Você também estava com saudades de boas comédias românticas? Eu estava! Sou de uma época em que era uma por semana nos cinemas. Outros tempos. Se você é do meu clube, já te indico A Incrível Jessica James, uma produção adquirida pela Netflix após o festival de Sundance.

Nele, a maravilhosa Jessica Williams vive alguém bem gente como a gente. E eu adoro produções assim! Jessica James tem 25 anos, está confusa, frustrada com a carreira de roteirista – que ela imaginava que a essa altura já estaria deslanchando –, tem problemas familiares e está de coração partido. Parece familiar?

Assim como você, ela tem diálogos imaginários com o ex, em que ela sai por cima, coloca-o no seu devido lugar e massageia o ego. Assim como você, ela também foi a um encontro às escuras, arrumado por uma amiga que jurava que ele tinha tuuudo a ver com você. É aí que entra Chris O’Dowd com seu personagem Boone. Um recém-separado que não esquece a ex e anda obcecado por ela. Apesar de um primeiro encontro estranho, eles optam pela sinceridade. Isso acaba por unir dois completos estranhos, que unem forças na tentativa de esquecerem seus ex-parceiros.

Não precisa nem dizer que teve muita confusão, né? Ao contrário das coisas esdrúxulas que víamos nas comédias românticas dos anos 2000, nessa tudo era passível de ser real. Sexo que, pensando bem, não devia ter acontecido. Aplicativos que não funcionam. As bizarrices da vida de Instagram. Jessica e Boone se completam de um jeito estranho. E nem de longe romântico como costumamos ver os casais de filme, até porque, esse é um anti-casal.

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Se a vida amorosa de Jessica vai de mal a pior, a familiar não fica por menos. Como boa parte das pessoas da nossa faixa etária, ela tem divergências de opiniões com sua família. Como por exemplo, sobre o posicionamento da mulher, do que é ser uma família e ser bem sucedido na vida. O filme aborda de forma bem madura e contundente a importância do feminismo e do empoderamento. Inclusive, de acordo com Jessica, nunca é cedo para começar! A protagonista questiona a sociedade à qual estamos subjugadas e às regras que nos prendem.

Enquanto não vira uma grande dramaturga, a protagonista dá aula de teatro para crianças, ensinando-as a escrever seus próprios roteiros. Apesar de se sentir mal por não conseguir o sucesso que almejava quando era criança, Jessica reconhece a importância do que faz. Ela abre novos horizontes para aquelas crianças e consegue tirar delas sentimentos que elas nem sabiam que tinham dentro de si. E nessa história, ela vai criando uma relação bonita e conflitante com Sandra (Taliyah Whitaker), uma de suas alunas.

Se eu ainda não te convenci a assistir, será que se eu falar que o filme trabalha a representatividade negra no cinema (e na vida, no teatro…) você dá o braço a torcer? Jessica é negra, assim como sua família e seu ex-namorado. Vemos negros ocupando espaços que não são usuais no cinema: dramaturgos, artista, professor, dona de casa. E em nenhuma narrativa existia a necessidade de ser uma pessoa negra. Eles são negros porque negros existem e podem ocupar qualquer espaço. Para constar, Boone é branco. E aí, além de trabalharem representatividade, eles também abocanham a questão da relação inter-racial, tão debatida entre os negros. Dê um google em termos como “palmiteiro” e “a solidão da mulher negra”.

A Incrível Jessica James é uma dessas produções leves, cheias de risadas, de reconhecimento e que, em um momento e outro, te coloca a pensar um pouquinho mais sobre algumas questões que permeiam o nosso dia a dia.

Jessica James