Quantas vezes o item “ser mais organizada” e suas variáveis já esteve na sua listinha de resoluções e metas para um novo ano? Pois é, um fato da vida adulta é que a maioria de nós não é muito boa em organização. Manter a casa limpa e organizada, a geladeira abastecida, as contas pagas em dia e os deadlines do trabalho. Prazos de trabalho eu posso afirmar com convicção que nunca perdi, também nunca paguei conta atrasada por esquecimento, só por falta de dinheiro mesmo. Mas casa limpa e organizada…é uma lenda.

Moro em um apartamento pequeno com meu marido e a questão do espaço é sempre um desafio. Nos últimos anos nós dois passamos a nos interessar bastante sobre um estilo de vida minimalista. Não, nós não temos 11 peças de roupas cada um, mas é perto disso. Aos poucos fomos desentulhando a casa, abrindo espaços para coisas mais importantes e percebemos que ter menos coisas significa ter menos trabalho para organizar e limpar.

Mas nem tudo são flores e ainda temos um longo caminho a percorrer. A gente ainda recolhe a roupa do varal e coloca lá dentro do armário para dobrar a hora que der, ainda tem muita coisa sobrando sem lugar certo, o que ajuda bastante a bagunça a começar.

Ano passado vi várias amigas falando da Marie Kondo e seu livro mágico de organização. Confesso que tive vontade de ler, mas como tantas outras coisas que não diziam respeito ao último ano da faculdade, passou. Até que dia 1 assim que liguei na Netflix o seriado Ordem na Casa, com Marie Kondo era a primeira sugestão. Ah não! Só podia ser um sinal. Sentamos os dois para assistir e entre lágrimas e risadas foi a temporada inteira naquele dia.

O seriado é levinho e uma delícia. Basicamente, Marie Kondo e sua intérprete e assistente vão a casas de famílias estadunidenses para ajudá-los com suas bagunças e consequentemente com suas vidas. E ela o faz ressaltando sua própria maneira de organizar e viver. Marie se apresenta e agradece a casa antes de começar e ensina a todos a importância de ser sinceramente grato pelo teto e pelas paredes e, inclusive, por cada peça ou item que virá a ser descartado. No começo pode parecer esquisito e muito distante da nossa cultura de consumo, mas deixe-se atingir pela importância de dar valor ao que temos e observe a mudança.

O primeiro episódio não surpreende muito, um jovem casal, aparentemente de classe média alta, com duas crianças pequenas. Eu não tenho filhos, mas posso imaginar a loucura que uma casa pode se tornar com brinquedos, roupinhas e os pequenos pra lá e prá cá em tempo integral. Já no segundo episódio uma família de quatro pessoas recém mudada de outro estado onde viviam em uma casa espaçosa tenta se acomodar em um apartamento de apenas dois quartos.

O show dá conta de ressaltar que não importa as adversidades que você e sua família enfrentem, se houver organização e vontade de mantê-la, será mais fácil encarar os tempos difíceis, pois você terá gasto menos energia com limpeza e arrumação do que com o que realmente importa.

Os episódios vão se seguindo entre famílias com crianças, casais jovens começando a vida a dois, casais que chegaram juntos à velhice e desejam um ambiente mais ameno para os dias de tranquilidade e também uma viúva, prepare-se nesse episódio para sentir seu coração pequenininho.

Ao longo dos episódios, Marie vai orientando as famílias nos passos do seu processo. Primeiro as roupas, depois os sapatos, itens de cozinha, itens sentimentais e se você leu o livro estará familiarizada com eles. As pilhas de roupas que se formam sobre as camas são inacreditáveis em alguns episódios nos fazem refletir se realmente precisamos de tanto para viver. É justo guardar um casaco que não te serve mais há anos, apenas porque ele te traz boas recordações, enquanto ele poderia servir ao seu propósito de aquecer alguém nos dias frios? Muitas vezes me peguei em pensamentos como esse durante os episódios.

É um pouco difícil não cair no erro de julgar os participantes do programa, como o casal japonês que vivia completamente imerso em roupas e enfeites de natal, ou o moço às vésperas de ter o primeiro filho que contava com mais de 160 pares de tênis, alguns nunca usados.

Cada episódio certamente vai te mostrar algo sobre suas próprias atitudes com as suas coisas ou tendência acumulativa, além é claro das dicas de como dobrar e guardar diferentes peças de roupas, utensílios de cozinha, maquiagem e tudo o mais que temos em nossas gavetas bagunçadas. O que Marie Kondo também quer que a gente aprenda é a dar valor. Dar valor não apenas às coisas, mas também ao exercício de mantê-las organizadas, de cuidar do que é nosso e de encontrar prazer dentro do seu próprio lar, com suas coisas e sua família.

A casa é responsabilidade de todos que nela habitam

Uma coisa que chama muita atenção em todos os episódios protagonizados por casais heterossexuais – porque sim, há um casal homo e um casal de lésbicas, que aliás são incríveis – é a forma como recai sobre a mulher a responsabilidade de manter tudo arrumado para sua família. Em alguns episódios os maridos afirmam que têm consciência que a responsabilidade não é só dela, ainda assim é no depoimento das suas parceiras que o peso do cansaço mental que recai sobre nós fica claro.

As mulheres tomam para si total responsabilidade sobre tudo o que diz respeito à casa e ao bem-estar da família. Encaram como sua obrigação saberem onde estão todas as coisas de todas as pessoas da família, providenciarem as refeições, a limpeza, a organização, manutenção e sobrevivência de cada ser vivo que habita na casa.

E olha, não é bem assim. Essa responsabilidade recai sobre nós há muito tempo e já chega desse machismo. Marie Kondo reforça em todos os episódios que é responsabilidade de todos a manutenção de um lar.  As tarefas precisam ser definidas e divididas igualmente. Todos os adultos devem ser responsabilizados pela educação das crianças e seu bem-estar, assim como pela limpeza, organização, supermercado, fazer comida. As crianças também devem ter responsabilidades, como manter seus brinquedos organizados e, a depender da idade, sua roupa dobrada e guardada nas gavetas e armários, também podem ajudar na limpeza e manutenção básica da organização.

Ordem na Casa não é apenas um seriado com a mais recente diva da organização, é também um tapa na cara da sociedade que continua jogando sobre os ombros das mulheres os afazeres domésticos como sua responsabilidade. É uma produção que destaca a importância de uma família, seja ela como for formada, ser um organismo vivo onde todos desempenham atividades que garantam o bem-estar coletivo, fazendo da responsabilidade com a casa, uma obrigação e um prazer de todos que nela habitam.

PS: Não existe um ser humano mais fofo e gentil que Marie Kondo!