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[Elas por trás das telas] Joi McMillon e a construção de um marco

[Elas por trás das telas] Joi McMillon e a construção de um marco

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“No dia 25 de julho comemora-se o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. Durante todo o mês, núcleos e coletivos articulam entre si, campanhas de cultura, identidade e empoderamento dessas mulheres.”

Joi McMillon. Você por um acaso já ouviu esse nome em algum lugar? Talvez tenha, caso você seja bastante ligada ou ligado em cinema contemporâneo e em premiações. Para quem nunca ouviu falar nesse nome, eu lhes apresento Joi McMillon, a primeira mulher negra a ser indicada a um Oscar de Melhor Montagem na história da academia! McMillon assinou, ao lado de Nat Sanders, a montagem de Moonlight, filme de Barry Jenkins, vencedor da estatueta de melhor filme em 2017. Tudo isso um ano após as ferrenhas críticas ao #OscarSoWhite, após ausência de diversidade nas indicações às estatuetas no anos de 2016. E, pelo mesmo trabalho, a dupla McMillon e Sanders, venceu o prêmio de melhor montagem no Film Independent Spirit Awards (Indie Spirits) de 2017, umas das grandiosas premiações do cinema independente.

Porém, a trajetória de McMillon não começa direto nas salas de edição. Em entrevistas concedidas ao Lenny Letter, ao LA Times e ao IndieWire, Joi conta que de início tinha planos de se tornar uma jornalista e escrever para uma grande revista. Trabalhar com filmes era uma segunda opção. Porém, uma viagem de escola a levou ao Universal Studios e lá ela conheceu um editor do canal Animal Planet que mostrou aos alunos a “mágica” da montagem. Ela conta que se encantou profundamente com a “manipulação da história através dos cortes” e voltou para casa decidida a se tornar uma montadora. Em 2004, McMillon começou a carreira trabalhando na equipe de edição do reality show The Surreal Life e já passou por tudo nessa vida. Mais reality shows (Beauty and the Geek), programas de humor (The Sarah Silverman Program), filmes independentes (For Colored Girls), animações (Sausage Party) e séries de tv (TogethernessGirls). Ou seja, ela tem muita, mas muita bagagem.

Sobre o ofício, ela declarou “a real definição de um(a) montador(a) é um(a) contador(a) de histórias. O que nós inicialmente fazemos é ajudar o(a) diretor(a) a moldar a história numa substância tangível que faça os espectadores curtirem a experiência. Eles [os diretores] têm horas e mais horas de filmagem. Às vezes, têm um roteiro incrível e as filmagens nunca são como imaginado, então vem o diretor desapontado e diz ‘isso é a pior coisa que fiz na vida, torne isso melhor.’ Ou você depara com um diretor que diz ‘meu Deus, temos mágica nas lentes e você não terá que fazer muita coisa.’ Muitas vezes são os infelizes com as filmagens que de fato têm um filme incrível em suas mãos e aqueles que achavam que a filmagem tinha sido incrível, acabam sendo do tipo ‘você tem imagens incríveis, mas você não tem uma história.” E ela continuou: “Às vezes você tem que reestruturar: às vezes você tem que construir a performance de um ator. Muitas vezes como um(a) montador(a), as pessoas ficam ‘você não pode revelar isso’. É por isso que eles chamam de ‘arte invisível, artista invisível’, porque você não deve mesmo mostrar.”

Em suas declarações, McMillon também demonstra profunda clareza sobre seu papel como mulher e afro-americana atuante na indústria do entretenimento. Ela foi a primeira mulher negra a ser indicada na categoria de melhor montagem em uma das maiores premiações do cinema e possui a completa noção do que isso significa. McMillon aponta como dificuldades do processo de se tornar montadora, a falta de oportunidades e um alto custo de investimento na profissão. A montadora tem noção das dificuldades que existem, sobretudo, para negros e outros grupos. “Tudo o que precisamos é oportunidade. Creio que essa é a questão.”

É nesse ponto que McMillon destaca a importância de um filme como Moonlight. “Eu acho que tudo chega à perspectiva através da qual Barry [Jenkins] escolheu apresentar esse filme. É engraçado porque as pessoas dizem ‘Esse filme não tem nada a ver comigo, mas mesmo assim me conectei com ele’. Esse filme mostra esse personagem em três fases da vida, e todos nós já estivemos no ensino infantil e tentamos nos encaixar.  Todos nós provavelmente perturbamos alguém ou fomos perturbados no ensino fundamental. Essas experiências que estamos apresentando, todos nós nos apaixonamos e fomos rejeitados ou ansiamos por reativar aquele amor único e verdadeiro que você não via há dez ou quinze anos.” Ela completa “esse momentos que vivemos na vida, nos unem. Sim, o elenco é todo negro, e sim, se passa em Liberty City, Miami, mas Moonlight é um filme americano. E foi definitivamente apresentado de um jeito em que eu estou te contando essa história, mas não estou tentando te alienar. Eu tentando te incluir.”

Para quem quer se lançar na profissão, em especial para as minorias, ela aconselha a “não hesitar em fazer contatos. Montadores não recebem toneladas de emails de fãs. Mas adoramos ajudar outras pessoas. Não posso dizer todos, mas aqueles com os quais entrei em contato, me responderam e me convidaram para visitar suas salas de edição.”

O feito de McMillon, para além de uma grande conquista étnica, é também uma grande conquista de gênero. Por décadas e mais décadas, a função da montagem era delegada a mulheres por serem “mais organizadas” e analogias à habilidade do corte e costura eram feitas. Montar não é um automatismo. É também uma expressão artística. E para a gente mergulhar ainda mais nesse universo da montagem, segue essa lista bacana com 45 filmes editados por mulheres que você precisa ver organizada pelo portal Mulheres no Cinema.

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Melina Galante Produtora e realizadora audiovisual em processo acadêmico. Viciada em redes sociais e numa boa polêmica. Assiste a séries desde antes de se dar conta de que era gente, mas só há alguns anos percebeu que sua extensa grade é dominada por protagonismo feminino.

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