Não é de hoje que falo que os melhores episódios são aqueles centrados em um ou num grupo reduzido de personagens, que extrapolam as fronteiras do Grey Sloan Memorial Hospital, que colocam os personagens em situações de mais estresse do que uma longa e complicadíssima cirurgia. Esta temporada, inclusive, tem estado cheio deles. Aliás, arrisco dizer que são esses episódios que têm salvado a temporada, que anda tão capenga e desgovernada que mais parece a atual administração do país.

Tão pouco não é de hoje que levanto uma verdadeira cruzada em defesa de Amelia “Melhor” Shepherd e se eu não consegui provar o valor e a importância dessa personagem na série até hoje, espero que “Good Shepherd” (15×21) o tenha feito. Porque já passamos da fase de odiá-la (falo por vocês, porque eu nunca tive), de tratá-la como a irmã mais nova do Derek, a sombra problemática da família Shepherd, a black sheep como foi “carinhosamente” apelidada por suas irmãs. Passamos?

Talvez nos corredores do GSMH, na casa da sisterhood, em Seattle ou em qualquer lugar do mundo, com exceção de Nova York, Amelia se sinta confiante o suficiente para andar de cabeça erguida. E ela tem motivos para isso. Afinal, se formos dar uma rápida conferida em seus feitos só nesta temporada, para ficar no básico, tivemos a cirurgia em Catherine Fox, a adoção da duplinha Leo & Betty e o divórcio (aleluia!) de Owen. Ainda vou incluir nessa lista também o modo como ela vem se relacionando com Link, sobretudo neste episódio.

Falemos primeiro do clã Shepherd. Todo mundo – ou pelo menos todo mundo deveria saber – que Amelia carrega com a família uma relação nada saudável. Lá na décima primeira temporada, durante o luto por Derek, a única informação que tivemos sobre os Shepherds é uma fala de uma Amelia, prestes a ter  uma recaída, dizendo que sua mãe ligava o tempo todo para saber dela. Lá na season finale da décima segunda temporada, Amelia teve um pequeno surto prestes a entrar no altar quando se deu conta de que nenhuma de suas irmãs nem sua mãe iria ao seu casamento com Owen. Nem Derek (mas esse ganhou um passe livre). Já na décima quarta temporada, vimos Amelia enfrentar um tumor no cérebro sem sua família de sangue por escolha. Dou essa volta toda para dizer que até o mais desavisado dos espectadores deveria ter entendido que união não é o forte das Shepherds. E se ainda estava difícil de compreender, tivemos um episódio dedicado a isso.

Quando Link relata suas experiências maravilhosas em Nova York, Amelia ouve com muita admiração, porém compartilha que para ela a cidade que nunca dorme tem uma carga muito doída. Dito e feito.

Seguindo as lições de roteiro e de conflito de personagem, uma Amelia toda feliz em cima de seu salto agulha depois de ter caminhado catorze quarteirões dá de cara com um rosto familiar. Era Nancy Shepherd, uma das impertinentes, porque são todas impertinentes. Nancy é aquela que lá na terceira temporada infernizou a vida de Meredith numa visita surpresa a Seattle (para refrescar nossas memórias, Nancy era team Addison). E ela já chegou destilando tudo o que podia em cima de Amelia ao chamá-la de “Amy”. Vou aqui refrescar novamente nossa memória e lembrar que Amelia pediu esclarecidamente a Derek que a chamasse pelo nome, algo que ela também fez com Addison em sua primeira aparição em Private Practice. Ah, mas é só um nome, os mais revirados com a personagem podem pensar. Mas para Amelia não. “Amy” para ela é um diminutivo dos mais ferrenhos, é infantilizá-la, é chamá-la de “garota”, trazendo uma carga que nem uma banho é capaz de tirar. Então não sou capaz de julgá-la por ter inventado todo um teatro para não ter que lidar com a primeira atribulação. Só que o que pareciam cinco minutos no hall do hospital escalonou e dali para frente foi ladeira abaixo.

O desafio do caso cirúrgico da semana foi um mero atrativo para nos lembrar que se trata de uma séria médica. E confesso que eu poderia ter assistido a quarenta minutos de puro drama pessoal, amoroso e familiar “apenas”.

Sem saída, a caminho da casa de Nancy, restou a Amelia treinar Link e torcer para que as outras irmãs não estivessem à espreita. Mais uma lição de roteiro: no momento em que Amelia reclamou de Kathleen e a coroou como a pior das irmãs, era certo que Kathleen estaria lá a pleno vapor. Aqui, por favor, se esqueçam que nós já sabíamos que Kathleen, a Shepherd que restava, apareceria e seria interpretada por Amy Acker (de quem sou fã desde os tempos de Angel). Mas não é que Amelia estava certa? O que se viu dali em diante foi uma enxurrada de concepções moldadas no passado por uma família complicada, competitiva, marcada por dor e sofrimento por todos os lados. Uma série de agressões contida até nos mínimos detalhes, que não são tão mínimos assim, como apostar em cima da vida amorosa, o modo como lidam com a doença de Amelia, um foto de Amelia adolescente e por aí vai.

Família.  fa·mí·li·a. sf 2 Conjunto de ascendentes, descendentes, colaterais e afins de uma linhagem ou provenientes de um mesmo tronco; estirpe. Retirei essa definição do Michaelis online. Talvez essa definição se aplique a Liz, Kahtleen, Nancy e Carolyn Shepherd, além de Derek e do Mr. Shepherd, porém com toda certeza não se aplica a Amelia. Porque ela não sente abraçada, ela não se sente parte e a todo instante se faz questão de lembrá-la disso. No lugar que supostamente Amelia deveria se sentir segura, ela é atacada, cobrada e humilhada. E tomo por lugar não uma casa, pois nem Derek era capaz de “dar um desconto” mesmo tendo aceitado a irmã debaixo de seu teto. Falo de pertencimento, de se sentir parte de qualquer coisa que seja: um lar, um grupo, uma família. Porque a família deveria algo ser para quem se corre, não de quem se corre.

Entendo que Amelia tenha todo um passado difícil e que seus irmãos a ressitam por isso, mas é passado. O que deveria valer é o que se faz a partir de um momento em que se percebe que determinadas atitudes não condizem. É fazer diferente do que se tem por padrão e evoluir a partir dos erros. Justamente o que Amelia fez. Tentou, conseguiu, falhou de novo, reinventou-se e diariamente busca aprender a lidar com o vício, busca ser melhor. Por isso também entendo o quão difícil é tomar ciência de que talvez a sua família de sangue não seja o lugar mais saudável para frequentar nessa trajetória. Porque às vezes é preciso de fato se afastar, tomar espaço, colocar a máscara de oxigênio em você primeiro para assim conseguir uma sobrevida. Porque tanto se aponta os erros de Amelia, mas ninguém é capaz de olhar para o próprio umbigo, olhar para dentro de si e admitir as próprias falhas, a próprias condutas tortuosas.

Ninguém consegue perceber o quão inapropriadas as irmãs Shepherds são, sobretudo Kathleen, uma psiquiatra que prova que santo de casa não faz milagre. Como também ninguém consegue admitir que o distanciamento vem dos dois lados, a não ser pela emocionante tomada de consciência de Carolyn ao resolver confrontar a filha e verbalizar suas mancadas, admitindo que diante de um enorme baque não conseguiu dar conta de tudo, porque é humana e frágil como Amelia. No entanto, ainda assim, mesmo num momento tão puro entre mãe e filha, as irmãs de Amelia não são desafiadas a mudar. São vendidas como imutáveis, “é o jeito delas” diriam, cabendo a Amelia aceitar ser taxada como a pior dos seres humanos, sendo-lhe negado o direito do arrependimento e a credibilidade de fazer diferente. Sequer foi dado a ela uma voz para se defender e, quando o fez, foi carregada de alfinetadas, críticas e julgamentos. É quase uma relação de subserviência. E não me venham com esse papo de que família é assim porque não deveria. Quanta coisa já foi posta como imutável e tempos depois não foram alteradas pelo bem comum? Por que então deveríamos no submeter à dor em nome de um laço sanguíneo?

Família.  fa·mí·li·a. sf 1 Conjunto de pessoas, em geral ligadas por laços de parentesco, que vivem sob o mesmo teto. 4 FIG Grupo de pessoas unidas por convicções, interesses ou origem comuns. Definição retirada do mesmo Michaelis online. Amelia só entendeu sua paz quando retornou novamente ao seu lar, sua verdadeira casa, para aquelas pessoas unidas por convicções e interesses: ser uma rede de apoio, estar uma pessoa pela outra por e apesar de tudo. Link pode não conhecer todas as facetas de Amelia, mas Meredith e Maggie a conhecem. Elas sim são as irmãs de Amelia e estão dispostas a construir relações melhores, estão dispostas a dar suporte no amor e na dor. Era nítido o alívio de Amelia, como é paradoxal o contraste em torno da mesa de jantar de Nova York e a mesa de jantar de Seattle. Não porque a sisterhood, em especial Mer e Amelia, não tenha suas questões, mas porque são dois extremos. Para citar a narração de Meredith, não é sobre uma tentativa de replicar o que perdemos, é sobre dar espaço para que algo novo cresça. E tudo isso é um longo processo.

Um processo que também se aplica a se permitir ser amada, ponto que Amelia passou a vida inteira acreditando que não era capaz. Porque o mundo pode dizer que somos incríveis, maravilhosas, inteligentes, estupendas, que abalamos Bangu e adjacências, mas de nada valem tantos elogios se a gente não acredita nisso. Podemos ter as paixões mais avassaladoras ou acharmos o amor da nossa vida ou podemos transar com deus e o mundo buscando preencher um vazio que a gente não sabe de onde vem nem onde fica, só sabe que está ali. É uma constante busca pelo afeto, pelo amar e ser amada que de nada vale porque acaba culminando em auto-sabotagem pelo medo da rejeição, da perda. Daí tentamos nos sentir preenchidas com o que tiver pela frente. No caso de Amelia, foram as drogas. Ao passo que tentamos o tempo todo afirmar e reafirmar nosso valor para os outros. No caso de Amelia, é performando cirurgias arriscadíssimas sem o completo aval dos colegas.

Porque é mais fácil nunca ter tido do que perder, tendo como opção mais prática fugir, atacar quem está sendo super gente boa, negar uma mão estendida, pisar em quem só quis estar ali. É como se um alerta acendesse toda vez que alguém chegar perto demais e acaba descobrindo demais. Disse prática porque não são escolhas fáceis. Aliás, são dificílimas. Sobretudo quando se tem consciência delas. Entretanto, por força do amadurecimento, Amelia deu sinais de que está disposta a tentar se amar e deixar que a amem pelo simples “vamos ver no que vai dar”. E ainda bem que Link é um cara disposto. Estou daqui ansiosa para ver no que isso vai dar também.

Por tudo isso e mais um pouco, encerro esta review parafraseando o saudoso Mark Sloan: walk tall, Shepherd*.

 

*Ande de cabeça erguida, Shepherd.

 

Este texto foi originalmente publicado no Grey’s Anatomy Brasil.