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Girls 6×10 – Latching
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Girls 6×10 – Latching

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Partir não é fácil. Preparar-se para a partida talvez amenize as coisas. Eu disse talvez. Amadurecer tampouco é fácil. Encarar o que amadurecimento exige não é para todxs, fácil é sair correndo, ignorar, fingir que não viu, deixar acontecer. Disso não há o que questionar. Assim se encerrou a trajetória de Girls: com preparação, calma, segurança e a pretensão descolada de sempre, com aquela vontade de ser tudo e ser nada, de se referir ao todo sem falar de ninguém (ou quase ninguém).

Então lembra-se quando falei na review de “Goodbye Tour” (6×09) que o episódio poderia muito bem ter sido o final da série? É porque de fato foi. Não oficialmente foi e não sabíamos que seria. Para minha surpresa – e tristeza – não vimos mais todxs xs personagens que fizeram parte dessa história (o que não quer dizer que não ouvimos nada sobre elxs). E de início confesso que fiquei esperando vê-lxs uma última vez, como se num “felizes para sempre” voltaríamos a Nova York ou elxs fariam uma visita a Hannah. Até naquela cena em Hannah está andando pelas ruas e um carro se aproxima pensei comigo “será que é Jessa?”. Pode entender como frustração, eu entendo como ansiedade de uma series finale (e que deixei escapar uma declaração da própria Lena Dunham dizendo que Jessa e Shosh não estariam na finale).

Os minutos iam passando e o fim se aproximando. Até que o fim chegou e os créditos finais subiram pela última vez. Não teve participação física de personagens que esperava, Marnie esteve lá sendo Marnie, Hannah sendo Hannah, o cenário já não era o mesmo e tudo parecia tão mudado e tão preservado. Impactada fiquei diante da tela por alguns minutos e então compreendi: “Latching” é um epílogo. Veja, poucas são as séries que se dão o direito e o privilégio de fazê-lo, possibilidade só garantida através daquela segurança e daquele amadurecimento sobre o qual tanto falei durante as resenhas da sexta temporada. Então, tudo fez sentido. Tal qual os olhos de Hannah quando finalmente encarou e entendeu suas escolhas.

Também audacioso fazer um episódio que foge ao tom frenético e acelerado, uma das marcas da série, ao se optar por um tom intimista, mais simplório, comedido na trilha sonora, um excelente trabalho de direção de Jenni Konner, porém de diálogos fortíssimos, com enfrentamentos e desdobramentos condizentes com tudo o que vimos até agora.

Assim, começamos por Marnie “ganhando” uma competição sem pé nem cabeça sobre ser a melhor amiga de Hannah, desmerecendo as outras pessoas. Ora, não me leve a mal, mas esse papo de abrir mão de si para ajudar Hannah a criar o bebê me soou muito mais como uma redenção de si mesma. Só que temos que exaltar um ponto: a relação entre Hannah e Marnie foi a primeira relação das quatro com a qual tivemos contato. Não fosse só isso, a primeira vez que vemos Marnie ela está deitada na cama de Hannah, que a abraça, e as duas estão dormindo. E o movimento de câmera que revela aqueles corpos é praticamente o mesmo, só se alterando o sentido do movimento.

Outra boa sacada foi já saltar no tempo e nos colocar já na rotina das duas criando Grover, que para nossa surpresa é o nome proposto por Paul-Louis. Não gostei, mas entendi como parte daquela pretensão descolada sobre a qual falei há pouco. A partir daí fomos lidando com todos as dificuldades que estavam a ponto de eclodir: amamentação, hormônios, convivência, egoísmo, falta de diálogo, objetificação, ingratidão, falta de privacidade, incompreensão, frustração e, claro, muita idealização. A lista é longa… Enfim, conflitos entre uma mãe de primeira viagem e uma tia solícita até demais.

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E como num abalo de estruturas, Laureen chegou para por as coisas nos eixos. Vá lá que seja regra não envolver a mãe em tretas, porém tempos críticos requerem medidas desesperadoras e foi isso que Marnie fez. E como eu entendi o desespero dela, suas próprias vontades e suas próprias questões sendo colocadas de lado pelo bem-estar alheio. Fizeram-me torcer o nariz e torcer por ela no mesmo episódio. Laureen fez sua parte ao fazer Marnie perceber que ela mesma também era importante. Marnie não precisava estar para Laureen como Hannah estava para Ted, o contrário também é aplicável. É bem na linha do que Laureen falou para Hannah: todas as pessoas no mundo estão sofrendo, têm dores. Olhe para o lado.

A participação de Laureen não parou por aí. Aliás, ela foi fundamental para que tanto Marnie quanto Hannah, principalmente, se destravassem (numa alusão ao título do episódio). A sequência em que ela confronta Hannah e lança tudo o que parecia estar engasgado nela (e em nós) ao longo desses últimos seis anos me deixou boquiaberta. Como essa sequência foi incrível e resumiu toda a inconstância da qual Hannah só sabia se esquivar e fazer piada, às vezes com muita crueldade.

Então Hannah pôs-se a caminhar, uma prática que virou costume seu, misto de fuga e de busca. Complicado fugir e ir atrás de algo ao mesmo tempo, né? Mas simples essas meninas nunca foram. Eis que Hannah dá de cara com o que parecia uma adolescente em apuros, talvez um reflexo dela mesma há horas antes, e naquela descoberta sobre a real história da garota, Hannah se achou mulher. Não porque voltou para cumprir seu papel de mãe e estar pelo filho, mas porque finalmente entendeu que aquela era uma escolha da qual não podia fugir, uma escolha que era só e somente sua, a primeira cujo único caminho possível era o para frente.

No fim das contas, Girls encerrou como começou: cheia de possibilidades, ora para dor, ora para amor; sempre com os dois.

P.S. 1: Tive que rir com Marnie de pijaminhas e trança tentando tirar o foco do flagra de Laureen.

P.S. 2: Outra risada foi com Hannah mandando aquele aleatório pastar e xingando a intromissão masculina.

Melina Galante Produtora e realizadora audiovisual em processo acadêmico. Viciada em redes sociais e numa boa polêmica. Assiste a séries desde antes de se dar conta de que era gente, mas só há alguns anos percebeu que sua extensa grade é dominada por protagonismo feminino.

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