Insegura talvez seja a palavra certa para retratar a minissérie Godless. Criada e dirigida por Scott Frank (Wolverine Imortal e Minority Report) e tendo como um dos produtores o premiado Steven Soderbergh (Erin Brockovitch e Onze Homens e um Segredo), foi inicialmente escrita como um filme que não vingou nos estúdios nos idos 2002. Comprada pela Netflix, a trama pôde ser melhor desenvolvida em sete episódios de aproximadamente uma hora. O programa é quase uma receita do que pede o gênero western.

Há dois homens, o mocinho e o vilão, em busca de vingança. Xerifes estereotipados em busca de justiça. Nativos americanos, muitos cavalos e toda a locação ao livre que pede o Velho Oeste. O diferencial de Godless, no entanto, ficou a cargo das Mulheres de La Belle, título de um dos episódios.

Sendo assim, existem duas tramas paralelas. A estrelada pela desavença entre Frank Griffin (Jeff Daniels) e Roy Goode (Jack O’Connel). E aquela protagonizada pelas viúvas da pequena cidade de população majoritariamente feminina, onde o plot central se desenvolve. Uma não funciona sem a outra. Godless não seria Godless sem o apelo da ousada independência feminina no século XIX. Scott Frank tinha um grande trunfo em mãos. Mas fica claro na edição final o papel secundário das mulheres.

Não falta ação e argumento para bons dramas no núcleo das viúvas. A série se dispõe a retratar a adaptação ou não à falta de seus maridos – mortos em um acidente na rica mina da cidade – visto que as mulheres não podiam desempenhar muitas profissões à época. Algumas se saem melhor do que as outras e, é claro, são consideradas mais subversivas. É o caso de Mary Agnes (Merrit Wever), que naturalmente se torna a líder desse núcleo. Ela veste as roupas do marido falecido na busca de impor respeito às outras e aos homens de fora, que agora querem se aproveitar da recente vulnerabilidade do grupo. Um claro lembrete de que papéis relevantes na sociedade só podem ser desempenhados por homens, que também dispõem de um respeito supostamente natural.

Portadora permanente de um cinto de munição e pistola e acusada, por isso, de ser “menos maternal” trata-se da personagem melhor desenvolvida como um todo, inclusive em relação à sua sexualidade. Com o tempo, é revelado que Mary Agnes mantém uma relação com a agora professora da cidade, Callie Dunne (Tess Frazer). O romance não é apelativo em nenhum sentido e, inclusive, merecia mais tempo de tela. A jovem, antes prostituta, tem sua nova ocupação questionada por homens não somente uma vez, sendo supostamente “bonita demais para ser professora”. Afinal, mulheres não podem ser bonitas e inteligentes.

Elas não são ingênuas. Apesar de ficar claro como os homens têm a intenção de se aproveitar da situação de necessidade, agravada pela falta de costume de algumas a viver sem homens para provê-las, resultado do machismo ao ano de 1886 e com frutos até os dias de hoje. Como Charlotte Temple (Samanta Soule), uma das grandes personagens femininas mal aproveitadas pelo roteiro. A imagem dessa viúva contrasta em específico com a de Mary Agnes. Feminina, carente e desprovida de habilidades com armas, é tida como fútil. Se deixando aproveitar da ganância dos “homens de negócios” ao visar a possibilidade da vinda de novos homens para a cidade de La Belle. Não quer dizer que ela deveria ter conceitos desconstruídos demais para a época, afinal Charlotte é fruto da sociedade em que vivia, mas a personagem não foi explorada além disso, apesar de haver tempo para tanto.

Para movimentar esse núcleo, utilizam a chegada do fugitivo Roy Goode e é nesse momento que a série quase pende para a famosa e previsível rivalidade entre mulheres motivada por um homem. O maior contato de Goode durante a série é com a fazendeira Alice Fletcher (Michelle Dockery). Ela é persona non grata na cidade, o que inicialmente faz com que as mulheres se alvorocem. Goode é um homem bem apessoado em uma cidade só de mulheres, além de fazer o tipo “bad guy” por ter sido preso por seus crimes logo ao chegar.

Felizmente, a história de Alice vai um pouco além. De volta à cidade de La Belle para reclamar as terras do primeiro marido morto, é considerada uma forasteira e “a bruxa que trouxe má sorte à cidade”. Porém, Alice parece não se importar com os boatos de feitiçaria que a envolvem e lida muito bem com uma espingarda sempre que se sente ameaçada, sem distinção para aqueles que a aponta. É uma personagem introspectiva – sendo isso explicado por seu passado dramático envolvendo um episódio de estupro e a aproximação com os indígenas. Não teve problemas em se adaptar à vida de chefe de família, visto que desempenha todas as atividades em sua propriedade, de escavar um poço até construir uma cerca.

A atuação de Dockery é uma das melhores. É possível perceber a linha tênue entre o constante tédio pela vida não desejada e a alegria somente num repuxar de lábios e ao observar seus olhos expressivos, o que ocorre em raros momentos. Ela se mostra confortável em cena, tanto ao desenvolver tarefas diárias em roupas nem tão dignas assim, quanto naquelas que evidenciam sua feminilidade contida, embora esteja quase sempre utilizando um chapéu e exibindo seus longos cabelos compridos. Alice não é uma mocinha que precisa ser salva e Goode não está ali para desempenhar o papel do herói que a salva, pelo contrário. Um acerto do roteiro, bem como a ameaça não consumada de um triângulo amoroso clichê envolvendo o xerife da cidade, Bill McNue (Scott McNairy).

É necessário dizer que a minissérie, apesar da clara insegurança em lhes dar mais falas e histórias relevantes, focando em construir personalidades mais humanizadas para Goode e Griffin, realmente retrata dramas e dificuldades sofridas pelas mulheres até hoje. Em tempo, não há nenhuma rixa estereotipada, além de divergências normais para a época, que também contribuem para o ápice da história. Além disso, chegado o momento de brilharem além dos protagonistas, elas o fazem sem hesitação em uma bela união em nome de La Belle, tudo que lhes restou. Acima de tudo, um refresco às tantas histórias contadas sobre desavenças femininas e um novo olhar trazido por Scott Frank ao velho faroeste.

Godless