Dias atrás, eu estava em busca de uma série leve e tranquila que não pesasse tanto na minha cabeça. Foi aí que descobri que Derry Girls estava disponível no catálogo da Netflix. Com seis episódios de 20-25 minutos. A primeira temporada da série se passa na cidade de Londonderry, na Irlanda do Norte, nos anos 1990.

Ao longo da história, acompanhamos a vida de Erin (Saoirse-Monica Jackson), sua prima Orla (Louisa Harland) e seus amigos Clare (Nicola Coughlan), Michelle (Jamie-Lee O’Donnell) e o primeiro inglês de Michelle, James (Dylan Llewellyn). Eles frequentam uma escola católica só para meninas, que abriu uma exceção para James. Sem instruções específicas para meninos, James é sempre confundido com uma meninas e vive perdido em busca de banheiros.

A família de Erin e Orla é o principal núcleo da série que conta com figuras muito caricatas e curiosas. O avô durão que detesta o genro. O pai molenga. A tia meio doidinha. A mãe dona-de-casa linha dura. Somando tudo isso às ideias mirabolantes e absurdas dos adolescentes, não tem como não rir. Tudo dá sempre muito errado para o grupo de amigos que, diferente de outros estudantes do colégio, não são ricos e nem ao menos populares.

De cara, fica nítido o ranço (o famigerado ranço) dos irlandeses com os ingleses, devido às piadas que Michelle faz com James. Essa relação é ainda reflexo do que acontecia no país nos anos 1990, período em que se passa a série. Na época, a Irlanda do Norte vivia um conflito muito violento entre manifestantes católicos, protestantes e o exército inglês. Os protestantes estavam em busca de manter as relações do país com a Grã-Bretanha. Já os católicos, minoria, queriam a independência.

O conflito ficou conhecido como The Toubles e durou cerca de 30 anos (1968-1998), tendo fim com a assinatura do Acordo de Sexta-Feira Santa. Esse cenário está presente por todo seriado que inclui cenas com desfile militar e integrantes do Exército Republicano Irlandês (IRA) – grupo católico separatista. Há ainda o desespero de um menino protestante que foi parar sem querer em Derry e precisa da ajuda de Erin e seus amigos para voltar pra casa são e salvo. Vítimas de Chernobil e as recorrentes bombas que assolaram o país no período também são temas de alguns dos episódios. Religião, sexualidade, xenofobia também são assuntos da série.

Lisa McGee, criadora da série (que inclusive nasceu em Derry!), acerta em cheio ao conseguir abordar todos esses assuntos como pano de fundo de uma história cômica. Pra mim, parece que a intenção da roteirista era mostrar como a vida seguia para aqueles que não estavam envolvidos diretamente com os atos de violência. É como se a família de Erin não apoiasse a guerra em nenhum sentido e, por isso mesmo, evitava falar sobre o conflito. É bonito ver uma família comum tentando se manter unida em meio à guerra, mas é também triste pensar que o conflito atingiu as pessoas em níveis desiguais.

Fica a dica para quem quiser assistir uma série leve e cheia de conteúdo histórico. Derry Girls está disponível na Netflix.

Derry Girls