Esqueça os filmes!

A série Sex and the City é emblemática para mulheres da minha geração. Sua estreia foi em 1998, eu tinha apenas 16 anos e só fui realmente conhecer a série depois do ano 2000. E que bom, que bom que entre os meus referenciais midiáticos estavam mulheres que transavam no primeiro encontro sem culpa, pagavam suas próprias contas, acreditavam no amor e apoiavam-se umas às outras.

Adaptada do romance de Candice Bushnell pelo seu  criador Darren Star e composta por 94 episódios, organizados em seis temporadas que, de  forma  bem­ humorada abordavam as diversas alegrias e percalços de quatro mulheres de personalidades distintas.

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Não, Sex and the City não é uma ode ao feminismo como a geração de meninas que hoje está na casa dos 20 anos precisa e merece. Mas era exatamente o que a geração de meninas como eu precisava no início dos anos 2000. Pois, se ainda hoje uma mulher jantando sozinha em um restaurante provoca olhares, que dirá 18 anos atrás.

Juntas, Carrie Bradshaw (Sarah Jessica Parker), Samantha  Jones (Kim Cattral), Miranda Hobbes (Cynthia  Nixon) e Charlotte York (Kristin Davis) levaram para as telas a contradição da mulher da segunda metade do século XX. Dona de seu próprio nariz, pagando suas contas, vivendo na maior cidade do mundo, ao mesmo tempo em que procura e idealiza o amor.

Carrie Bradshaw, interpretada pela atriz Sarah Jessica Parker

Carrie Bradshaw, interpretada pela atriz Sarah Jessica Parker

Carrie é uma escritora com uma coluna semanal sobre a vida cotidiana das mulheres em Nova York, mora de aluguel em um apartamento miudinho (e lindo) e vive uma série de romances intensos, fugazes, passageiros, duradouros, infelizes, alegres, de todos os jeitos. O maior questionamento de Carrie é tentar conciliar sua liberdade de mulher solteira e independente com um cara de quem ela goste, que goste dela e que esteja disposto a encarar a vida com ela. Nessa bagunça, surge Big, não sem muito drama, idas e vindas, mentiras, perdas e ganhos.

Samantha Jones, interpretada pela atriz Kim Cattral

Samantha Jones, interpretada pela atriz Kim Cattral

Samantha é uma profissional de relações públicas, a mais bem-sucedida financeira e sexualmente das quatro. Rica, poderosa no seu meio e livre. Samantha não passa vontade, transa com quem bem entende, não deve e não dá explicações da sua vida pra ninguém. Enfrenta corajosamente um câncer de mama, o namoro com um homem bem mais novo e a descoberta de sua bissexualidade, com ninguém menos do que Sonia Braga. É com Samantha que aprendemos tudo sobre sexo e com ela também que damos as melhores risadas.

Miranda Hobbes, interpretada pela atriz Cynthia Nixon

Miranda Hobbes, interpretada pela atriz Cynthia Nixon

Miranda Hobbes (minha preferida) é a típica workaholic (viciada em trabalho) nova-iorquina. Advogada, vestida sempre de maneira mais sóbria do que as amigas é a primeira das quatro que se casa e tem um filho. Na verdade, tem um filho e depois se casa. Miranda tem sempre uma ponderação inteligente, centrada e pé no chão a respeito dos problemas das amigas, é pouco dada a devaneios ou delírios românticos. Tem uma gigantesca necessidade de se provar o tempo todo, principalmente porque circula em um mundo dominado por homens. E com marido, filho, morando no Brooklin, ajudando a cuidar da sogra doente e trabalhando muitas horas por dia, ela não dá conta e seu mundo desaba.

Charlotte York, interpretada pela atriz Kristin Davis

Charlotte York, interpretada pela atriz Kristin Davis

Charlotte é a contradição. Um pé no século XX, trabalhando em uma galeria de arte, morando em seu próprio apartamento, mas com a cabeça no século passado. O maior sonho da sua vida é um marido (rico, bonito, alto, de família tradicional norte-americana e bem sucedido, tá?) e filhos. É uma romântica com tudo o de mais clichê que você possa imaginar. E ela consegue, mas ninguém pode ter tudo, ela passa uns perrengues bizarros no primeiro casamento e se divorcia. E é justamente por conta do divórcio que ela conhece aquele que vai se tornar o melhor marido que ela poderia ter. Longe dos padrões estéticos que idealizou, ela finalmente descobre como é um relacionamento saudável.

Sim, todas elas são brancas, magras, de classe média alta e reforçam o estereótipo de padrão de beleza existente na sociedade. Então, porque vale a pena assistir Sex and the City? Simples, é um seriado sobre mulheres, com mulheres e para mulheres. Faça o recorte temporal daquele discurso e daqueles diálogos e vá em frente.

Em Sex and the City, são as mulheres que narram e protagonizam suas próprias histórias. Assim, em todas as seis temporadas a proposta de apresentar uma visão feminina das experiências sexuais, amorosas e profissionais no mundo contemporâneo de uma cidade como Nova York, não se perde.

Todo episódio, que não tem mais que 20 minutos, busca responder a uma pergunta, geralmente formulada por Carrie. Como narradora da série é ela quem orienta a narrativa por meio das experiências de suas amigas – ou dela própria – testando suas convicções e as do senso comum, a fim de responder questionamentos da vida moderna.

Cada uma dessas quatro mulheres está enfrentando a vida com seus próprios valores e expectativas. Cada uma delas acredita em coisas diferentes. Pessoal e profissionalmente são distintas umas das outras, mas são amigas. É na reunião de todas elas que os problemas são solucionados, é no encontro e no diálogo que as questões levantadas por Carrie no início de cada episódio ganham contexto e solução. E, em uma sociedade em que somos ensinadas desde sempre a nos vermos como inimigas, é certamente um marco aquelas quatro mulheres conscientes de seu lugar no mundo, confidentes e empoderando umas às outras, quando ainda nem falávamos nisso.

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