Home Especiais Precisamos falar sobre o estupro nas séries de TV
Precisamos falar sobre o estupro nas séries de TV

Precisamos falar sobre o estupro nas séries de TV

0
2

Surgido na década de 1970, nos Estados Unidos, o termo “cultura do estupro” foi criado para mostrar como a sociedade culpa as mulheres vítimas de violência sexual pelo ocorrido. Ou seja: é um contexto no qual o estupro é normalizado e tolerado a partir de crenças comportamentais que o banalizam.

Dessa forma, temos uma inversão de valores que, em vez de tratar o estupro como crime de absoluta e total responsabilidade do estuprador, trata a mulher como parte culpada (isso quando não a trata como totalmente culpada). Dizer que a mulher deve se dar ao respeito ou que “também, olha lá a roupa que ela sai na rua” tira o nosso direito de lidar da forma como bem entendemos em relação ao nosso corpo.

A ideia deste texto é reunir algumas opiniões e padrões que mostram como o estupro tem sido utilizado como gatilho para narrativas seriadas na televisão e, a partir daí, tentar chegar em qual seria o cenário ideal. Através de estudos, artigos e opiniões, pesquisas feitas em blogs que discutem a temática feminina e de séries, elencamos algumas divisões, são elas: “o estupro para humanizar um personagem”, “o estupro para justificar a força de uma personagem” e “o estupro fetichizado”.

É claro que não é possível catalogar as cenas de estupro de todos os seriados em apenas um destes pontos e a nossa ideia é mesmo discutir e não categorizar. Até mesmo porque algumas cenas, por exemplo, podem ser fetichizadas, criadas para humanizar o personagem e ainda justificar sua força.

O uso do estupro para humanizar a personagem

elkmnfdn

De acordo com o texto “Existe uma razão pela qual há muito estupro nos seus programas de TV favoritos”, publicado pela Time, nos últimos anos o estupro foi usado como um gatilho nas narrativas para fazer com que o público veja certas personagens de maneira mais humanizada.

Agora, em vários dos estupros atuais na TV, temos personagens femininas que são conhecidas pelo público como frias, impiedosas e calculistas. Essas personagens não são amadas ou até mesmo são odiadas pela audiência“, disse Lisa Cuklanz, professora do Boston College e autora do livro “Rape on Prime Time”. “Quando aprendemos sobre sua antiga vitimização sexual, esse novo conhecimento serve para humanizar o caráter”, explicou.

Elizabeth de The Americans, Mellie de Scandal, Robin de Top of The Lake e Claire de House of Cards, Charlotte King de Private Practice são exemplos claros de mulheres frias, fortes e não tão aptas a ganhar o amor do público que tiveram um estupro adicionados às suas histórias. O problema é que esse tipo de narrativa do “estupro pela simpatia” é contraproducente e perigoso.

A cultura do estupro é algo que já está enraizada na nossa sociedade. É algo de que todas nós, mulheres, temos medo constantemente e que desde criança aprendemos que devemos nos comportar desta ou daquela maneira para evitar, como se isso pudesse – em alguma medida – ser culpa nossa. E que é reforçado constantemente pela cultura da objetificação do corpo da mulher.

E então quando uma personagem dos seriados que assistimos é submetido a esse tipo de situação para gerar empatia no público ou para justificar sua força, isso pode ir muito além. Quantas cenas horríveis e de extrema violência acontecem cotidianamente nas séries de TV? De quantas no lembramos com tanto horror quanto as  cenas de estupro? A empatia neste caso é causada pelo medo que todas nós temos desde muito novas. Isso é um sentimento! Mas será que esse é o único artifício que pode ser usado para nos provocar empatia pela personagem ou é fruto de uma preguiça por parte dos roteiristas?

De acordo com o Pixel, o recurso é usado para que o público crie certa empatia com as personagens, já que a partir do momento em que descobrimos o passado de vítima delas, somos capazes de humanizá-las, por isso muitos produtores de TV têm se aproveitado de situações como essa.  

Um outro padrão percebido é que em muitos casos o estupro acontece anos antes e o público só toma ciência dele no desenrolar da história. No caso de The Americans, Scandal, Top of the Lake e House of Cards, a trama apresenta uma mulher que deve enfrentar uma agressão sexual que aconteceu há anos, até mesmo décadas atrás.

Nós não vemos o ataque em tempo real, mas sim em um flashback (ou nem isso). Essas mulheres já lidaram com as conseqüências, enterrando a sua dor e seguiram em frente com suas vidas. Somente quando seu estuprador ressurge (The Americans, House of Cards) ou uma nova circunstância se apresenta, como investigar um crime ou uma entrevista que desperte a lembrança do incidente (Top of the Lake, Scandal) é que o “enredo do estupro” começa.

O uso do estupro para justificar a força da personagem

poijfevopkjvsf

Embora esse padrão de mulheres frias estupradas na tentativa de chamar a atenção para seus lados mais humanitários tenha sido percebido, também há diversos casos na televisão americana do estupro ocorre para justificar uma reviravolta na vida da personagem.

Seria mais ou menos assim, a personagem é um ser humano como outro qualquer e então, após o estupro, se reergue e recomeça a vida tornando-se uma pessoa mais forte e, por consequência, melhor. Aconteceu em Jessica Jones, em House of Cards, em Scandal, em The Americans, em Game of Thrones e tantas outras narrativas.

Em algumas narrativas, como em Jessica Jones, o estupro funciona como arco principal para que a personagem se desenvolva se justifica constantemente na história por ser contado pela ótica da vítima e por trazer uma discussão ampla relacionado ao seu estado emocional.

Outras narrativas, no entanto, não desenvolvem a história. Jodie Foster, atriz, diretora e produtora com mais de 50 anos de profissão, comentou sobre o abuso do uso do estupro em maio deste ano. Segundo reportagem do Prosa Livre, um dos tópicos discutido por ela foi o uso banal do estupro, feito com o único propósito de ‘motivar’ a personagem feminina.

Uma das coisas que mais me irritava como atriz era ver que, quando os roteiristas homens buscavam uma motivação para a mulher, eles a estupravam”, contou a diretora. “Eu me perguntava por que ela era triste. Ah, ela foi estuprada. Eu me perguntava por que ela tinha problemas com o chefe. Ah, ela foi estuprada. Era ridículo. Estava em todo o filme que eu assistia. Se você procurasse pelo grande fator de motivação, era sempre o estupro, porque por alguma razão, os homens o viam como algo incrivelmente dramático. ‘Bem, isso é fácil! Vou criá-lo do nada e aplicá-lo nela’”.

O estupro fetichizado

lkmgfewpkmgef

O estupro, acreditem se quiser, ainda pode ser fetichizado pelas narrativas. Isso acontece quando em uma cena de estupro o corpo da mulher é mostrado de forma a sexualizá-lo. Estamos falando de uma cena terrível e chocante que, quando usada, deveria somente transparecer o horror que retrata, de maneira que isso jamais seja fetichizado, em hipótese alguma. Para estabelecer essa distinção, é sempre importante lembrar que estupro não é sexo. Estupro é uma agressão física e psicológica, e deve ser retratado como tal.

Também pode ser incluído dentro desta “categoria” aqueles casos de estupro que acontecem sem que isso contribua, de fato, para o desenvolvimento do arco da personagem em questão. Seria o “estupro pelo estupro”, para chocar.

Em Game of Thrones, por exemplo, abordaremos logo mais quais foram as defesas da direção do show para os estupros, mas este texto do Lugar de Mulher contraria todas ideias que querem reforçar que os estupros seriam parte normal da história e discutem o fato de que elas não acrescentam nada ao arco principal da personagem que sofreu a violência.

No caso da cena da quarta temporada, em que Jaime “insiste” em fazer sexo com Cersei, no velório do próprio filho, num momento em que ela se encontra completamente fragilizada. Ela diz “não” múltiplas vezes, e ele a estupra ali, ao lado do corpo de Joffrey, violentamente. Há duas coisas principais de errado com esta cena: 1) ela não acrescenta absolutamente nada à história de qualquer um dos personagens e 2) a cena é retratada completamente do ponto de vista do agressor – tanto que houve muita controvérsia sobre se a cena seria mesmo um estupro. É claramente um estupro, mas é retratado como sexo.

O outro lado…

Recentemente, contamos com uma cena de estupro no episódio inicial de Westworld, a nova superprodução da HBO. Muito se falou acerca da fetichização do ato no episódio em questão, mas, em entrevista,  Lisa Joyce, co-criadora e produtora de Westworld, da HBO, defendeu a cena de estupro do piloto da série durante uma convenção de críticos de TV americanos.

De acordo com o site Observatório do Cinema, Joyce afirmou que “Foi algo que discutimos e pensamos longamente na sala de roteiristas”, comentou Joyce. “Westworld é uma consideração da natureza humana. As melhores partes dela, e as partes mais animais e terríveis. Isso inclui violência e especialmente violência sexual. Nós levamos isso a sério, e não queríamos que as cenas fossem uma fetichização desses atos horríveis”.

Em Game of Thrones, por exemplo, Geoger R. R. Martin saiu em defesa da cena do estupro – houve o questionamento de que se a cena não está presente nos livros, qual seria a relevância dela para a história televisionada. Neste patamar, ele respondeu:

Têm surgido diferenças entre os livros e a série de TV desde o primeiro episódio da primeira temporada. E por tanto tempo quanto, eu tenho falado sobre o efeito borboleta. Pequenas mudanças levam a mudanças maiores para enormes mudanças. HBO está há mais de 40 horas na impossível e exigente tarefa de adaptar meus longos e complexos livros, com suas camadas de tramas e subtramas, suas viradas e contradições e narradores pouco confiáveis, trocas de ponto de vista e ambiguidades, e um elenco de personagens nas centenas… Prosa e televisão têm forças diferentes, fraquezas diferentes, exigências diferentes. David e Dan e Bryan e HBO estão tentando fazer a melhor série de TV que eles puderam. E aqui, eu estou tentando escrever os melhores livros que eu puder”.

O produtor da série, Bryan Cogman, deu entrevista à EW sobre o ocorrido e comentou: “Essa não é uma garota tímida entrando numa noite de casamento com Joffrey. Essa é uma mulher amadurecida fazendo uma escolha e ela vê essa escolha como a forma de recuperar sua terra natal. Sansa tem uma noite de casamento no sentido que ela nunca imaginou que iria com um dos monstros do programa. É bastante intensa e horrível e a personagem terá de lidar com isso”.

No entanto, após críticas às cenas de estupro de uma maneira geral a revista Forbes divulgou que os diretores do seriado estariam avaliando o uso do artifício estupro dentro da narrativa de Game Of Thrones.

Os criadores da série Dan Weiss e David Benioff foram responsivos à discussão e houve uma série de coisas que foram modificadas como resultado… é importante que não haja auto-censura. A série aborda um mundo brutal onde coisas terríveis acontecem. Eles não queriam ser muito inflenciados (pela crítica), mas eles de fato absorveram o que foi dito e isso os influenciou de alguma forma“.

Casey Bloys, presidente da programação da HBO, também já foi questionado em relação à quantidade de estupros e cenas de violência contra a mulher no canal em um evento. Além de Westworld, Game of Thrones e The Nigh Of, outras séries da HBO, foram citadas como exemplos de programas que veiculam um tratamento violento desproporcional às mulheres, com cenas de estupro. De acordo com o site The Mary Sue, entretanto, Bloys só respondeu sobre a questão após ser questionado cinco vezes e respondeu que a violência dos personagens não era uma exclusividade das mulheres na programação da rede.

Então deveria ser proibido usar o estupro nas narrativas?

Não. Não é esse o ponto! Para realizar a pesquisa e escrever este texto, lemos muito a respeito. Encontramos pessoas de opiniões diversas em relação ao assunto. Há aqueles que são favoráveis ao uso do estupro nas narrativas seriadas por que elas, de certo modo, refletem o que vivemos aqui do lado de fora, no mundo real. Há aqueles que pensem que o estupro não deveria ser mostrado para não reforçar esse tipo de prática e fazer com que as mulheres passem pela sensação de ver um de seus piores pesadelos sendo retratados sem o cuidado necessário.

A conclusão mais sensata para nós, é que os showrunners não façam do estupro um artifício banalizado ou que sirva apenas para:

1) criar empatia do público pela personagem;

2) chocar a sociedade e, por consequência, estar em evidência na mídia;

3) justificar a força de uma personagem.

A jornalista Jada Yuan escreveu um artigo analisando o estupro da personagem Pennsatucky em Orange Is The New Black e criou um teste para identificar a necessidade do estupro nas narrativas. Ela elencou as seguintes três perguntas: o estupro é retratado pelo ponto de vista da vítima? A cena tem uma razão para existir que seja explicada no desenvolvimento da personagem-vítima ou ela existe para desenvolver a trama? A condição emocional da personagem é explorada?

Não é pedir muito querer que as avaliações possam ir além e que se pense na representação do estupro com a responsabilidade que o tema merece. A cautela, inclusive, é necessária para não reforçar estereótipos que indiquem algum nível de culpa da mulher pelo ocorrido, que o cara não seja tratado como um “monstro” ou como alguém que posteriormente “se arrependeu do acontecido e pediu desculpas” (vide Bates Motel) ou que demonstrem que estupradores são geralmente desconhecidos, quando pesquisas já revelaram que 67% dos casos de violência contra as mulheres são cometidos por parentes próximos ou conhecidos das família.

Só estamos pedindo cautela. E isso não é muito.

Carolina Maria Jornalista, feminista-esquerdista-bolivariana, cegamente apaixonada por alguns personagens de seriados e sonhadora convicta. Aprendeu com as séries a importância da representatividade e nunca mais quis parar de falar sobre isso.

Comment(2)

LEAVE YOUR COMMENT

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *