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Precisamos falar sobre Kevin Spacey e sua perigosa estratégica saída do armário

Precisamos falar sobre Kevin Spacey e sua perigosa estratégica saída do armário

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Kevin Spacey

Todo mundo tem direito a sair (ou não) do armário quando bem entende, ou seja: quando se sente seguro para falar desse assunto que por mais natural que seja ainda é tratado como tabu por muita gente (e por muitas instituições). Quando se trata de um ator ou uma atriz então, o assunto ganha uma peculiaridade por haver toda a problemática de que:

  1. Ao sair do armário vai ficar difícil de conseguir novos papeis
  2. Após sair do armário nenhuma empresa mais vai querer vincular a imagem à pessoa
  3. Os papeis para atrizes e atores LGBT são mais restritos

Sendo estes apontamentos mitos ou não, a verdade é que assumir-se homossexual é, antes de qualquer coisa, algo impreterivelmente individual, muitas vezes doloroso. Porém, ontem (30), aconteceu um fato curioso: Kevin Spacey (Frank Underwood, de House of Cards) assumiu-se gay – após muitos anos de especulação – apenas um dia depois de Anthony Rapp (Star Treck: Discovery) ter revelado ao Buzzfeed que Spacey o assediou sexualmente quando tinha apenas 14 anos.

Essa acusação vem em no contexto da enxurrada de casos de estupro, abuso sexual e assédio que vem sendo denunciados recentemente no escândalo Harvey WeinsteinMais de 80 mulheres, entre elas as atrizes Gwyneth Paltrow, Angelina Jolie e Daryl Hannah, acusaram Weinstein de assédio.

Hoje com 46 anos, Anthony Rapp contou que os dois se conheceram em 1986, quando atuaram juntos em peças da Broadway e que nessa época era convidado para algumas festas em boates e apartamentos. Em uma festa no apartamento de Spacey – ele era o único adolescente convidado e após perceber que todos havia deixado o apartamento e que ele era o último convidado, porém, Rapp tentou ir embora, mas foi impedido pelo anfitrião. Ele disse estar  sentado na beira de uma cama quando o ator vencedor do Oscar o colocou no colo e se deitou em cima dele.

Rapp não havia contado sobre a experiência para ninguém, e nunca mais falou com Kevin Spacey. Mas conforme Spacey começou a ficar mais famoso, nos anos 1990 e 2000 — incluindo dois Oscars e nomeações ao Emmy com o sucesso em “House of Cards” —, Rapp ficou cada vez mais frustrado e com raiva. “Meu estômago fica embrulhado e até hoje eu não consigo me conciliar com muitos aspectos do que aconteceu. É muito confuso pra mim”, conta.

Após a revelação, representantes de Spacey, hoje com 58 anos, ignoraram pedidos de entrevista e o ator se comunicou sobre o assunto em seu twitter dizendo que não se lembra do episódio, mas, caso tenha se comportado da forma descrita pelo ator, pedia sinceras desculpas pelo “comportamento inapropriado”. E não parou por aí: o ator ~aproveitou o ensejo para se assumir publicamente homossexual~.

“Essa história me encorajou a lidar com outras questões da minha vida. Eu sei que há histórias sobre mim por aí, algumas alimentadas pelo fato de eu ser tão cuidadoso com minha privacidade. As pessoas mais próximas a mim sabem que, na minha vida, tive relacionamentos com homens e mulheres”

O problema é que o ator não poderia ter escolhido momento mais perigoso e oportuno (apenas para si mesmo). Perigoso, porque em meio às diversas manifestações de ódio aos homossexuais e às tentativas de associar a homossexualidade com a pedofilia – algo que não faz o menor sentido, diga-se de passagem – a atitude do ator nada mais faz do que reforçar esse absurdo. Oportuno porque ele é questionado sobre isso há anos e nunca resolveu se posicionar livremente, apenas agora que o cerco apertou. É claro que o ator tem o direito de assumir ou não publicamente sua orientação sexual, mas teria sido muito melhor se ele não tivesse utilizado o fato para tentar desviar a atenção da mídia para uma questão muito mais importante: a acusação.

E ele não poderia ter feito da pior forma: ao pedir desculpas para o que chamou de um profundo e inapropriado “comportamento de bêbado” ele tenta concentrar a culpa num possível estado alcoolizado, indicando que essa seria uma suposta justificativa. Acontece que não há justificativa para o que não é justificável, nem mesmo o excesso de ingestão de álcool (só lembrando que mesmo quando se bebe muito, ainda assim a gente responde legalmente pelos nossos atos, viu?)

A atitude do ator também não foi vista com bons olhos pelos seus colegas de trabalho: “É profundamente triste e perturbador que esta é a forma como Kevin Spacey escolheu ‘sair do armário“, publicou o ator Zachary Quinto (Spock nos novos filmes Star Trek) em sua conta no Twitter.  E completou: “Não ao se erguer como um motivo de orgulho – à luz de todos os seus muitos prêmios e realizações – e assim inspirando dezenas de milhares de crianças LGBTQ com dificuldades ao redor do mundo. Mas como uma manipulação calculada para desviar a atenção da acusação muito séria de que ele tentou molestar uma.”

 

 

 

 

George Takei, também ator de Star Treck, também se posicionou em nota divulgada pela revista People, o ator da série original afirmou que o assédio tem a ver com poder, não com a orientação sexual. “Homens que assediam ou atacam não o fazem porque são gays ou héteros – isso é um desvio de assunto. Eles o fazem porque têm poder, e eles escolhem abusar dele.”

O comediante Billy Eichner disse em seu twitter: “Kevin Spacey acabou de inventar algo que nunca existiu antes: um momento ruim para ‘sair do armário” e completou: “honestamente eu hesito em fazer piadas porque a declaração de Spacey é realmente nojenta, irresponsável e perigosa“. A presidente da Aliança de Gays e Lésbicas Contra a Difamação (Glaad), Sarah Kate Ellis, também usou sua rede social para criticar a atitude da Spacey. “Essa não é uma história de revelação de Spacey, mas uma história de sobrevivência de Anthony Rapp e aqueles que denunciam avanços sexuais indesejados.

 É profundamente vergonhoso ver um ator como Spacey se aproveitar de uma situação tão delicada para tantas pessoas ao redor do mundo dessa forma desrespeitosa apenas para não sair tão mal na história. Reforçar estereótipos além de não contribuir em nada para a ampliação dos direitos e da visibilidade LGBT, ainda prejudica quem luta todos os dias para ser respeitado pelo simples fato de ser quem é.

Carolina Maria Jornalista, feminista-esquerdista-bolivariana, cegamente apaixonada por alguns personagens de seriados e sonhadora convicta. Aprendeu com as séries a importância da representatividade e nunca mais quis parar de falar sobre isso.

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