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O show de Mary Tyler Moore: a mulher moderna que conquistou seu espaço

O show de Mary Tyler Moore: a mulher moderna que conquistou seu espaço

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Ontem o mundo se despediu de Mary Tyler Moore.

Antes de qualquer coisa, talvez vocês possam se perguntar: “mas afinal, quem é Mary Tyler Moore?” Uma outra pergunta seria “Eu assisti alguma série ou filme com ela?” Com uma rápida busca na internet, essas questões são solucionadas. Descobre-se que ela foi atriz, comediante, virou um ícone da moda, teve um show com seu próprio nome, além de ter participado de um monte de filmes e séries que garanto que pouca gente viu. Eu, inclusive, não vi metade, confesso.

Tá. E o que mais que ela tem? Afinal ela é lá da década de 70. Seu seriado mais famoso é dos anos 70 e a gente não vê essas coisas antigas porque né, mal temos tempo para acompanhar as séries exibidas na atualidade, quem dirá as antigas. Seu maior trabalho no cinema foi no premiado Gente Como a Gente (Robert Redford, 1980), pelo qual recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Talvez alguém a reconheça por uma participação em três episódios de The 70’s Show. Nele, ela fez o papel de uma apresentadora de um programa de TV fictício, entre os trabalhos espalhados por televisão, cinema e teatro.

Pois bem. Conheci Mary Tyler há cerca de três anos, quando fazia uma disciplina sobre narrativas seriadas na faculdade. O professor trouxe um tanto de séries em preto e branco, outras em technicolor, bem saturadas e vibrantes e de ritmo bastante diferente do que se emprega hoje. Apesar da estrutura das comédias de situação, as sitcoms, não terem mudado tanto assim. Entre os exemplos apresentados, lá estava The Mary Tyler Moore Show.

Mary Tyler já havia ganhado notoriedade na sitcom  The Dick Van Dyke Show ao interpretar Laura Petrie, a esposa do protagonista Rob Petrie (Dick Van Dike). Papel que lhe rendeu o primeiro Emmy, dos seis que ganharia ao longo da carreira.  Porém, sua consagração veio com The Mary Tyle Moore Show e sua protagonista Mary Richards.

Criada por James L. Brooks e Allan Burns e exibida entre 1970 e 1977, a sitcom vencedora de vários prêmios (incluindo 29 Emmys!) contava a história de Mary. Uma mulher de 30 anos que, após ver acabado seu relacionamento de dois anos, se muda para Minneapolis, no estado de Minnesota. Lá, ela participa de uma seleção para o cargo de secretária de um canal de TV. Mas acaba virando a nova produtora associada de um programa jornalístico. Mais tarde, Mary se torna a produtora do programa.

Ela adota como morada um apartamento no terceiro andar de uma casa onde vivem outras duas mulheres e uma criança, Phyllis Lindston (Cloris Leachman) e sua filha Bess (Lisa Gerrirsen), e Rhoda Morgenstern (Valerie Harper). Juntas, essas três mulheres vão traçar uma panorama da mulher moderna e trazer à tela questões sociais, de gênero e sexualidade. Phillys, por exemplo, é uma ativista política declaradamente feminista e militante.

Ao longo das temporadas vão sendo discutidos assuntos como independência feminina, igualdade salarial, homossexualidade, vida sexual, problemas conjugais, infidelidade, divórcio, infertilidade, adoção, educação de crianças e adolescentes. Vejam bem, estamos falando dos anos 70 e de um estado tradicionalista como Minnesota. Falamos de um país recém-saído (se é que se pode dizer isso) de uma revolução sexual. Uma época em que mulheres há muito já saíam às ruas exigindo seus direitos e ocupavam o mercado de trabalho. Em contrapartida, havia requisitos moralistas a serem cumpridos. Havia uma massa de telespectadores tradicionais a ser conquistada.

A sitcom, portanto, ia com certa cautela abordando temáticas, hoje tão comuns a nós. Pode-se dizer que adotava uma linha liberal moderada. Havia uma sutileza para tais abordagens, que se arrisca dizer mais eficaz do que se fosse escancarada. Basta levarmos em conta o tanto de tempo que a série ficou no ar e seus reflexos para as gerações de roteiristas, produtoras, diretoras, atrizes e telespectadoras que viriam. Crítica seja feita, esse panorama reflete apenas um recorte da população feminina. O show fala da condição de mulheres brancas, heterossexuais, pertencentes à classe média.

A respeito dessa dualidade, a princípio Mary seria divorciada, porém os produtores acharam que seria demais para a época uma protagonista divorciada. Assim, a rotularam como “solteira”. Entretanto, reforçaram a independência e individualidade da personagem através do figurino. Mary exibia um estilo autêntico em seus terninhos (antes mesmo de Diane Keaton e sua Annie Hall popularizarem a tendência). E é aqui que ficção e realidade também se mesclam. Tanto personagem quanto atriz traziam a moda como identidade.

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Pasmem, mas Mary foi uma das primeiras atrizes a usar calça numa série de TV, quando ainda participava de The Dick Van Dyke Show, numa simbologia para a igualdade de gêneros. Inclusive, voltando a falar um pouquinho dessa sitcom, o papel de Mary a princípio seria o de uma esposa e dona de casa típica da televisão norte-americana. Porém o criador e roteirista Carl Reiner, deu uma nova postura à personagem dentro da narrativa, dando-lhe mais voz.

Para além dessa marcante carreira na atuação, Mary Tyler escreveu duas autobiografias. A primeira abordando seu problema com o alcoolismo, After All. E a segunda sobre sua convivência com a diabetes tipo 1, Growing Up Again: Life, Loves, and Oh Yeah, Diabetes. Ela foi, até mesmo, membro da JDR, uma organização não-governamental dedicada a financiar pesquisas sobre diabetes tipo 1. Valeu-se de sua influência para angariar fundos para a organização.

Na vida pessoal, casou-se, divorciou-se e teve um filho. Em 1970, fundou com o então marido, Grant Tinker, um executivo da CBS (hoje NBC), a produtora de televisão MTM Enterprises. Essa foi empresa responsável por criar e produzir The Mary Tyler Moore Show. Olhem isso, gente, lá em 1970, ela era dona do próprio show de TV!

Mary Tyler também atuou como ativista na proteção de direitos dos animais. Todavia, nas questões políticas, Mary Tyler não era das mais liberais e não aderiu ao movimento feminista da época. Mas aí é que tá, ela escolheu ser assim. Ela escolheu como se posicionar. E isso, de certa forma, fez dela uma mulher que luta por seus direitos e por sua voz, não?

Que mulherão da porra!

Melina Galante Produtora e realizadora audiovisual em processo acadêmico. Viciada em redes sociais e numa boa polêmica. Assiste a séries desde antes de se dar conta de que era gente, mas só há alguns anos percebeu que sua extensa grade é dominada por protagonismo feminino.

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