A recém-chegada série (Des)encanto, animação que estreou na Netflix no último dia 17, é uma produção original do serviço de streaming criada por Matt Groening. Se você não ligou o nome à pessoa ainda, Groening também assina a autoria dos desenhos animados Os Simpsons e Futurama (ambos da Fox), mas isso não deve ser novidade para quem viu pelo menos um episódios de (Des)encanto. Os traços dos desenhos são tão, mas tão parecidos, que têm gerado teorias de que as séries possuem alguma ligação entre si. Pra mim, a principal ligação é Groening – que alguns podem achar que não se importa muito com essas coisas.

Se acharam isso, acharam errado! O roteirista incluiu até mesmo um easter egg para animar os fãs dos seus outros trabalhos no episódio final da primeira temporada de (Des)encanto. Nele, o pequeno demônio Luci mostra ao rei Zog os eventos passados através de uma bola de cristal. E, sim, nesse passeio pelo tempo, em menos um segundo, é possível ver Fry, Bender e o professor Farnsworth de Futurama. Quem for mais curioso do que eu vai descobrir que a nave que aparece faz referência a um episódio em que os personagens viajam no tempo para descobrir, por fim, que as coisas se repetem, que o tempo é cíclico (valeu pela dica, Observatório do Cinema!).

Talvez isso explique o motivo de Groening não mudar completamente o comportamento dos seus personagens, nos diferentes tempos em que ocorrem suas três séries animadas. Com o humor ácido que lhe é característico, Matt Groening nos apresenta à Bean, uma princesa alcoólatra e meio inconsequente; à Luci, um demoniozinho que até que é gente boa; e à Elfo que, bom, é um elfo. Há ainda outros personagens como o rei Zog, pai de Bean e rei da Terra dos Sonhos; Rainha Oona, que é meio uma salamandra humanoide; Bunty, a ama de Bean; e outros.

Bean é um retrato fiel de grande parte da juventude atual e talvez por isso tenha conquistado tantos fãs. Ela é filha de um rei, ou seja, nobre o suficiente para não precisar trabalhar e sempre ter dinheiro para encher a cara no bar. Sua mãe morreu quando era ainda uma criança e, claro, tem problemas com seu pai. Não lida bem com responsabilidades e tá sempre se sentindo inútil pro mundo, em busca de alguma habilidade especial que a destaque. Mas, no fundo, não quer de jeito nenhum cumprir o caminho que lhe foi atribuído enquanto mulher: casar-se pelo bem do reino e procriar. Ela quer, antes de mais nada, se aventurar e usar uma ou outra droga ilícita no meio disso tudo.

Pode ser que você não se identifique com todos esses pontos, mas algum deles falará bem alto ao seu coração. Especialmente se você é, como eu, chegado a um copo cheio de cerveja. Isso porque Bean, além de tudo, bebe todos os dias e, se a noite for boa, acaba dormindo na calçada com seus amigos. Luci, seu demônio de estimação que mais parece um gato, e Elfo, seu novo melhor amigo, que vive feio cachorro na sua cola, funcionam, na trama, como aquele recurso antigo da comédia animada: o anjinho e o capetinha. E, nessa lógica, burlam o dualismo entre o bem e o mal, uma vez que ambos têm atitudes nobre e questionáveis.

Ao mesmo tempo que Groening traz um retrato cômico da nossa juventude, que pode até sair feito uma sátira, criticando um engajamento que busca somente mudanças individuais, faz também um elogio. De fato, algumas ideias não têm mais lugar e, independente da posição que ocupemos, o incômodo é o ponto de partida para uma mudança mais profunda. Por um triz, (Des)encanto não soa como um conselho para todas e todos e todes que seria tipo: “saiam de suas bolhas, vejam o mundo”.

Para completar esse combo, preciso falar do sucesso que tem feito a dublagem brasileira do desenho. Os responsáveis são: Luisa Palomane como Bean; Francisco Junior como Luci; Gustavo Nader como Elfo; e Guilherme Lopes como Rei Zog. Memes recentes, e até uns mais antigos pra quem tá aqui desde que isso aqui era mato, fazem parte do texto. Fala como “machistas não passarão”, “ora, ora, temos um xeroque homes aqui”, “as árveres somos nozes”, “a manteiga chega derrete” e “se isso é tá na pior, porran” estão na boca de diversos personagens. Por isso, a dica é: faça como eu e assista dublado!

Dito isso, o combo perfeito para viralizar na internet foi criado, o que pode explicar o fato de que a temporada completa de (Des)encanto já foi assistida por cerca de 6,6 milhões de pessoas, só nos Estados Unidos. Assim, Groening parece querer falar diretamente com a geração Y e, por isso mesmo, acaba falando com todos nós a partir das temáticas, das piadas, dos conflitos e, claro, dos memes.

A primeira temporada d(Des)encanto, com 10 episódios, está inteiramente disponível na Netflix.