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[Tudo por Elas] A subversiva humanidade de Gaga em Five Foot Two

[Tudo por Elas] A subversiva humanidade de Gaga em Five Foot Two

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Séries Por Elas tem como prioridade máxima noticiar e discutir questões que envolvam o universo das séries. No entanto, vez ou outra, sentimos a necessidade de abordar questões que passem pelo cinema, música e artes de maneira geral. Para isso, criamos a coluna Tudo Por Elas. Nela, uma vez por semana, discutiremos sobre alguma questão do universo midiático e a mulher que não esteja relacionado às séries.

Lady Gaga em sua melhor fase. É isso o que se vê no documentário Gaga: Five Foot Two, disponível na Netflix e dirigido Chris Moukarbel. Ela se despiu da maquiagem, das fantasias e saltos altos extravagantes e mostrou-se ao mundo em jeans e camiseta branca, o uniforme da Era Joanne. O filme não é sobre sua carreira, não é auto biográfico e não tem pessoas próximas falando sobre como ela é uma boa pessoa. É Lady Gaga por Lady Gaga em um patamar de sua carreira onde pode escolher trabalhar somente no que a agrada, o que a torna confiante para mostrar ao público sua fragilidade.

O que se via em Gaga no longínquo 2008, quando surgiu para o mundo com seu single Just Dance, eram feições sérias, escondidas por ela em uma forma de proteção contra o que o mundo a exigia. Por insegurança, por revolta nata ao padrão machista. Eles diziam que ela deveria ser sexy, então seu espírito rebelde se colocava para ir à contramão do sexy genérico em roupas esquisitas. Ela oferecia sua voz, eles queriam ver o resultado de seu corpo na tela, o mais nu possível para os padrões moralmente aceitáveis.

A sexualização da imagem de cantoras, inclusive, é bastante discutida no documentário. Gaga cita o poder que os homens da indústria da música têm para definir o que vende, o que não vende, o que será produzido ou não. “Você trabalha com muitos produtores que eventualmente te dizem ‘você não é nada sem mim”, ela afirma e destaca o produtor Mark Ronson como contrário a tal tendência.

Geralmente, no entanto, sempre tem a ver com: como podemos utilizar seu corpo para vender. Além da música ou do talento, o objetivo inicial. Uma contribuição com a cultura de objetificação de corpos femininos, num ciclo que não terá fim enquanto apenas aqueles que alimentarem o mercado em torno da exploração desses corpos estiverem no comando, e um panorama triste considerando que, a cada vez que jovens cantoras resolvem demonstrar sua maturidade, se voltam a essa fórmula fácil e certeira, como Britney Spears, Ariana Grande e Miley Cyrus.

Felizmente, Lady Gaga resistiu. Não quer dizer que tenha sido fácil. O poder feminino ainda é subjugado, como ela deixa claro na sequência que a segue até os sets da série American Horror Story: Roanoke, onde a cantora interpretou uma bruxa em 2016. Não é uma novidade que mulheres que crescem por si mesmas e, consequentemente, ganham mais poder de decisão sobre a própria vida foram historicamente associadas às bruxas. Afinal, mulheres não têm poder, elas o tomam à força. Então, Gaga diz, talvez, uma das frases mais perturbadoras de todo o documentário: “Ser mulher sempre implicou ter um dono”. E quando este não podia ser um homem, pela falta de submissão feminina, era o demônio (masculino) com quem as bruxas pactuavam para ter autonomia.

Além disso, Gaga comenta explicitamente sobre a polêmica com Madonna, os boatos de plágio criativo e sua admiração confessa por ela. A questão que fica é: porque o feminismo de Madonna não chega até Lady Gaga? Em uma decisão bem acertada, entretanto, o documentário não explora o assunto a fundo, apesar de deixar clara a indignação pela questão não esclarecida. Porém, a mensagem fica clara durante a participação da cantora Florence Welch no novo álbum, colaboradora na canção Hey Girl:

Hey girl, hey girl. Nós podemos facilitar as coisas se nos ajudarmos. Hey girl, hey girl. Não devíamos competir umas com as outras

O documentário retrata ainda, um mercado que precisa essencialmente vender e obter números de visualizações para considerar um trabalho como bem sucedido. Joanne chega na esteira do ARTPOP, um antecessor não tão bem recebido por público e crítica, mas com um adendo: é seu álbum mais intimista. Dedicado ao pai e tendo como título o nome que divide com uma tia falecida. Joanne é a própria Gaga vista no documentário, mostrando pela primeira vez a música dedicada à avó, celebrando a chegada aos 30 anos, sensível com o outro, lidando com corações partidos enquanto ascende ao sucesso.

O fracasso parece significar a derrocada de si mesma, mas em público, mundialmente. A boa fase de Gaga, a inspiração para um álbum com as referências musicais que agradam aos ouvidos da cantora, tudo parece depender dos charts. E não há ninguém para dividir essa sensação com ela. Em uma das sequências mais bonitas de todo o filme, a cantora fala sobre a solidão que a persegue, um contraste ao número de pessoas que a cercam o tempo todo e apesar da fama, fantasiada por muitos como o auge de uma vida só de conquistas. Um sintoma comum entre artistas mundialmente famosos.

Gaga exprime, ademais, a própria incapacidade em manter um relacionamento amoroso enquanto administra uma carreira bem sucedida, visto o término com o ator Taylor Kinney à época do início das filmagens do documentário, em 2016. Porém, apesar da compreensível frustração, ela demonstra o final de uma jornada para entender a si mesma após a chegada dos 30 anos. Nas palavras dela, agora é uma mulher, não mais uma garota, por isso tem que agir como tal:

“Estou em um momento diferente da minha vida. Minha paciência com bobagens de macho… Eu não tenho mais. Não me importo. Não sei se é porque tenho 30 anos e nunca me senti tão bem. Todas as minhas inseguranças se foram. Não me sinto insegura como mulher. Não me sinto mais envergonhada do que tenho. Eu me sinto mais sensual, sexual. E tudo isso é melhor.”

A sensação é que a cantora tenta suprir a solidão cercando-se de pessoas que gosta. O documentário retrata muitas cenas com amigos, familiares e até mesmo a acompanha em um batizado na igreja, local onde ninguém poderia imaginar a subversiva e imparável Gaga. E é exatamente essa a intenção do bem sucedido Five Foot Two: demonstrá-la sensível, amiga, profissional, talentosa, como o público já a vê. Mas também chamar atenção para a pessoa comum que ela é, com seus medos, frustrações, inseguranças, ansiedades, problemas de saúde. Lady Gaga é trivial como todo ser humano, mas não é simplista.

Gaga: Five Foot Two
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Mirian de Paula Estudante de Direito. Potterhead e Sonserina por amor. Feminista. Taurina, gulosa e dorminhoca, se interessar. Um pouco poeta, quando há inspiração.

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