Fôlego. Foi meu fôlego que precisei recuperar ao final de “Personal Jesus” (14×10). Houve muito o que processar depois de 40 minutos muito intensos e de um episódio em flashfoward que pegou a gente pelo pé. E a intensidade não esteve em grandes tragédias mirabolantes que assolam personagens e hospital há mais de uma década. O perigo, a ansiedade e o temor não vieram de bombas, explosões, quedas de avião, enchentes, ataques de hackers, panes elétricas ou qualquer coisa que consigamos nos lembrar. Também não vieram de casos médicos raríssimos e cirurgias inovadoras. A origem de tudo era algo muito mais simples, porém igualmente complexo: a fragilidade humana. Uma fragilidade que perpassa até o mais santo e puro dos homens, de acordo com o cristianismo. Afinal, é atribuída a Jesus a marcante frase “por que me abandonastes?”, aqui repetida e sentida por April. Uma fragilidade que não poupa uma criança, um garoto de doze anos dilacerado pelo sistema.  Uma fragilidade que faz uma mulher duvidar de si e de suas capacidades diante de tanto abuso. Uma fragilidade que tira e dá no mesmo rompante. Uma mãe que perde sua vida depois de dar à luz. Um homem inescrupuloso que vivo destruiu vidas e  que com a morte salvou.

Ok. Isso pode não ser novidade nenhuma em Grey’s. Tanto não pode quanto não é. Um dos grandes motes da série, desde o primeiro dia, é se valer dessa fragilidade humana, mostrando pacientes e médicos morrendo feito moscas. Porém é importante colocar que neste episódio a fragilidade não foi recurso, não foi mote, ela foi tudo. De ponta à ponta. Do início ao fim. E vai resvalar aqui fora. Tem que resvalar. Porque este episódio não foi um daqueles que você se esquece facilmente. Ele é um daqueles tão difíceis de digerir, de aceitar, de internalizar e de esquecer, ou seja, aqueles que marcam por serem episódios palpáveis, relacionáveis, reais e igualmente cruéis. São episódios intensos e explícitos que se sustentam por contarem de um modo potente histórias narrativamente triviais. Para tanto, dependem de um bom roteiro e boas interpretações. O que tivemos aqui, especialmente com Sarah Drew.

Às vezes tive a impressão de que assistia a dois episódios completamente diferentes condensados em um. De igual modo, por vezes me perdi tentando entender de quem era aquela história sendo contada. As expectativas para continuar  mergulhada na trama de Jo e de seu marido abusivo tomaram uma balançada. Particularmente esperava um outro desdobramento e fui enganada (Falo isso com vergonha, mais uma vez, depois de tantos anos calejada) pelas promos e sneak peeks que construíram um mega mistério sobre o que, ou melhor, quem deixou Paul naquele estado. Esperava uma punição em vida por todas as atrocidades cometidas por ele e no fundo não queria que Jenny, muito menos Jo ou Alex estivessem envolvidos nessa. Mas aí subverteram essas expectativas, trazendo um episódio focado em April que ao mesmo não era só sobre April. Como já disse, foi um episódio impactante.

Ainda sobre a trama envolvendo Jo, Jenny e Paul – Alex continuou sendo um mero acessório aqui, de muito apoio a Jo, porém um acessório -,  é importante destacar o valores que as cenas entre Jo e Jenny, sobre tudo aquela em que Jenny desabafa sobre sua intelectualidade e sua militância. “Eu sou uma feminista”, ela disse, num tom que questionava o absurdo da incoerência que era ser uma feminista e ainda assim estar num relacionamento abusivo. Vejam vocês que todas, todas e qualquer uma de nós mulheres, desde a mais militante de todas até a mais desconectada do movimento, está sujeita a essa situação. O jogo é tão sujo e tão baixo que a gente duvida até da gente mesma nessas situações. E Paul nem no semi-leito de morte deu o braço a torcer, não que se esperasse uma redenção mas porque deu gosto de vê-lo se revelando, perdendo a áurea de bom moço, de médico renomado. Sua reação natural não só o levou a uma morte cerebral, mas também deu mais oportunidades para a sororidade valer. Aqui vou fazer um parenteses e ovacionar nossa Meredith se colocando entre Paul e Jo e Jenny.

Sim. Eu esperava uma #exposedparty sobre tudo o que Paul tinha feito, queria aquela humilhação dos tribunais e uma vida de escárnio social. Entretanto, se Jesus ensinou dar a outra face (tô muito, April!), os médicos aprenderam a dar sobrevida a quem precisa. De certa forma é até poético que um homem que tanto mal causou seja o mesmo homem que agora vai garantir que uma garotinha possa ter um rim em pleno funcionamento. Atitude sagaz de Jo, que nada risada ou no desespero tem mostrado que vale a atenção do fãs, que é uma personagem de quem se gostar, com muito a se explorar. Aliás, que momento incrível aquele “tô rindo de nervoso dela”. Só me peguei refletindo sobre o beliscão que ela deu em si. Uma reação para saber se aquilo não era um sonho? Um princípio de TOC? Só sei que plano fechado nunca é à toa. Pelo menos não deveria ser.

Enquanto isso, April travava suas batalhas. Todos os pacientes que tiveram destaque no episódio, de alguma forma, passaram por suas mãos e apenas um sobreviveu, tendo restaurada sua integridade física, porém o mesmo não pode ser dito de sua fé ao final. Falando nisso, April foi testada por todos os lados aqui, teve sua fé posta à prova a todo instante, além de sua capacidade mais uma vez questionada. Eu juro que não entendo como depois de todos esses anos, ainda duvidam da capacidade médica de April como Mer fez. Oras, April está virando a dona e proprietária do departamento de Trauma. Se por ventura Owen for embora (torcendo para isso acontecer), April deve assumir imediatamente a chefia. O que me leva a falar sobre Owen e as caraminholas que colocou na cabeça de Kepner. Vá lá que Richard de fato tenha feito um jogo com ela, elogiando para ela se sentir apta a coordenar a competição e não participar dela. Entretanto não vejo ninguém com mais competência e melhor perfil para fazê-lo. April é do tipo que prefere organizar o rolê a participar dele. Lembrem-se que ela foi a chefe de residência de sua turma e adora comandar, do seu jeito.

Voltando aos casos clínicos, sem dúvidas, o que mais mexeu com ela foi atender uma paciente que era ninguém mais, ninguém menos do que a esposa de Mathew, aquele moço amável que ela largou no altar. E, por favor, não achem que estou julgando April pelo que ela fez, apenas constato a amabilidade do rapaz. Sobre presença de Mathew e a condição de sua esposa foi muito mais do que a presença em si. Claro que lidar com a situação foi inesperado – e não me venham falar que Arizona tinha a obrigação de contar que era a médica de Karin porque ela não tinha. Mas talvez o que mais tenha mexido com April, ao encontrar Matt e saber em que pé da vida ele está, tenha sido confrontar seu próprio passado. Relembrar por terceiros que ela teve um bebê que poderia estar com três anos e, por tabela, relembrar de tudo o que lhe aconteceu. A gestação de Samuel, o parto, a morte dele, a dificuldade da relação com Jackson, a ida para o Iraque, o retorno difícil, o divórcio, Montana, perceber que estar perto de Jackson a machuca porque ela ainda gosta dele, o que significou passar menos tempo com a filha, e ainda descobrir que aquele por quem ela tem sentimentos já está ligado em outra pessoa. April é Jó que perdeu tudo. April é Jesus que se sacrificou por um bem maior. E o que ela ganhou em troca? Um bebê sobressalente, um brando TEPT?

Kepner há muito deixou de ser aquela ingênua menina do interior que pediu para o Sr. Clark não atirar nela dizendo que ela tinha mal vivido, que ela era filha de alguém, uma pessoa. Hoje April viveu e é mãe de alguém. Porém o que a faz se sentir viva? Há uns episódios Arizona disse a ela que seria bom ter um tempo para ela mesmo, aproveitar enquanto Harriet estivesse com Avery. Agora April se jogou não porque sentia que estava na hora, mas por ter perdido referências tão caras a ela, por ter testada sua fé. As doses de bourbon e a transa com o interno bonitão são mecanismos que ela encontrou para desafiar a si ou, simplesmente, passar por isso pois naquele instante nada mais fazia sentido. Ela se sentiu abandonada. O vazio tomou conta. Basta ver a cena inicial e a final, o vazio em seu olhar, um brilho que se esvaiu. Já vimos isso antes, não é mesmo? Então, apresento a vocês dark and twisted April. Seja como for, será no mínimo instigante.

Emaranhando essas duas tramas, tivemos ainda, com toda certeza, uma trama que fez a respiração descer truncada e a garganta dar um nó de difícil desate. Não bastasse trazer em um único episódio um caso de violência doméstica potencializado pelo combo erradíssimo entre bebida e direção, e um questionamento válido sobre religião e fé, Grey’s vem com esse episódio para escancarar na nossa cara o racismo institucionalizado e evidenciar os despreparo de uma instituição como a polícia. Mais uma vez a série demonstrou muita destreza e responsabilidade social ao tratar na ficção de um tema tão urgente na sociedade, estejamos nós nos EUA, no Brasil ou em qualquer parte do mundo. Tratou-se do assassinato de uma criança de 12 anos que não teve nem ao menos o direito de se defender. Uma criança que foi privada de sua inocência, como ressaltou Jackson, que foi privada de sua vida. Tratou-se de demonstrar a dizimação, o extermínio de jovens negros que estampa os jornais todos os dias. Mais “um suspeito” que é massacrado por uma sociedade racista, hipócrita, violenta e reativa.

Pontual e narrativamente, três personagens negros estiveram ligados ao caso e trouxeram suas perspectivas. Jackson, como já mencionado, veio para dar o seu relato pessoal e de muita relação com o jovem Eric, morador de um bairro nobre da cidade. Todavia, as estruturas desabaram quando Bailey e Ben chama o jovem Tucker, um pouco mais velho do que Eric, para “a conversa”. É quase uma aula de guerrilha passiva, de sobrevivência numa selva de brancos que atiram antes de perguntar, que julgam antes de saber. Foi possível ver nos olhos do jovem Tucker um pouco de sua inocência se esvair, bem como nos olhos de Miranda e Ben havia um temor,  uma dor por estarem tento aquela conversa infelizmente necessária.

É por isso e por tanto mais que uma série como Grey’s precisa ser assistida e debatida. É preciso provocar, instigar e levantar  o manto que falsamente protege nossas redomas, que nos cega e não nos deixa ver injustiças e atrocidades. Propósito que a série tem cumprido. Precisamos refletir mais e tentar entender como viemos parar aqui, se não for pelos jornais, que seja pela ficção bem feita. Afinal, a tal fragilidade humana está para todos e todas. Só que uma das coisas que uma sociedade patriarcal, heteronormativa e branca faz é determinar quem é frágil e quem não merecer ser.

 

P.S. 1: De início, achei que Bailey estava chupando balinhas na cena em que Maggie se oferece para ficar com o Tucker e o amigo. Mas num olhar mais atento e sabendo do que estava por vir, entendi que aquilo deveria ser algum anti-ácido.

P.S. 2: Ai, gente. Tem como não gostar de Maggie sendo a nerd super empolgada com ciências?!

 

Este texto foi originalmente publicado no Grey’s Anatomy Brasil.