Comédia pra mim é assunto delicado. Os HAHAHA (leia-se sitcoms como How I Met Your Mother e Friends) não me descem e geralmente fico solitária em minha negação veemente de que esses são programas ruins. Ok, são ruins pra mim, gosto é gosto e etc.

No entanto, não canso de dar chance à novas produções, mesmo as de comédia que em geral já vou crente de que só vou perder tempo de vida. Confesso que nos últimos tempos algumas produções me surpreenderam, foi o caso de Brooklyn Nine-Nine, One Day at a Time, American Housewife, por exemplo. Além de alguns standups disponibilizados pela Netflix, como os do Aziz Ansari, Amy Schumer e Hasan Minhaj.

O que todos esses programas têm em comum? A capacidade de, ao invés de rirem DE alguém, rirem COM alguém. E para quem sempre figurou entre as categorias mais usadas para piadas, os gordos, observar que minorias e diferenças não estão sendo transformados em aleijão, já um alívio e tanto.

Assim, por essas e outras minha grade de séries costuma ter muito mais dramas do que qualquer outro gênero. Isso não é um problema, mas às vezes, depois de uma semana castigante a única coisa que eu gostaria é poder sentar diante do aparelho de tv e desligar meu cérebro por alguns minutos. Sem ser ofendida, é claro. Foi exatamente em um dia desse tipo que descobri I’m Sorry.

A moça sorridente que estampa o pôster de anúncio, me pareceu bonita demais para uma comédia, preconceito eu sei. Ainda assim, dei chance para a sinopse que prometia: I’m Sorry é uma comédia que acompanha a vida de Andrea, uma roteirista, esposa e mãe imatura que se entrega às suas neuroses, o que invariavelmente a coloca em situações complicadas.

Ok, estivemos perto disso tanto com Better Things, quanto com American Housewife. E gostaria de reforçar aqui que discordo do “imatura” para definir Andrea ou as outras protagonistas. Mas dei uma chance e apertei o play.

Sim, I’m Sorry vale os 20 e poucos minutos de tempo que dedicamos diante da tv. Andy é uma mulher espirituosa, engraçada sem ser pedante, mãe, esposa e filha. Tão próxima de qualquer uma de nós. Tentando educar a pequena Amelia o melhor que pode. Desfrutando da relação de cumplicidade e parceria que tem em seu casamento com Mike (Tom Everett Scott). Sendo o mais sincera e libertária possível em suas relações de amizade, principalmente com seu melhor amigo e também roteirista cômico. A camaradagem entre Andrea, as pessoas da sua rotina e a audiência é instantânea.

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É uma comédia sobre a vida de uma mulher que faz comédia e vive disso. Logo, todo acontecimento da vida de Andy serve como motor para o humor. Mas sem que isso pareça forçado. Sabe aquela sua amiga que consegue ser engraçada e fazer piada de absolutamente tudo? Assim é Andrea. Ela está vivendo sua vida tentando ser o mais leve possível, encarando os desafios da maternidade, do casamento e do trabalho com bom humor. E tudo isso sem ser pedante como aqueles personagens do “perco o amigo, mas não perco a piada”.

O relacionamento de Andy e Mike também é um alívio das relações conflituosas e machistas que costumamos assistir nas comédias. Sim, Big Bang Theory, estou falando de você. Andrea e o marido estão a postos para salvarem um ao outro em todas as situações vexatórias em que Andy os coloca. Mike é o retrato da paciência e parceria, apoiando a companheira mesmo quando as decisões dela claramente são um devaneio. A impressão é que tanto ele quanto ela estão testando as possibilidades. As chances de errar são mútuas e compartilhadas, e um casal assim na ficção é sempre um conforto.

O casamento dos dois não é uma muleta para o show. Ainda que o casal esteja bastante em cena nos três primeiros episódios, o centro dos acontecimentos não é o casal. Há toda uma dinâmica de outros personagens inseridos na narrativa. Amigos, colegas de trabalho, as outras mães da escola de Amelia, a professora, o melhor amigo de Andy. Assim como as nossas vidas que não se resumem ao que fazemos dentro de casa diariamente, a deles também não.

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I’m Sorry é uma comédia que não está disposta a usar minorias como gancho. Pelo contrário, aqui a própria Andrea e seu filtro duvidoso para opiniões se enrascam sozinhos nas piores situações. E, ainda que elas sejam muitas e constantes, nenhuma deixa de ser crível. Como no segundo episódio quando Amelia se revela racista e Andrea e Mike passam o episódio tentando demovê-la da ideia de que há uma raça superior. O desfecho do episódio é sensacional e, para quem convive com crianças, absolutamente possível.

A série é mais uma prova de que as mulheres estão na cena da comédia. Estão escrevendo, produzindo, estrelando. Mais do que se aproveitarem do gênero, estão construindo com ele narrativas empoderadoras. Estão colocando na tela a comicidade do dia a dia sem que para isso precisem zombar, humilhar ou diminuir qualquer grupo de pessoas.

I’m Sorry é uma produção do TruTv, produzida por Will Ferrell, Adam McKay, Andy Samberg, Jorma Taccone, Akiva Schaffer que estreou dia 12 de julho e ainda não está em nenhum canal no Brasil.

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