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Mindhunter: a compreensão do ódio pelas mulheres nos anos 70

Mindhunter: a compreensão do ódio pelas mulheres nos anos 70

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Mindhunter estreou na Netflix como uma série que se dispõe a trazer uma abordagem nova no nicho de dramas policiais. O show produzido por grandes nomes como David Fincher e Charlize Theron acerta em todos os detalhes técnicos. Da fotografia à trilha sonora, o que se vê é uma ambientação muito bem feita e condizente com a época retratada. Nos anos 70, o FBI começava a dar atenção ao perfil mental dos criminosos, pois já existia a Unidade de Ciência Comportamental desde os anos 50. A psicologia criminal avançava lentamente e com muitos percalços devido a natural recusa às novas ideias, bem como o receio de que se começasse a ter empatia pelos criminosos.

Dessa forma, a série apresenta o dedicado agente Holden Ford (Jonathan Groff), disposto a desvendar a mente daqueles que cometeram crimes violentos, mas barrado pela burocracia da agência para a qual trabalhava. Holden está claramente à frente de seu tempo. Em 1977, o conservadorismo nos Estados Unidos era ainda mais palpável do que nos dias atuais.

Entretanto, a série deixa claro que a agência encontrava-se defasada em relação às diferentes formas de enxergar o crime. Holden, então, entra em uma espiral de evolução profissional ao conhecer o agente Bill Tench (Holt McCallany), na série o responsável por criar o Departamento de Ciência Comportamental. Mais velho, é aquele que representa um contrapeso à impulsividade de Holden, ávido a sempre buscar mais do que se deve sobre os criminosos e a ultrapassar uma linha tênue entre o profissionalismo e o desespero de provar que seu trabalho vale à pena.

Pode-se dizer que os dois personagens, baseados nos agentes reais do FBI, John Douglas e Robert K. Ressler, percorrem uma jornada épica por várias cidades dos Estados Unidos, entrevistando e dissecando a mente de assassinos famosos, como Ed Kemper e Jerry Brudos. Por quê? O que os motivou? Eles são realmente loucos? Mindhunter não responde essas questões. A série explora os criminosos e deixa que o espectador, com a ajuda de seus personagens, tire suas próprias conclusões. Porém, eles estão apenas começando. Há a sensação de incerteza sobre o que estão fazendo, além do fato de serem desacreditados no local de trabalho. Bem como existem controvérsias sobre a forma como a produção resolveu abordar o tema proposto: feminicídio.

A Representação Feminina

Não se pode dizer que Mindhunter não foi pensada e escrita de acordo com a época. No início de 1960 até 1970, os movimentos feministas ganhavam força novamente na busca por igualdade, focando o debate em questões como sexualidade, direitos reprodutivos, família e mercado de trabalho. É possível perceber todas essas questões abordadas sutilmente na série, que não extrapola em momento algum ao retratar um ambiente de trabalho, por exemplo, com poucas mulheres e quase nenhuma em posição de poder.

Não há cota para mulheres nos anos 70. No FBI, os agentes inicialmente treinados por Holden são majoritariamente homens brancos. Na polícia, com quem Holden e Bill têm contato em diversos estados do país, não há nenhuma mulher desempenhando funções consideradas masculinas. É como se ambos fossem um ambiente hostil às mulheres, por serem truculentos e violentos demais.

Curiosamente, as duas mulheres que vão na contramão da onda de conservadorismo são inseridas no ambiente acadêmico. Wendy Carr, baseada na psicóloga e professora de Boston College, Ann Wolbert Burgess, oferece uma visão mais profissional ao trabalho desempenhado por Holden e Bill. Meticulosa, ela cria um questionário específico para determinar padrões comportamentais entre os assassinos em série, embora os dois agentes de campo queiram improvisar a todo instante. Lindamente interpretada por Anna Torv, Wendy chega ao FBI carregando uma reputação em torno de seu nome e com o único objetivo de concluir a pesquisa, entrando em conflito com Bill e Holden quando estes podem colocá-la em risco.

De forma natural, a psicóloga se torna a voz da razão entre a equipe de pesquisa, embora declaradamente não seja sua vontade. O único interesse de Wendy são os resultados do estudo que estão desenvolvendo, o que pode ser visto nas cenas em que seu aspecto pessoal é desenvolvido. A doutora é sempre retratada sozinha em um apartamento alugado e impessoal, após ter priorizado sua carreira em detrimento de um relacionamento estável com uma mulher. Outro ponto positivo da série, a orientação sexual da doutora não recebe uma abordagem clichê, pois se trata de algo realmente irrelevante ao desenvolvimento profissional de sua personagem, que não acrescentaria em nada à história, a não ser em uma tirada de alívio cômico de seus colegas.

Hannah Gross, por sua vez, encarna o papel de Debbie Mitford, namorada de Holden e estudante de sociologia, pronta a citar Durkheim em qualquer conversa de bar. Debbie representa o espírito livre que os anos 70 inspiram. Moderna e independente, ela exacerba liberdade sexual, inclusive imprimindo maior entendimento ao namorado sobre isso, o qual adentra junto ao público em uma jornada para entendê-la sem julgamentos. Na maioria das cenas, essa interação entre as duas partes é feita por muitos diálogos.

Apesar de manter-se séria, Debbie ainda é muito expressiva sobre o que quer, o que não quer, o que gosta ou não. É interessante ver como eles se completam nestes termos, descobrindo um ao outro, despindo-se lentamente de um pudor que Holden ainda carrega, apesar da constante tentativa de livrar-se disso. Além disso, percebe-se que o agente tem mente e personalidade em construção e está pronto a entregar-se ao que o mundo oferece de novo em um processo para deixar para trás o que já é considerado “fora de moda”, no que Debbie o auxilia talvez até didaticamente demais.

 A misoginia elevada ao extremo

Com o decorrer da série ficou claro que o tema abordado pelos personagens em suas pesquisas seria o feminicídio. Ao ouvir os relatos pelos pontos de vista dos próprios assassinos, ainda que levando em consideração todas as vertentes que os envolviam nesse fato, é possível perceber a misoginia na qual estavam envoltos. Atitudes femininas eram sempre o gatilho para que cometessem um assassinato. Por quê? O que leva esses homens, geralmente de aspectos comuns, a manifestar tanto ódio pelas mulheres?

Durante toda a vida e construção da personalidade, é esperado um determinado comportamento da mulher. Quando tal comportamento não segue este padrão, elas contrariam esses homens. É inevitável e irreversível, pois foi incutido neles pela própria sociedade que as mulheres devem desempenhar certas funções: casar, serem boas mães, donas de casa. Ao fugir do que é visto como uma obrigação, eles passam a fantasiar sobre a falta de controle que têm sobre a figura feminina.

Assim, a forma que vêem de tomar pra si esse controle novamente é o homicídio exacerbado pela violência. É o único modo que encontram para anular a personalidade feminina que não aprovam ou que não estão preparados para lidar, pois não se submeteu a eles, ainda que o resto do mundo dissesse que deveria. É um comportamento não esperado e que desafia suas masculinidades, o que supostamente não deve acontecer. Afinal, os entrevistados acreditam que as mulheres têm que satisfazer seus desejos, o que é notado facilmente em um dos depoimentos de Ed Kemper – serial killer e necrófilo. Em seu tom calmo e atitude amigável, chega ao ponto de compará-las a bonecas: sem vida, sem vontade, sem voz, apenas manipuláveis.

O único ponto em que a série peca, por outro lado, é ao não explorar a subjetividade das vítimas ou a passividade dos gatilhos dos criminosos, embora houvesse tempo suficiente para tanto. Na maioria das vezes, o transtorno dos condenados foi associado a maus tratos maternos, na infância ou vida adulta, o que parece simplificar e relativizar o problema, levando a outra questão: maternidade compulsória. Os criminosos reclamam abertamente sobre suas mães, criando-os apenas por obrigação, mas não é nem mesmo mencionado que isso é tudo que lhes resta enquanto o homem tem a opção de largar tudo e viver sua vida normalmente. O que deixa implícito é: que famílias disfuncionais, chefiadas por mulheres, criam assassinos? O desserviço não precisa ser alargado.

Porém, Mindhunter cumpre a proposta de adentrar na mente desses criminosos com maestria, colocando em voga a necessidade de se debater de forma consciente sobre o feminicídio, um crime recentemente previsto em lei no Brasil, mas ainda repleto de nebulosidades e subjetividades, pois mesmo atualmente assusta o fato de existirem homens que matam mulheres somente pela condição de serem mulheres que supostamente não seguem padrões. Ainda, pode-se dizer que é uma série majoritariamente de acordo com a época retratada, principalmente ao apresentar Holden como uma mente moderna ainda influenciada pelo machismo, tornando-o mais humano, próximo da realidade do público, que sente os impactos do convívio dos entrevistados tanto quanto o personagem, o que torna a série quase atemporal. Realmente, algo a se esperar de David Fincher.

Mirian de Paula Estudante de Direito. Potterhead e Sonserina por amor. Feminista. Taurina, gulosa e dorminhoca, se interessar. Um pouco poeta, quando há inspiração.

Comment(2)

  1. Oi, Mirian!
    Vim atrás de mais opiniões sobre a série que falasse das questões sobre a mulher.
    Achei a série bem legal nesse sentido, fiquei afim de ir atrás de pesquisas que pensassem pra além dos assassinatos e vissem num âmbito mais macro sobre essas questões. Porque não dá pra negar que controle sobre as mulheres e misoginia são os grandes pilares que levaram a esses assassinatos. Mas lendo teu texto, me chamou a atenção que há uma crítica ao “desserviço” que a série pode fazer sobre esses lares com mães solteiras e pais que ninguém sabem suas histórias. Discordo de ti, porque acho que a série mostra muito sutilmente como a ausência paterna é um grande gatilho pro desespero dessas mães e violência delas com os filhos. Tanto que Bill fala em um dos episódios que “todos os pais são ausentes” e quando vemos a vida particular dele, mostra a total falta de tato e carinho que ele não consegue dar para o filho adotivo, que está sentindo falta da atenção dele. Acho que não presta um desserviço, bem pelo contrário, a série consegue englobar todas essas questões sem culpabilizar mães e famílias com problemas.

    1. Oie!!
      Então, minha crítica foi mais no sentido de que a série pecou ao demonstrar que somente esses lares “disfuncionais” levam os homens a cometer o crime, sem aprofundar muito a questão, até porque Bill diz isso e realmente fica claro seu desconforto em realmente desempenhar as funções de um pai. Porém, senti que parece ter faltado demonstrar que famílias aparentemente perfeitas em sua formação e condição social também são capazes de propiciar um ambiente que produza os tais gatilhos e a impressão que ficou é que a culpa é só da mãe.
      Mas se sua interpretação foi diferente, okay (!), o que vale é a discussão!
      😀

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