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Miranda Bailey: uma bússola no meio do caos da vida no hospital

Miranda Bailey: uma bússola no meio do caos da vida no hospital

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A coluna Personagem do Mês apresenta quatro textos (um por semana) sobre uma personagem escolhida pela equipe do Séries Por Elas. Esses textos seguem a seguinte lógica:
1ª matéria: conta a trajetória da personagem e explica por que ela mereceu ser a personagem do mês
2ª matéria: mostra o que podemos aprender com a personagem e o que é melhor deixar pra lá
3ª matéria: buscamos inserir a personagem no contexto do blog, fazer link com empoderamento e feminismo
4ª matéria: vamos falar pouco da atriz. Curiosidades, declarações importantes e fofoquinhas saudáveis

Primeiramente, deixe que ela se apresente.

“Eu sou a doutora Bailey.”

Você deve saber que ela escuta tudo. Ela sabe de tudo. Ela está de olho em tudo e em todos. Ela é Miranda Bailey, de Grey’s Anatomy, uma entidade complexa. Diria até que é um modo,  um estilo, um manual sobre como encarar a vida. Isso porque se você tem um desafio bem na sua frente, você poderia se perguntar “O que Bailey faria?” ou, no bom acrônimo da língua inglesa WWBD (“What would Bailey do?”). É sério. Faça-se essa pergunta. É uma perspectiva interessante e por mais que a personagem não seja a perfeição do mundo – detalhes sobre os quais falaremos num futuro próximo…mas quem é, não é mesmo? -, Bailey tem uma bússola dentro de si capaz de conceder conselhos e um norte a quem necessita.

Os primeiros anos como cirurgiã

Porém antes que exaltemos essa divindade Miranda Bailey, falemos de sua trajetória e dos percalços e conquistas que a fizeram quem ela é hoje, a Chief Bailey. Para começar, seu início de carreira não foi nem um bocadinho fácil. Mulher, negra, baixinha e gorda, Mandi, como era carinhosamente conhecida por seus colegas, lutou muito para ter seu reconhecimento. Como vimos em “The Time Warp” (6×15), Bailey não foi sempre a durona, casca-grossa que conhecemos na primeira temporada. Ela penou muito nas mãos de uma residente de sua época, de quem ouviu pela primeira vez, dentre muitas humilhações, que ela era uma interna, a base da cadeia alimentar cirúrgica. Porém também foi um período em que Bailey aprendeu umas das lições mais valiosas de sua vida como cirurgiã: sempre cheque o histórico de seu paciente e aprenda quando não cortar. Mesma época em que Bailey enfiou os depois na cirurgia geral e conquistou a primeira cirurgia-solo de sua turma em um caso de difícil diagnóstico. Até então ela se considerava um peixinho no mar de tubarões da cirurgia, mas aos poucos foi ganhando a força necessária para lutar, sempre tendo o apoio de seu mentor, Richard Webber.

Adentrando nos anos da residência, Bailey passou por uma mudança de postura e ao virar residente ganhou o famigerado apelido de “Nazi”, além de um banquinho para subir durante as cirurgias. E junto com o apelido vinha a lenda. Greys, Yang, O’Malley e Stevens ao serem designados para o Nazi esperavam tudo menos a figura daquela mulher negra, baixinha e gorda. Esperavam um cara carrancudo, “um nazista” nas palavras de Meredith. Erraram em tudo e aprenderam logo ali as cincos regras fundamentais de Bailey:

Bailey e seus colegas de trabalho

Bailey é descrita como uma mulher durona, ferrenha e extremamente crítica e ela até busca alimentar a fama. Sem papas na língua, ela manda verdades para internos, residentes, atendentes e até para o Chefe da cirurgia. Com Bailey não há vez: se tiver que ouvir, você vai ouvir e no momento certo. Entretanto ao longo dos anos fomos vendo que as coisas com ela não são necessariamente “A” ou “B”, vide a relação com seus cincos internos – lembrando que Alex foi redirecionado para el, se juntando a Mer, George, Izzie e Cristina e fechando a formação do MAGIC. No primeiro contato entre eles, Bailey declarou aos quatro cantos que já os odiava antes mesmo de conhecê-los. Só que não muito tempo depois ela foi revelando o seu verdadeiro apreço pelos cinco. O início difícil com os internos muito em parte se deve pela descoberta do relacionamento entre Mer e Derek, que deixou Bailey cheia de pés atrás com a interna e a fez questionar o favorecimento dentro do hospital. E a coisa só foi piorando depois que Addison chegou e o passado de Derek foi revelado, momento em que a gente super aplaudia Bailey pois ela era a única capaz de jogar umas verdades na cara do McDreamy.

Com os anos e o drama, fomos vendo a casca de Miranda se abrir para o mundo. Ela chegou a culpar a gravidez por ter amolecido com seus internos, o que culminou no caso da morte de Denny Duquette e em tantas outras atrapalhadas do grupo. Todavia, antes mesmo do pequeno Tuck dar as caras, ela já demonstrava o quanto se importava com seus internos e com aqueles a sua volta. Bailey sempre esteve ao lado de seus alunos quando eles precisaram. Ela estava lá durante o complicado aborto de Cristina e depois quando George perdeu o pai. Ela esteve incondicionalmente por Izzie durante o tratamento do câncer. Foi ela quem obrigou Alex a remover uma bala alojada no tórax e o ajudou a lidar com problemas familiares. E sem contar o tanto que ela fez por Meredith. Quem não se lembra de quando Grey resolveu doar o fígado para o pai e Bailey arrancou lágrimas de todos nós dizendo “Eu tinha cinco internos. Quatro de vocês estiveram nesta mesa. Um de vocês tem câncer, um de vocês morreu. É bom você não aprontar nada engraçadinho comigo, Grey”.

E não com seus alunos ela tinha uma relação de amor e ódio. Ela nunca se satisfazia com os atendentes que iam trabalhar no Seattle Grace Hospital, hoje Grey Sloan Memorial Hospital depois de Seattle Grace Mercy West Hospital. Inclusive, Webber já chegou a jogar isso na cara dela depois que Bailey resolveu implicar com a recém-chegada Arizona Robbins. Não era por menos, todos, fosse quem fosse, temiam e respeitavam Miranda. Quer dizer, a temem e a respeitam, já que ela é uma das sortudas que enfrentou o perigo da morte por algumas vezes e escapou. Aliás, ela é um dos personagens originais que continuam na série, junto com Mer, Alex e Webber. O que quero dizer é que basta um olhar de Miranda para você saber que algo está errado.

O embaralho entre vida pessoal e profissional

Obstinação poderia ser o nome do meio de Bailey, sempre tentando levar com muita consciência quem era na vida pessoal e  quem era no hospital. Isso porque no começo ela buscava deixar tudo muito separado, não deixando que os assuntos de um interferissem nas questões do outro. Difícil, né? Em terra de Shondaland a gente sabe muito bem que isso não é possível. Miranda teve que aceitar que separar as esferas da sua vida era uma tarefa mais árdua que a um complicadíssima cirurgia. Assim ela foi vendo tudo se emaranhar.

Na segunda temporada, Bailey enfrentou a primeira grande encruzilhada de sua carreira. Na época em que deveria escolher um programa de especialização, ela descobriu que finalmente estava grávida, depois de tentar por anos a fio. E esse seria apenas o primeiro. Teve a gravidez atravessada com o acidente do marido no meio de uma crise com uma bomba no hospital. O ultimato do marido pedindo o divórcio durante o treinamento de uma nova especialidade. O parto de Meredith no meio de uma tempestade. E muitas mortes de amigos e colegas durante as tragédias que assolaram o hospital. Desses, três momentos que marcaram profundamente sua vida foram o dia do tiroteio (ao qual ela se refere como “o pior dia de sua vida”), a morte de Adele no dia de seu casamento com Ben e o TOC desenvolvido depois da morte de três pacientes em decorrência de uma severa infecção.

Uma das boas contradições em Bailey é o fato de ela sempre ter lutado tanto para separar a vida profissional da pessoal e ser a primeira a se envolver com os pacientes – por mais que ela diga que é super distanciada deles. E esse apego negado gerou muitos desafios para ela, especialmente quando ela se aventurou pela pediatria ou quando tratava crianças. Miranda arriscou sua reputação por algumas vezes com o intuito de dar o melhor tratamento possível e as melhores chances para seus pacientes. Desafios que resvalaram também numa desconfiança sobre sua capacidade como mãe. Mas Bailey bem sabe que a definição de mulherão da porra tem seu nome na frente e ela é capaz de dominar o mundo.

Alguns outros marcos na vida de Bailey

Uma das grandes decepções na vida de Bailey sem dúvidas foi a nomeação de Callie Torres para o cargo de Chefe dos Residentes. Ela contava que seria a Chefe de sua turma por toda sua capacidade e desempenho. Foi uma balde de água fria jogado por Webber, justificado pela dedicação dela às salas de cirurgias e não às papeladas, que Bailey tratou de contornar. Ela engoliu o orgulho e passou a ajudar Callie na função, uma vez que a colega não estava na melhor fase dado a quantidade de problemas pessoais. Eventualmente, Webber percebeu que quem de fato coordenava os residentes era Miranda e a nomeou para o cargo, profetizando que um diria ela seria Chefe da Cirurgia.

Outro excelente momento de Bailey foi quando ela tratou um paramédico neo-nazista que tinha uma suástica tatuada na barriga. Bailey foi destruidora ao tratá-lo independente das convicções dele, mas ela quebrou todos os forninhos do mundo quando se viu obrigada a deformar a tatuagem por conta de uma sutura bem-feita. Daquele dia em diante Bailey proibiu todo mundo de chamá-la  de “Nazi”.

Anos depois seu apelido virou BCB (Booty-call Bailey), uma versão mais travessa de Bailey que ficou entre o enfermeiro Eli e o ex-anestesista/residente da cirurgia Ben Warren, com quem Bailey se casaria depois de algumas idas e vindas. Essa fase foi muita libertadora para ela, por sinal. Miranda só tinha se relacionado com Tucker, com quem ficou casada por muitos anos,  e ter outros relacionamentos a deixou menos rígida consigo mesma.

Com a partida de Cristina, um lugar no Conselho vagou e Bailey foi a indicação de Webber. Depois de uma rápida disputa com Karev, ela foi a escolhida para ocupar o lugar. Para além, Miranda sempre esteve por trás de todos os que ocuparam o cargo de Chefe da Cirurgia, dando suporte e resolvendo as questões mais urgentes, sendo uma bússola, um norte, um termômetro para tudo e todos. Quando na décima segunda temporada soubemos que ela finalmente seria a nova Chefe da Cirurgia do Grey Sloan Memorial Hospital, ficamos como? Era a melhor decisão possível, a única. Então ela se tornou a primeira mulher a ocupar o cargo no hospital. Uma mulher, negra, baixinha e gorda. E é  por tudo isso e mais um bocado que ela é a nossa personagem do mês de agosto.

Melina Galante Produtora e realizadora audiovisual em processo acadêmico. Viciada em redes sociais e numa boa polêmica. Assiste a séries desde antes de se dar conta de que era gente, mas só há alguns anos percebeu que sua extensa grade é dominada por protagonismo feminino.

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