La Casa de Papel

La Casa de Papel estreou no catálogo brasileiro da Netflix sem muito alarde e sem ser considerada uma promessa de sucesso. Acontece que se tem uma coisa qua brasileiro gosta é de trama novelesca que bebe nas fontes de melodramas, afinal, aqui nós amamos novelas mexicanas, né, mores? Assim, a minissérie espanhola passou de apenas mais uma produção jogada às traças nos menus escondidos do serviço de streaming para a sensação do momento.

Não é difícil perceber os traços que distanciam La Casa de Papel dos padrões estadunidenses de produção audiovisual, basta apenas alguns minutos para constatar os seguintes deliciosos elementos: a língua falada é o espanhol, as escolhas narrativas muitas vezes remetem às novelas latinas, poucos atores são conhecidos e, por fim, ela não se passa em um grande centro sempre utilizado em narrativas seriadas (alguém aí já parou para contar quantas séries se passam em Nova York?).

Originalmente criada como uma minissérie, seus 15 episódios foram produzidos pelo canal espanhol  Antena 3 e exibidos entre maio e novembro de 2017, mas após a compra dos direitos mundiais de exibição pela Netflix o material ganhou nova roupagem: seus nove primeiros episódios viraram 13 e, em vez de serem liberados todos de uma vez, optou-se por criar uma segunda temporada com o restante da narrativa.

A série segue a história de um assalto meticulosamente programado à Casa da Moeda da Espanha. A ideia é adentrar o prédio com uma super estrutura para permanecer por lá por, pelo menos onze dias com dezenas de reféns e produzir 2,4 bilhões de euros neste ínterim. Tudo utilizando o mínimo de violência – é expressamente proibido matar – e o máximo de perspicácia possível. Quem planeja tudo é o Professor (Álvaro Morte), que passou parte da sua vida estudando cada passo para fazer a empreitada dar certo. Quem executa são os oito criminosos escolhidos a dedo por ele, cada um com habilidades específicas.

O planejamento e a execução de um assalto não é bem uma inovação narrativa, mas La Casa de Papel deixa sua marca por seu combo: série carregada de marcas cafonas em sua narrativa + bem humorada e tosca na medida certa + surpreendentemente gostosa de acompanhar. Ao mesmo tempo que traz elementos óbvios, como certos envolvimentos entre o ” bem” e o “mal” em determinados momentos, a série ganha substância  ao apostar em cliffhangers bem interessantes de assistir.

E entre uma reviravolta e outra, La Casa de Papel mostra a que veio: não tem pretensão alguma de ser levada a sério como uma trama verossimilhante e minuciosamente amarrada, mas prende a atenção e desperta a curiosidade a cada final de episódio. Isso sem falar no fato dela proporcionar coceirinhas no cérebro dos espectadores que, como eu, gritam na frente da TV: “tá me zoando que vocês vão vir com essa agora!“. Um paradoxo delicioso!

Fica evidente, ao longo dos episódios, que a única forma de um plano ser seguido à risca é fazendo ele permanecer no papel. A série, para além de ser a execução de um plano bem feito, é sobre como, ainda que tudo esteja programado, as relações humanas sempre ultrapassam qualquer caminho supostamente traçado.

As constantes viradas no roteiro proporcionam ao público um ritmo narrativo acelerado que faz com que a chance de as pessoas não quererem parar de assistir a série sejam grandes. Um elemento utilizado que auxilia na sustentação da rapidez narrativa são os flashbacks que quase instantaneamente conectam momentos do passado e do presente respondendo questões exatamente no tempo em que as perguntas surgem.

Criada por Álex Pina, é interessante ver como a série se preocupa em, ao longo dos episódios, apresentar seus personagens principais de forma equilibrada e deixando claro suas particulares importâncias para que o plano dê certo. Assim, fica mais fácil se conectar com quase todos eles e, consequentemente, torcer ainda mais para que o roubo se concretize com sucesso. Que se danem as convenções sociais!

Por fim, mas não menos importante, a trilha sonora ambienta majestosamente diversos momentos da trama. Com músicas em espanhol mescladas com baladas em inglês, o complemento musical foi vital para a construção de algumas cenas bem icônicas desta temporada. Se quiser ouvir uma playlist com todas as músicas, é só conferir aqui.

A representação feminina na trama

La Casa de Papel não é necessariamente uma série focada em mulheres, apesar de ser narrada por Tóquio (Úrsula Corberó), uma mulher envolvida em crimes, que perdeu o amor de sua vida em um assalto e que não tem medo de fazer o que precisa ser feito para alcançar seus objetivos. Mas ainda assim há personagens femininas importantes para a seu desenvolvimento.

As personagens, de maneira geral, são complexas e foram mostradas por diferentes ângulos ao longo da temporada. Em comum, todas elas têm o fato de que precisam se manter fortes para passar pela situação que está posta, cada uma à sua maneira.

Ciente de sua capacidade, Tóquio sabe bem porque foi chamada para integrar o time que pretende fazer o maior assalto da história e embora ela seja irritante e óbvia em diversos momentos da série, eu gostei muito do fato dela ser a voz que conta essa história sobre tantas pessoas (e tantos homens), mas realmente esperava mais da personagem que foi vendida na publicidade da série como uma espécie de protagonista da história.

O time de criminosos conta também com a Nairobi (Alba Flores), destemida e inicialmente superestimada. Nairobi arrasa na falsificação e lidera toda a produção de dinheiro enquanto o bando está dentro da Casa Nacional. É particularmente interessante ver como a personagem parece durona, mas se conecta genuinamente com os reféns em diferentes situações e como ela parece ser a única do grupo realmente obstinada a levar todas as instruções do professor a sério dentro da Casa da Moeda.

Raquel (Itziar Ituño), do outro lado da trama, é a inspetora designada pela polícia para resolver o caso. Desde o começo, a policial sofre as consequências de ser uma mulher naquele ambiente majoritariamente masculino e, embora tenha sido convidada para o caso por sua competência, precisa se esforçar muito mais do que os seus colegas para ser ouvida, ao mesmo tempo que precisa lidar com a exposição de aspectos particulares da sua vida e com sua relação com a filha.

Para terminar, Alison Parker (María Pedraza), é a galinha dos ovos de ouro da gangue, e ela sabe disso. Não bastasse apenas a menina lidar com o fato de ser refém num longo assalto, ela ainda precisa aprender a lidar com o fato de ter se relacionamento com um boy-lixo que divulgou uma foto íntima dela, com o bullying dos seus colegas de classe e com a pressão de ser moeda de troca para a negociação.