o homem tido como responsável pelo desaparecimento de sua irmã caçula nunca saia da cadeia.

Logo após sua chegada, ela depara com um caso de assassinato cuja uma das (improváveis) suspeitas é a doce Dorothy Williams (Ashleigh Cummings) e assim resgata o seu trabalho como detetive particular.

Com sua determinação e sede por justiça, Phyne se vê de novo e de novo envolvida na investigação de assassinatos pela cidade e não demora até que se autointitula uma “dama detetive”, para a indignação do Inspetor de polícia Jack Robinson (Nathan Page), que passa a dividir espaço com Miss Fisher nas cenas de crimes e com quem desenvolve um divertido relacionamento envolto por tensões.

Miss Fisher reúne em uma única personagem todas as características que buscamos em personagens femininas no que tange à representatividade, tudo isso desafiando as regras de conduta da época. Ela é sarcástica, irreverente e irônica, leal, empática e protetora, além de ser extremamente passional e à vontade com sua sexualidade, tendo alguns amantes durante a série de maneira natural e espontânea e revidando com maestria os pitacos sobre a vida que leva enquanto mulher solteira no início do século XX.

Essie Davis está tão incrível no papel que para mim será eternamente a Miss Fisher, um símbolo de força e empoderamento feminino.

Coadjuvantes que (quase) roubam a cena

O enredo dos personagens secundários é tão bem construído que muitos deles facilmente prenderiam a atenção com séries próprias.

  • Dorothy Williams (a.k.a Dot): uma jovem católica conservadora que começa a trabalhar na casa de Phryne após ser demitida de seu antigo emprego sem uma referência. Dot é doce, leal e responsável, descobre sua própria força enquanto mulher e cresce muitíssimo durante a série, principalmente no que tange ao relacionamento que desenvolve com Hugh, que é fofo de testemunhar, mas tem seus desafios devido à moral e os bons costumes da época. Dot logo se vê envolvida nas investigações junto à protagonista e aos poucos se torna seu braço direito.
  • Elizabeth Macmillan (a.k.a Dr. Mac), interpretada por Tammy MacIntosh: a melhor amiga da protagonista é médica, lésbica e desafia padrões ao se vestir publicamente com ternos considerados masculinos. Ela é extremamente inteligente e serve como confidente de Miss Fisher com frequência.
  • Jack Robinson: o inspetor de polícia é um veterano de guerra reorganizando a vida após se separar da esposa. Ridiculamente certinho, ele é o oposto de Phryne em quase todos os sentidos e isso torna delicioso ver a forma como interagem e ouvir os diálogos afiadíssimos entre os dois. Ainda que inicialmente relutante, com o tempo ele passa a considerar Phryne como parte do time investigativo e se permite aprender muito com a irreverente mulher.
  • Hugh Collins, interpretado por Hugo Johnstone-Burt: o policial conhecido por sua boa vontade e ingenuamente adorável se encanta por Dot logo no início da série e ve-lo tentando impressioná-la com seu jeito tímido e atrapalhado é puro entretenimento. Além de aparecer constantemente ajudando alguém no local onde vive, ele não consegue resistir ao pedido de Miss Fisher quando ela sugere que ele a mantenha informada sobre as investigações em andamento e assim ela sempre consegue aparecer no lugar certo e na hora certa.
  • Jane Ross: uma menina que cresceu em meio à miséria e responsável por cuidar da mãe que sofre de um distúrbio mental, ela é resgatada de uma situação tenebrosa por Phryne por lembra-la de quem ela já foi e também por compartilhar o nome com sua irmã desaparecida. A menina demonstra uma maturidade significativa para sua idade e constrói com a protagonista um novo significado de família.

Temática do hoje no ontem

A série aborda temas contemporâneos de uma maneira crível e relevante; nos deparamos com a presença de ideais feministas como incentivo à liberação sexual feminina, saúde reprodutiva, direito da mulher ao trabalho, releitura de papéis de gênero, questionamento à código de conduta, diversidade sexual, entre outros.

Aqui a série poderia se estender mais abraçando o feminismo interseccional e aprofundar temas adicionais, pois não há inclusão significativa de discussões sobre racismo, transsexualidade, desigualdade social ou até mesmo o colonialismo, questão problemática vivida no país neste período em virtude da tomada de terras de comunidades aborígenes.

A série fomenta alguns debates cruciais, mas é preciso ressaltar que a história acontece como parte de um recorte social que promove a visibilidade de pessoas brancas e ricas; a fidelidade histórica acaba sendo comprometida ao retratar uma única perspectiva, afinal outras narrativas e grupos também existem.

“Fascinantes Anos 20”: um saudosismo glamuroso

Com toda a certeza, a ambiência da série é um dos pontos altos que torna a experiência visual um rico presente.

  • Questionamento de antigos valores: o período da série condiz com o pós-guerra e naquela época se fez presente o sentimento que se alastrou por aproveitar mais da vida e de seus prazeres, fazendo com que a população começasse a reaver costumes tradicionais.
  • Momento de libertação feminina: nesta época também cresceu nas mulheres o sentimento por mudança; elas começaram a questionar códigos de conduta e comportamento, reivindicando o direito ao voto, a aprender a dirigir, à flexibilidade e liberdade quanto à vestimenta, fumo e bebida; temas estes abordados na série através da protagonista, embora seja preciso ressaltar que ela era oriunda de uma classe afortunada e usufruía privilégios devido a isso.
  • Artefatos saudosistas: é um convite a mergulhar no tempo de figurinos glamurosos, carros emblemáticos, vocabulário rebuscado, decoração marcante e, é claro, o renomado jazz.

Heroísmo em forma de mulher

De todos os pontos, a parcela criminal é a parte menos impressionante da série, mas ainda tem seus méritos. Os casos são resolvidos com uma mistura de sagacidade e trabalho em conjunto: primeiro de Miss Fisher e Jack com o auxílio do policial Hugh e e mais tarde com o auxílio de Dot.

Uma boa porcentagem cômica da série vem deste segmento, já que a intromissão destemida de Phryne se alia ao espírito conservador de Jack e em resultado faíscas voam. Phryne se arrisca muito pelo que acredita e convence pela perseverança.

 

Ainda que alguns casos sejam mais bem construídos do que outros, qualquer cena desta trama é uma viagem sensorial. Fica o convite sincero para uma série digna de maratona e muitos bons momentos.

Para adiantar o seu lado, segue abaixo o trailer da primeira temporada da série (infelizmente ainda sem legenda):

E falando sobre a continuação desta trama que ainda não teve um final merecido, o filme Miss Fisher & The Crypt of Tears tem filmagens previstas para iniciar em outubro, sob produção da Every Cloud e direção de Tony Tilse. Alguns nomes do elenco original da série já foram confirmados: Essie Davis como Phryne (Amém!), Nathan Page como Jack, Ashleigh Cummings como Dot e Miriam Margolyes como Prudence (tia de Phryne).

Além disso, um spin-off da série com o título Miss Fisher’s Modern Murder Mysteries foi encomendado também pela Every Cloud em conjunto com a Seven Network e a Screen Australia. As filmagens da série derivada terão início ainda este ano, desta vez protagonizando a incógnita sobrinha de Phryne.

A trama se passará na Melbourne dos anos 60, acompanhando a trajetória de Peregrine Fisher, “que herda uma fortuna quando a famosa tia que nunca conheceu some em Nova Guiné. Peregrine precisa se provar brilhante o bastante para se tornar a melhor detetive particular que há.”

Uma série extraordinária igual a esta não poderia fazer nada além de render frutos.