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Jamie Clayton: um exemplo de luta por visibilidade, coragem e força

Jamie Clayton: um exemplo de luta por visibilidade, coragem e força

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Dia 29 de janeiro é comemorado o Dia Nacional da Visibilidade Trans e, para celebrar a importantíssima data, o Séries Por Elas preparou alguns textos abordando a temática sob diferentes óticas. 

Jamie Clayton é uma mulher incrivelmente inspiradora. Aliás, só o fato de ela ser exatamente quem é e fazer exatamente o que faz já é revolucionário. Jamie, entre tantas outras coisas, é uma atriz transgênero que tem tentado encontrar seu espaço em uma indústria que ainda é muito relutante em dar oportunidades para artistas trans: a audiovisual.

Aos 39 anos, a atriz alcançou sucesso mundial por sua atuação como a hacker Nomi Marks, em Sense8, da Netflix. Mas essa não foi sua primeira aparição na TV. Em 2010, quando ainda estava focada na carreira de maquiadora, Jamie integrou a equipe da série TRANSform Me. O show era produzido e apresentado pela atriz Laverne Cox e exibida pela VH1, em 2010. O programa teve apenas oito episódios, nos quais diversas mulheres, escolhidas pela produção do show, passavam por uma super transformação. E quem fazia todo o processo? Isso mesmo, três mulheres trans: Laverne, Jamie e a atriz e maquiadora Nina Poon.

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Laverne Cox, Jamie Clayton e Nina Poon no programa TRANSform Me

Mas foi em 2011 que ela conseguiu seu primeiro importante papel em uma série de TV. Jamie foi escalada para interpretar a personagem Kyla, uma recepcionista transgênero, na terceira e última temporada da série Hung, da HBO. A série era protagonizada por Thomas Jane. Infelizmente, o que serviu como quebra de um ciclo de invisibilidade na indústria do entretenimento e na carreira de Jamie, também foi capaz de evidenciar a transfobia do próprio elenco e produção da série. Na época, a co-criadora da série Colette Burson fez a seguinte afirmação ao site TV Guide: “A ideia de beijar outro homem não era confortável para ele [Thomas], mas ele foi ótimo. Eles tiveram que se beijar por horas. Após sua timidez inicial, ela se tornou uma mulher para ele“.

Infelizmente, essa visão intolerante e discriminatória não é exceção. Inclusive, a fala de Burson foi dada em diversos sites de forma natural, como se a atitude do ator não tivesse nenhum cunho transfóbico. Jamie é uma mulher e não um homem. Então Thomas estava desconfortável, na verdade, em contracenar com uma mulher trans. É preciso coragem e muita força para não desistir de um caminho com espinhos tão afiados como esses.

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Jamie Clayton no elenco da série Dirty Work

Em 2012, Jamie interpretou a personagem Michelle Darnell na premiada série Dirty Work. Uma comédia que mostrava a rotina de três profissionais responsáveis por limpar cenas de crime. Mas a série não teve continuidade. Depois disso, Clayton fez participações em diversos seriados como Are We Met There Yet?, em 2012; Hustling, em 2013; e Motive, em 2016.

No meio dessa caminhada, Jamie encontrou um alento: Sense8. Na série, ela é Nomi, uma ativista transgênero, hacker e lésbica. Mantém um relacionamento com Amanita, personagem de Freema Agyeman. Na primeira temporada, a personagem contou um pouco sobre seu processo de transição – o que foi muito inspirador e emocionante. Mas o mais interessante é que esse não é o foco de Nomi, ou melhor, não é o único foco. Sua personagem é construída de forma tão profunda que ser trans é apenas um – e não menos importante – traço de sua história e personalidade. Nomi é divertida, amiga, amorosa, sensível, super inteligente, dedicada, corajosa e extremamente compreensível.

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Freema Agyeman e Jamie contracenando em Sense8

Além disso, Nomi Marks é uma personagem trans escrita por alguém que é trans, dirigida por alguém trans e interpretada por uma atriz trans!

Sense8 é dirigida, escrita e produzida por ‎Lilly e Lana Wachowski (Matrix, V de Vingança), que são mulheres transgêneros; e por J. Michael Straczynski. Essa é provavelmente a primeira vez que isso é feito em uma escala tão abrangente. Afinal, estamos falando de uma série da Netflix, um serviço de alcance mundial. E isso é visibilidade! É sobre quebrar o ciclo de invisibilidade das atrizes trans. Sobre esse processo, em entrevista ao GLAAD, Jamie afirmou que essa é uma de suas experiências mais originais. “É tão autêntico e humano. Nomi é uma sobrevivente e uma heroína. Assim como Lana“, disse.

Jamie, da mesma forma que Laverne Cox (Orange is The New Black), Hari Nef (Transparent) e muitas outras, está tentando galgar seu espaço como atriz transgênero. E tudo isso nessa indústria cheia de problemas que é a do audiovisual e do entretenimento. Ela tem conseguido quebrar paradigmas e esteriótipos com seu talento e dedicação. Jamie é uma mulher que, além de incrivelmente habilidosa e profissional, inspira força, coragem e amor a qualquer um que decidir acompanhar seu trabalho.

Isabella Mariano Jornalista, poeta, feminista e completamente impulsiva. Gosta de beber cerveja, ouvir música, tatuagens e de cachorros. Atualmente, tenta lidar com o vício em Game of Thrones, Sense8 e Gotham da melhor forma possível. Mas é aquele ditado, vamos fazer o quê?

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