Master of None sexualidade

Tem coisas sobre as quais a gente fala e escreve com propriedade, afinal, é nosso lugar de fala. Esse não é um desses casos. Mas alguém precisa falar da beleza que foi o episódio Thanksgiving, de Master of None, que mostra a descoberta da personagem Denise sobre sua sexualidade, e como assumir isso impactou sua vida.

O episódio foi escrito pela própria Lena Waithe, que interpreta Denise, a pedido de Aziz – protagonista e co-criador da série. Foi baseado na própria história de Lena, que assim como sua personagem também é homossexual. Nele, o protagonismo foi concedido à Denise, que de forma muito delicada, apresenta ao telespectador as dificuldades de se encontrar, se aceitar e se assumir para os demais.

O episódio é contado através dos almoços de Ação de Graças na família de Denise ao longo dos anos. Desde o primeiro, já vemos uma família composta por mulheres fortes que apesar das diferenças, se unem e se amam. Vemos uma Denise confusa desde pequena, que não entende porque Dev é indiano e não negro, já que sua pele é escura também.

Catherine, mãe de Denise, vivida pela majestosa Angela Bassett, é um desses personagens incríveis e que rouba a cena diversas vezes. Já no começo, ela solta uma das frases mais marcantes do seriado, na tentativa de explicar para a filha que não importa se Dev é negro ou é indiano porque no fundo, os dois são minorias naquela sociedade:

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Ao longo dos anos, vamos vendo uma Denise que prefere a calça folgada, bem a la Um Maluco no Pedaço, do que vestido rodado que a mãe dá. Uma Denise que coleciona pôsteres da Jeniffer Aniston e que fica hipnotizada ao ver como se movem os corpos sensuais (e sexualizados) das dançarinas dos clipes da época. Aos poucos, Denise se reconhece e se assume. Primeiro para o amigo Dev, que mostra na essência o que é ser amigo. Com ele, a personagem fala sobre como é ainda mais difícil entre os negros isso de “ser gay”.

Negros não gostam muito de falar sobre ser gay.
– Por quê?
– Alguns negros pensam que ser gay é uma escolha. Quando descobrem que tem um filho gay, tentam entender o que fizeram de errado. É mais pesado para negros. Tudo é uma competição para nós. E os filhos são como troféus. Ser gay estraga o troféu.
– Acho que ser lésbica não estraga o troféu. Tem muitos troféus héteros por aí. Acho legal você ser um troféu lésbico.

E ela sabia bem do que estava falando. Na cena em que fala abertamente com a mãe que ela é gay, vemos numa atuação impecável, como Catherine fica abalada. Sente medo pela filha, “o mundo já é um lugar difícil para uma mulher negra. Você quer dificultá-lo ainda mais para você?”. Sente que fracassou na missão de ser mãe, teme pelo o que os outros vão falar. Uma reação sincera e realista da maioria dos pais que não sabem lidar naturalmente com a questão.

Quando comenta com a irmã, Joyce, sobre a filha, Catherine tenta repassar tudo o que fez ao longo dos anos que poderia ter levado a filha a essa “escolha”. Joyce, que divide os pontos cômicos do episódio com Dev, nesse momento é quem joga um pouco de realidade à irmã. “Sua filha nunca foi fichada, está na faculdade, tem um futuro brilhante e respeita os mais velhos!”.

Aos poucos a família aceita a realidade de Denise, mas gosta; não se mostra propícia a abraçar os relacionamentos de Denise, a naturalizá-los, a extravasar demonstrações de amor para com ela e nem deixar que ela o faça com suas parceiras. Por mais que Denise estivesse com alguém bom, inteligente, culto, bem-sucedido, só conseguiam enxergar a homossexualidade ali existente.

Mas o tempo ensina – e os erros também. Ao ver que Denise poderia estar com alguém que a fizesse feliz e fizesse bem à ela, Catherine foi pensando o quanto gostaria de ver a filha feliz. O quanto ela precisava se abrir ao novo, engolir seus preconceitos e o que lhe foi ensinado, para que sua filha fosse realmente feliz e pudesse compartilhar essa felicidade com ela.

No almoço de 2017, vemos uma Catherine aberta, receptiva e disposta a conhecer de verdade e interagir com a namorada da filha. Vemos uma Joyce que brinca pelo simples fato de ser brincalhona, e não para espantar a tensão que estava no ar. Vemos uma avó que está cada vez mais surda e, como sempre, só quer saber de boas histórias. Vemos uma Denise grata pela família que tem e por saber que por ela sua mãe foi tão longe.

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