Marcos expulso BBB

O Big Brother Brasil 2017 esteve no centro de discussões sobre machismo e violência contra a mulher nestes últimos dias, desde que o comportamento agressivo e perigoso de um de seus participantes ficou (ainda mais) evidente. Mas essa história não começa agora e, infelizmente, não termina agora também.

Antes de falar do BBB, entretanto, vamos falar do atual cenário brasileiro quando o assunto é a Violência Contra a Mulher tendo como base dados* fornecidos pela Secretaria de Políticas para as Mulheres e a pesquisa “Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher“, do DataSenado, 2015.

A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada, a cada 5 minutos uma mulher é agredida e a cada duas horas uma mulher é morta no Brasil. Homicídio de mulheres negras aumentou 54% em dez anos. 89% das vítimas de estupro no Brasil são do sexo feminino. Do total, 70% são crianças e adolescentes. Em metade das ocorrências envolvendo crianças, há um histórico de estupros anteriores. 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima.

91% dos homens dizem considerar que “bater em mulher é errado em qualquer situação”(FPA/SESC, 2010), mas dados comprovam que o parceiro (marido ou namorado) é o responsável por mais 80% dos casos de denúncia de agressão. Três em cada cinco mulheres jovens já sofreram violência em relacionamentos. Seis em cada dez brasileiros conhecem alguma mulher que foi vítima de violência doméstica. 94% conhecem a Lei Maria da Penha, mas apenas 13% sabem seu conteúdo.

A maioria das pessoas (60%) pensa que, ao ser denunciado, o agressor vai preso. 52% acham que juízes e policiais desqualificam o problema. O Brasil tem mais de 5.550 municípios e apenas: 497 delegacias especializadas de atendimento à mulher e 160 núcleos especializados dentro de distritos policiais comuns 235 centros de referência especializados (atenção social, psicológica e orientação jurídica) 72 casas abrigo 91 juizados/varas especializadas em violência doméstica 59 núcleos especializados da Defensoria Pública 9 núcleos especializados do Ministério Público.

De volta ao BBB…

Marcos, como narramos no texto Precisamos falar sobre Marcos do BBB 17 e a falta de posicionamento da Rede Globo, não deixou seu machismo evidente apenas nestes últimos dias, muito pelo contrário. Ao longo do programa, que já dura mais de dois meses, o participante tem dado diversos indícios de que sua formação machista não falha e que sua ideia de superioridade em relação às participantes mulheres, principalmente Emilly, com quem estava se relacionando afetivamente, não seria nem mascarada.

O cara reclamou da roupa dela e disse que fora do programa a levaria para comprar roupas mais adequadas; ele agiu durante todo o tempo como um ser superior que sabe mais e que estava ali para educá-la e ensiná-la sobre as coisas da vida; numa tentativa grotesca de elogiá-la ele apenas exaltou suas características físicas e fatores sexuais; por diversas vezes ele tentou mostrar para ela quais seriam e quais não seriam as posturas adequadas às mulheres; ele exigiu que ela fizesse coisas para ele como se isso fosse sua obrigação de mulher; ele disse a absurda frase “Você tem que estudar e escutar, só isso”; ele a tratou de modo paternalista e demonstrou que estava ali para protegê-la, como se ela precisasse disso. E embora o assunto só tenha ganhado destaque nos últimos dias, ele já é conhecido de quem vem acompanhando esta edição do programa.

Encurralada pela pressão social, Globo só agiu quando a situação chegou ao extremo

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Como é preciso que o machismo alcance sua faceta mais explícita para que as medidas necessárias sejam tomadas na Rede Globo (vide caso Jose Mayer comentado neste texto), mais uma vez o copo que já estava cheio, precisou entornar. O último final de semana na casa foi permeado por cenas que causaram mal estar de norte a sul do país. Agressões físicas, encurralamento, agressões verbais, constrangimento, dedos em riste encostados no rosto de Emilly e um descontrole emocional assustador por parte do participante Marcos fizeram com que este tenha sido um dos assuntos mais comentados nas redes sociais e, consequentemente, pelos veículos de comunicação.

Hoje (10) à noite, após a pressão social impulsionada via redes sociais e após análise e inquérito instaurado por uma delegada titular da Delegacia de Atendimento à Mulher, a emissora resolveu tirar o participante do jogo.

Mesmo depois de tudo que já vem acontecendo há mais de um mês, só ontem Emilly e Marcos foram chamados para conversar. Em vez de eliminá-lo nos primeiros sinais de agressão (que, aqui e importante ressaltar, não precisa ser física), quando decidiu lidar com a situação, a emissora optou inicialmente por deixar a cargo da vítima a decisão pela permanência ou não do agressor no programa de televisão. Mesmo depois de tudo, a Globo só eliminou o participante quando estava tão encurralada quanto Emilly na parede.

A Lei Maria da Penha, justamente para dar conta da peculiaridade dos casos que abarca – vítimas coagidas, psicologicamente fragilizadas e massacradas por pressões sociais alheias à sua própria existência ou vontade -, prevê que não seja preciso que a denúncia parta da vítima para que os casos sejam apurados, o que significa que desde o primeiro momento medidas como a de agora poderiam ter sido tomadas evitando que a situação se agravasse diante dos nossos olhos.

Agora, após toda a polêmica, o programa se posiciona por meio do apresentador, Tiago Leifert, falando que “analisou profundamente” o caso e tomou uma decisão? Tiago disse que “desde o primeiro momento, desde que tudo aconteceu a Globo agiu firmemente, incansavelmente (…) para tomar a decisão correta“. É para levar isso a sério? Emilly vem sendo agredida dia após dia e nada havia sido feito até agora!

O apresentador disse ainda durante o anúncio da expulsão do participante que o BBB reflete a vida como ela é e finalizou: “como na vida, as decisões fortes precisam ser tomadas quando os fatos justificam“. É preciso deixar claro que os fatos já estavam sendo justificados, só não foram justificáveis o suficiente para os responsáveis por este programa tomarem uma decisão sem precisarem de uma impulsão judicial.

A eliminação de Marcos e a Big Broderagem Brasil

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A broderagem masculina (a palavra “brother” significa irmão na língua inglesa e a expressão informal “broderagem” é o ato de fazer algo ou alguma coisa na parceria, na irmandade) não é assunto novo. Ela deixa claro que alguns homens por todo o país estão dispostos, sim, a defender seus amigos, colegas, conhecidos ou até mesmo desconhecidos de forma clara ou sorrateira, independente da situação. Saindo em defesa dos indefensáveis, esses homens defendem por tabela seus próprios privilégios legitimando suas posturas e disfarçando isso com a premissa da piedade para com o próximo.

Vamos partir aqui de uma premissa simples: agressor é agressor e deve ser tratado como tal. Certo? Certo, então podemos prosseguir. Listamos alguns absurdos frutos da broderagem com Marcos do canal e, por vezes, do apresentador do programa durante o programa em que a revelação foi feita.

Absurdo 1: sensibilidade mandou lembrança

Que falta de sensibilidade é essa em que o programa sequer se preocupou com a reação da vítima, prolongou seu sofrimento e sensação de incompreensão dos fatos e fez questão de deixar o anúncio para ser feito ao vivo durante o programa em vez de contar à mulher agredida imediatamente após a decisão ser tomada? A preocupação primordialmente deveria ter sido com Emilly, com sua saúde mental, com sua integridade física e não com a audiência do programa.

Absurdo 2: “injustiça”, a palavra que jamais deveria ter sido mencionada

Tiago Leifert enquanto contava às participantes remanescentes deixou escapar que as decisões tomadas no Big Brother precisam de muito cuidado e que elas são tomadas sob o risco de serem injustas. Injustas? Esta palavra sequer deveria ter sido mencionada em hipótese alguma. O perigo de misturar essa palavra aparentemente inocente com esse contexto é a abertura do precedente de que, de alguma forma, um caso de violência contra a mulher possa ter um resultado injusto para o agressor.

Absurdo 3: a produção está prestando auxílio ao Marcos (desculpe o linguajar, mas foda-se!)

O apresentador falou também que a produção está “prestando auxílio ao Marcos neste momento difícil“, informação um tanto quanto intragável já que ele estava conversando com a pessoa agredida que se encontrava naquele momento visivelmente abalada, preocupada com sua família e confusa com toda a situação.

Vamos deixar a cena mais clara: uma mulher violentada acaba de claramente saber que não estava passando por uma situação aceitável, inclusive tendo indícios judiciais que comprovam o fato. Diante de todo o transtorno que está vivendo, ela precisa mesmo saber naquele instante que o agressor está passando por um momento difícil? Faça-me o favor… Sensibilidade mandou lembrança!

Absurdo 4: o agressor perdeu a capacidade de se divertir (???)

A broderagem é deliberada quando Tiago fala que pessoalmente acha que o participante tinha “perdido a capacidade de se divertir ali dentro”. Este cara, agindo da forma como vem agindo, tem, SIM, a capacidade de se divertir, porque o machismo não discerne o certo do errado. A cegueira provocada pela formação machista é tamanha que a diversão é garantida, sempre foi. Tanto que no dia após às agressões o agressor se relacionou com a vítima sem o menor pudor e sem demonstrar um pingo de arrependimento.

Absurdo 5: só o tempo trará as respostas (???)

Emily, você está perguntando por que, mas essas respostas demoram. É o tempo que trás pra gente“. Eu não estou de brincadeira, essa frase foi dita por Tiago Leifert e você pode assistir neste vídeo. Como assim essas respostas demoram? Demora para quem? A resposta é clara, claríssima! Não estamos diante de um caso isolado, estamos diante deum padrão de comportamento, de mais um caso de agressão contra a mulher.

Absurdo 6: tratando o agressor como vítima

Tiago Leifert diz que “ninguém queria [que isso tivesse acontecido], nem ele [ o Marcos]“. Nem ele? Mas ele é o agressor. Ele é o agressor, o agressor, o a-gres-sor! O agressor não fez nada para impedir essa situação, ele não é vítima. Parem de tratar o agressor como vítima! Confira a cena no vídeo.

A broderagem masculina é perversa na medida em que busca neutralizar posturas absolutamente nocivas. É com a broderagem que os sintomas de um fenômeno social que pode ser observado a todo momento – o machismo – são reduzidos a apenas “um ou outro sujeito que não dá o devido valor à mulher”, “um ou outro sujeito que é agressivo com sua companheira” ou até mesmo ao “ele errou, mas não merece ser crucificado por isso”. Merece sim!

Os danos psicológicos de uma agressão, seja ela de qualquer natureza, crucificam acima de tudo a vítima. É ela quem tem que lidar todos os dias com o peso da situação vivida, com as memórias, com o medo. Só ela!

Se sob custódia de um programa de televisão exibido todos os dias na emissora de maior audiência do país é preciso que uma superinvestigação seja feita para revelar o óbvio – aquilo que qualquer leigo no assunto pode ter certeza assistindo a um vídeo de dois minutos -, imaginemos então o que acontece com as mulheres que sofrem violências físicas, psicológicas e toda a sorte de desgraças neste país todos os dias? Se o machismo de Marcos precisou chegar na agressão física dentro de um programa de televisão para que algo fosse efetivamente feito, fico pensando no que está reservado para nós, mulheres distantes das câmeras?

É desesperador!

*Os dados presentes no texto foram extraídos de uma postagem da página Ventre Feminista.