Ele é professor de filosofia do Ensino Médio. Ela ministra aulas para crianças. Ele é da Catalunha. Ela, da Dinamarca. Apesar de alguns detalhes nada pequenos, as tramas de Merlí e Rita parecem coincidir em muitos aspectos. Seja pelo universo escolar, pelos personagens ou até pelos próprios protagonistas. As duas séries pretendem trazer à tona assuntos pouco discutidos, mas a maneira adotada por cada uma é singular.

Glorificação do personagem

Merlí

Em Merlí, o protagonista atua como uma espécie de deus na Terra. Suas atitudes e ações são encaradas pelos alunos como dignas de respeito e aprovação. Comete erros e burla as regras praticamente em todos os episódios, mas nunca é punido. Além disso, o personagem é desejado por quase todas as mulheres, incluindo aquelas bem mais novas, que parecem nutrir imensa admiração pelo professor.

Enquanto isso, Rita é uma personagem um tanto quanto humana. Cheia de erros e equívocos, pede perdão ao errar com a família e os alunos. Foge às regras da caracterização de mulher santa e inocente. Tem relações sexuais com quem deseja, mas não é objeto de cobiça dos personagens do sexo oposto, não de todos, pelo menos.

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Claro que, quando se cria um protagonista, a intenção é que os telespectadores criem empatia com ele compreendam suas ações. Mas glorificar uma figura como ser supremo é bem diferente disso.

Protagonismo feminino

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Você pode até tentar justificar que Rita tem protagonismo feminino porque a personagem principal é uma mulher, o que não acontece em Merlí. Um ponto de vista que poderia até ser válido nos tempos da carochinha, não hoje.

Óbvio que o fato da série girar em torno da vida pessoal e profissional de uma mulher conta, e muito, para o protagonismo feminino. Mas o principal problema é que em Merlí, personagens do sexo feminino não têm voz. Apenas coexistem junto ao protagonista para realizar seus desejos sexuais ou dar seguimento à narrativa, para depois ‘desaparecerem’. Em suma: coadjuvantes descartáveis.

Em outros tempos, até engolíamos esse tipo de atuação. Felizmente, as coisas mudam e é preciso compreender que a representação da mulher como sexo frágil ou figura sexual é desonesta e opressiva.

Trama melhor desenvolvida

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Merlí aborda desde exposição ofensiva na internet até agorafobia (distúrbio de ansiedade associado a crises de pânico). O problema é que a trama parece não dar aos temas a devida atenção. Ainda que de forma genérica, a exposição desse tipo de assunto é importantíssima, para sensibilizar especialmente os jovens que assistem esses programas.

Mas não dá tempo. O roteiro de Merlí perpassa pelos temas de maneira superficial, quase como se aquilo estivesse sendo discutido com a intenção de tentar fazer algo diferente, sem realmente o fazer. Excluindo a trama de Ivan Blasco, que tem agorafobia e é debatida ao longo de todos os episódio da primeira temporada de forma magnífica, a série catalã é só mais do mesmo.

Enquanto isso, Rita tem coragem de abordar homossexualidade, aborto, gravidez indesejada e até inclusão de alunos com dificuldade de aprendizado em salas regulares. Tudo isso de maneira única, bem e primorosa. Não é nem que eu esteja querendo puxar sardinha para o lado de Rita, mas a produção dinamarquesa é, sem dúvida, bem diferente daquilo que já estamos acostumados.

Estereotipia zero

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O garoto gay que tem medo de contar à família sua orientação sexual, a menina que tem problemas familiares e esconde isso dos amigos, o playboy que, apesar da carranca, tem coração de ouro. Você já deve ter visto esses personagens antes, senão em Merlí, em qualquer produção para o público jovem.

Claro que, quando se constrói um personagem, o roteirista leva em consideração tudo aquilo que já vivenciou e, certamente, criar a partir do ‘lugar comum’ é bem mais fácil. O problema com os esteriótipos é ressaltar aquilo como característica fundamental do personagem, quase como se nada mais pudesse descrevê-lo.

Dizem que é impossível representar um adolescente sem usar os famosos clichês. Só acredito que seja mais complicado. Tanto em Merlí quanto em Rita, temos personagens homossexuais, adolescentes rebeldes e pessoas com alguma dificuldade de aprendizado ou convivência. A diferença é que em Rita, esses personagens parecem ganhar espaço e histórias próprias, o que torna a trama bem mais interessante e representativa.

As duas produções estão disponíveis na Netflix. Rita tem três temporadas e Merlí tem uma.