Este texto contém spoilers.

Hatfields & McCoys é uma minissérie televisiva, disponível na Netflix e produzida pelo History Channel no ano de 2012, que conta a história do embate entre as duas famílias americanas, cujos sobrenomes dão título à minissérie, durante o final do século XIX, após os eventos da famosa Guerra de Secessão – a guerra civil dos EUA. Estrelada por Kevin Costner como o líder dos Hatfields no papel de “Devil” Anse e Bill Paxton como o patriarca do McCoys, Randall, a série não conta com larga e relevante participação feminina.

Pode-se dizer que faltou cuidado em dar voz às mulheres que faziam parte das duas famílias rivais e que muito poderiam ter acrescentado à série. O que se vê, portanto, são essas mulheres sendo deixadas de lado, desfrutando somente de diálogos irrelevantes à história, que diziam respeito aos cuidados da casa e dos filhos, quando estes eram vítimas da violência exacerbada de seus maridos e outros familiares. Afinal, uma série sobre violência, armas, perseguições e matança precipuamente não é “coisa de mulher”.

Relegadas ao segundo plano, Sarah Parish é a matriarca dos Hatfields, Levicy, enquanto que Mare Winningham desenvolve com sutileza o papel de esposa de Randall, Sally McCoy. A ambas atrizes, com atuações mais significativas do que alguns homens do elenco – como é o caso do ator que interpreta Johnse Hatfield (Matt Barr) -, é reservado a elas somente à reação às decisões de seus maridos. Elas não têm voz ativa e, mesmo que tenham opinião própria sobre o conflito que está matando seus próprios filhos, esta não deve ser dita, mantendo-se sempre em silêncio e submissas.

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Levicy Hatfield e Sally McCoy são mães que não podem sequer defender seus filhos no show, ainda que fique claro que os amem, pois o tratamento maternal era importante, principalmente às meninas. O momento que torna isso mais visível e ainda mais absurdo é quando Johnse Hatfield comete um erro imperdoável – após uma série deles – que leva à morte de um seus parentes, e seu pai, Devil Anse, o leva para pescar com a intenção de matá-lo. Levicy tenta questioná-lo, aflita sobre o que poderia acontecer a seu filho mais velho, mas não pode ou o roteiro não a deixa fazer nada além de esperá-los em casa preparando-se para uma tragédia iminente orquestrada por seu próprio marido.

Johnse Hatfield é um caso à parte, aliás. Ele é homem e os erros são todos permitidos à eles. Repetidamente fica claro que seu comportamento desregrado com relação às mulheres é perfeitamente normal àquela realidade. Johnse é demonstrado como ingênuo e de bom coração em meio a um conflito familiar que não se iniciou com ele e que não é culpa dele, o que tenta justificar a direção que ele toma na série. Com este personagem, naturaliza-se a ideia de que “homens são assim mesmo”, que é comportamento normal e esperado as decisões impulsivas, ainda que coloque outros em risco e principalmente se houver uma mulher envolvida na equação, pois, de qualquer forma, eles serão inquestionavelmente perdoados no fim das contas e a culpa recairá sobre o lado mais fraco e mais facilmente culpabilizado: o feminino.

Durante uma ida à cidade, Johnse se encanta com a beleza de Roseanna McCoy (Lindsay Pulsipher), filha de Randall, e ambos iniciam um relacionamento proibido que leva a mulher a abandonar a casa de sua família e passar a viver com os Hatfields, embora seu casamento não tenha sido autorizado por nenhum dos lados, pois o pai não a reconhece como filha e “Devil” Anse não permite que uma McCoy entre definitivamente para a família sem que Randall dê o consentimento. Assim, mais uma vez, vê-se o silenciamento dessas mulheres, pois é uma das únicas vezes na série em que o personagem de Kevin Costner demonstra qualquer respeito em relação ao rival: a honra de uma filha, por ser mulher, está além do conflito.

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No entanto, passa-se batido quando, após Levicy Hatfield expulsar uma Roseanna grávida de sua casa depois de um ano em que a menina ali vivia, inicia-se uma relação entre Nancy McCoy (Jena Malone) e o próprio Johnse. Fica implícito que, diferente de sua prima, o fato dela não ter pai – este assassinado pelos próprios Hatfield – é ingrediente definitivo para que nada impeça o casamento, mas é estranhíssimo que os mesmos Hatfield que proibiram um relacionamento com Roseanna não se pronunciem à respeito. Ainda, nenhum McCoy se coloca efetivamente contra o casamento de Nancy com o adversário, ainda que durante toda a série eles estivessem lutando pela honra de seu sobrenome. Talvez uma falha de edição, talvez falha de roteiro, talvez falta de vontade em pensar uma explicação melhor.

No fim das contas, Hatfields são prejudicados rapidamente pelo relacionamento ao qual não se opuseram, enquanto que Roseanna e sua filha McCoy-Hatfield morrem após algum tempo. Conta-se, no entanto, que Johnse continua com a mesma série de “erros” em relação às mulheres, pois casou-se mais quatro vezes até ser condenado por seus crimes. Outro exemplo de sacrifício feminino é empenhado pela própria Sally McCoy. Tendo sua casa como alvo de um cerco empenhado por Hatfields e aliados, a mulher escolhe mandar seu marido embora e permanecer com toda a prole, esperando que ataque cessasse. Randall não pensa duas vezes, apesar de ser um dos responsáveis por prolongar o conflito. O resultado são dois filhos mortos, Sally agredida fisicamente e a casa incendiada.

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A minissérie, no entanto, ainda esforça-se para demonstrar alguma honra entre os homens dos dois lados adversários, afinal é preciso sentir certa empatia por eles. Eles prezam por suas famílias, mulheres e crianças principalmente, e, por isso, tentam não envolvê-las na questão toda. O líder do ataque referido mostra-se arrependido ao contar a “Devil” Anse que precisou apagar a matriarca dos Sally com uma pancada na cabeça, embora, analisando seu comportamento, um outro episódio de violência tenha sido empenhado contra Nancy McCoy. Ou seja, o único motivo para que ele se mostre arredio é porque seu irmão desaprova esse tipo de ação, não porque não faria.

Enfim, Hatfields e McCoys tem um bom potencial, os dois protagonistas masculinos desempenham boas atuações, mas fica a sensação de que seria maior e faria mais jus à história dessas famílias reais se Sarah Parrish e Mare Winningham, esta última já dona de um Oscar e um Emmy à época, tivessem mais oportunidade para desenvolverem seus papéis de uma forma que levasse relevância à história. Assim, a falta de espaço em tela, conjugada com a falta de profundidade no roteiro – talvez por ter sido concebida em somente três episódios – , o qual destaca mais o conflito armado do que a vida dessas pessoas, fazem da minissérie um programa mediano.