Congelados e perplexos. Congeladas e perplexas. Foi exatamente assim que fomos deixados e deixadas o episódio passado, e é assim que começamos “1-800-799-7233” (14×09) ou 180* (como vou chamá-lo daqui em diante). Como se durante o hiato da série Jo tivesse permanecido ali, em estado de choque, ao dar de cara com o seu pior pesadelo. Como se ela – ou qualquer mulher na sua situação – fosse incapaz de seguir em frente de fato, aterrorizada pela possibilidade desse terrível enfrentamento. Uma boa escolha, visto que se caso estivéssemos em outras temporadas, sob outro comando, o dedo já começaria a coçar para colocar algum episódio aleatório antes deste e, com sorte, só veríamos Jo enfrentando seu passado na semana que vem. O que não seria nada além de um truque para segurar a audiência e prolongar uma trama.

Só que essa trama já estava se arrastando por demais. Estávamos há quase três temporadas esperando por isso e já era hora de vermos em tela a trama prometida. Em meio a uma onda conservadora, escancarada em repressão social, política, sexual, de gênero e raça; mas também em tempos de denúncias de casos de abusos e assédios, de #MeToo, de #TimesUp e de Marchas das Mulheres  mundo afora, uma série do porte de Grey’s Anatomy precisava trazer à tona o tema do abuso doméstico e precisava tratá-lo com consciência e responsabilidade social. Vejam vocês que série nenhuma “passa mensagem”. Quem passa mensagem é telefone. Série, assim como qualquer fruto da criação artística, tem um discurso. E já era no comecinho do episódio que teríamos estabelecido do que ele se trata, de qual seria o discurso do episódio, algo muito maior do que o covarde ato de violentar uma mulher em si, algo muito mais dolorido do que encarar traumas. Pois há uma palavra que preciso que vocês tenham em mente ao (re)ver 180, uma palavra que é praticada com afinco em Grey’s: sororidade. Pois o que vimos foi uma união entre mulheres, movida a companheirismo, altruísmo e sobretudo empatia. Uma coalizão com o objetivo de proteger mulheres de um agressor.

E nós permanecemos e lutamos junto com Jo, pelo menos quem tem bom-senso. As tags #IStandWithJoWilson #IStandWithJo pipocavam no Twitter e apontavam nessa direção. Já não mais cabe aqui usar como argumentos o fato de você gostar ou não gostar da Jo – ou da Maggie (sobre quem falarei mais adiante) – para gostar ou não dessa trama, é sobre admitir que o ódio destilado contra ela(s) não vai mudar em nada o andamento da história, tampouco vai diminuir seu destaque. Não há espaço para ódio, como não houve espaço para os homens. E não me venham falar de Karev porque ele não fez mais do que a obrigação. Além disso, quando Mer fala para Alex que ele não chegará perto de Paul não é só porque ela teme pelas ações do amigo, também é porque se trata de um assunto entre mulheres, por serem elas as atingidas e por existir uma necessidade de deixar claro que juntas podemos mais. Não por menos, Arizona, que lá no começo do episódio tietava Paul,  não titubeou em ajudar Jo em seu plano para ajudar Jenny, quem atualmente sofre com os abusos de Paul.

Também podem dizer o que for também de Camilla Luddington, intérprete de Jo Wilson: ela deu conta da carga emocional que o episódio exigia. Aliás, falando em aspectos da atuação, quem conhece Matthew Morrison de outros carnavais mal pode lembrar que ele foi o esquisto e inseguro Mr. Schu na série musical Glee, tamanho asco ele nos provocou neste episódio. E o que dizer de Ellen Pompeo? A gente está cansado de saber o quão brilhante essa mulher consegue ser e quantas lágrimas ela já arrancou da gente nesses anos de carrossel, mas sua entrega aqui merece destaque. Posso estar pecando pelo meu lado fã, no entanto arrisco dizer que houve com os três um bom trabalho de preparação corporal junto ao diretor, pretendendo uma escalada de postura por parte dos três. É uma questão de como se colocar em cada situação. Houve momentos marcados? Houve, como o corpo de Jo que se afasta a qualquer movimento do agressor, mas houve também uma intenção de corrigir sutilmente a postura e a entonação de sua voz ao perceber que precisava ajudar Jenny. Não me entendam mal. Não estou dizendo que uma mulher que sofreu violência não se sente acuada diante de seu agressor e que isso a faça a reagir se afastando ou usando como escudo, estou falando do trabalho de postura corporal.

Uma preparação que rendeu momentos incríveis protagonizados por eles, mas principalmente dois com Mer. Porque a gente tem que falar do nosso Sol que não é mãe de três crianças, é mãe de um hospital inteiro. É dona de um coração que tem mais amor do que quantidade de tragédias em sua vida. A gente sabe que Mer já torceu o nariz para Jo, mas que faz tempo que ela já aceitou Jo em sua vida e sabe da importância dela para Alex. Então, ver Mer protegendo Jo daquela maneira foi um recado bem dado para todos os haters que insistem em pedir a morte da personagem. Não estou falando que vocês são obrigados a gostar da Jo, vocês só têm que engoli-la. Ouvir Mer dizendo para Paul, o charmoso e manipulador Paul, que ela é amiga de Jo Wilson e sabe exatamente quem ele é lavou a alma. Ouvir Mer dizendo a Jo que ela sabe quem Jo é, depois que esta suplicou para que Mer não acreditasse em nada do que seu agressor havia falado e ainda ganhar de lambuja mãos nos ombros seguidos de um envolvente abraço, acalmou o coração. Estávamos diante de duas forças descomunais, de duas personagens que superaram muita coisa em suas trajetórias, duas personagens que se uniram, se protegeram, que foram parceiras.

Tudo o que Jo quer é seguir com sua vida e não deixar que outras sofram o que ela sofreu. E Jo tentou. Porém antes que culpemos ou julguemos a postura de Jenny, entendam que não sabemos o que se passa com ela. Transparente ficou que ela sofreu violência cometida por Paul como Jo sofre/sofreu, o que talvez ela ainda não tenha conseguido atingir é o mesmo nível de coragem, força, esclarecimento, auto-conhecimento que Wilson. Talvez ela não tenha a mesma rede de apoio. São tantos fatores. Fato é que não estamos no lugar dela para sabermos, podemos apenas inferir o que se passa. Afinal, Paul Stadler é o cirurgião renomado,  o professor experiente, o boa-pinta, o gentil, o bom de papo. É também o dissimulado, o agressivo, o cínico, o  manipulador. O monstro disfarçado de bem-sucedido. Está em seus olhos. E está nos olhos de Jo e de Jenny. Narrativamente, como foi um boa escolha abordar esta trama tão logo a temporada retornou, foi igual acerto não terminá-la tão cedo. Obviamente, mais acontecimentos que tirariam nossa estabilidade emocional. Mais um cliffhanger da Shondaland.

Outras tramas foram deixadas em aberto no episódio passado e tiveram uma conclusão em 180. A começar pelo enfadonho caso do ataque dos hackers que pouca serventia teve aqui, a não ser deixar os humores mais exaltados por conta do calor repentino. Minto. A ideia toda caminhou para que encontrássemos Casey Parker, o interno que ajudou Bailey a dar um nó nos hackers e no FBI. Por que Parker era tão importante? Porque Parker é um orgulhoso homem transexual! Essa revelação foi meio rápida e do nada? Foi. Mas como a trama sobre a violência doméstica é extremamente pontual. Há algumas temporadas, tivemos uma trama sobre mudança de gênero com o irmão, agora irmã, de Warren, que durou apenas alguns episódios e um ou outro comentário solto dele depois. Todavia agora temos um interno trans circulando pelo hospital e isso vai ser incrível. Tem que ser. É questão de representatividade, ainda mais numa série que sempre levantou a pluralidade como bandeira. Estou ansiosa.

Lembram-se quando mais acima falei que este não era um episódio sobre homens? É porque não era mesmo. Sabe tudo o que se falou sobre sororidade, sobre empatia, sobre confiança? Isso cai por terra quando temos Owen que, mesmo tendo uma participação mínima, consegue ser insuportável. Porque o machismo também está nos detalhes e o que Owen fez com Kepner, ao fazê-la duvidar de sua intuição, leva o nome de gaslighting, que é quando leva-se uma pessoa a duvidar de seu raciocínio, de seu senso de percepção e, em muitos casos, até de sua sanidade. Se fosse por Owen, o senhorzinho teria morrido e April não teria recebido de Webber o reconhecimento que lhe é devido.

Lembram-se quando acima falei que já não mais cabia argumentos prós ou contra Maggie? É porque não cabe mesmo. Maggie é constantemente acusada de ser imatura e infantil. Pois bem. Não foi nada disso que aconteceu em 180. Para começar que não é qualquer uma que mantém aquela postura no vestiário. Se ela de fato fosse tão imatura como tentam construir, ela ou pulava em Jackson ou saía correndo. Depois tivemos o convite para tomar um drink. Drink…sei…Maggie sabia também e colocou tudo às claras, vontades, intenções e preocupações. Ela não disse nem que sim nem que não. Apenas não quis se meter em enrascada, não se deixando levar só pela vontade. Estou para dizer que é uma das pouquíssimas pessoas que já passaram por aquele hospital que tiveram essa postura. Então, Maggie merece o respeito de todo mundo por saber o que quer e o que não quer.

O episódio no todo foi relativamente delicado porque carregava o estigma de ser focado em Jo ao mesmo tempo que tinha ganchos a resolver. Isso prejudicou um pouco o ritmo, é verdade. Um problema na montagem que poderia ter seguido um esquema mais suave, que não fizesse as viradas entre as tramas de modo tão desnivelado. Ou talvez, de fato, as tramas estivessem desniveladas. Aí é um problema de roteiro. Porém foi um importante episódio e arriscaria dizer que foi até um divisor de águas dentro do desenvolvimento de vários personagens. Aguardemos, sem roer todas as unhas, os próximos.

 

P.S. 1: A família DeLuca está causando e tenho duas coisas a dizer. Primeiro que já sou descolada por demais em Shondaland (e na vida) para não acreditar em bom moço e não caio nessa de venderem Andrew como um. Só quero ver como ele vai reagir com Sam entrando para o Time Shepherd. Segundo que, por favor, reatem Carina com Arizona. Nunca pedi nada a vocês.

P.S. 2: Custava abrirem o jogo para Amelia? Espero que a história de Jo circule pelos amigos, principalmente para pararem de ovacionar agressor. Como é que Webber poderia saber?

P.S. 3: Menção à Tephinha <3 Saudade, Tephinha :/

P.S. 4: Bailey mandando Avery e Pierce se trocarem sem ao menos perguntar o que tinha acontecido é muito Bailey!

 

* 180 é o número aqui no Brasil da Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência. Se você sofre abuso doméstico ou conhece alguém que sofra, não encare isso sozinha. Denuncie, procure a Delegacia da Mulher mais próxima. A ligação é gratuita e confidencial, seu anonimato será preservados. Nós, mulheres, precisamos nos unir e nos proteger.

 

Este texto foi originalmente publicado no Grey’s Anatomy Brasil.