Crítica | Peter Pan (2015): Vale a Pena Assistir ao Filme?

É raro encontrar alguém que não guarde no imaginário as cores e as lições do menino que não queria crescer. No entanto, quando Joe Wright decidiu nos levar de volta à origem desse mito em Peter Pan – Viagem à Terra do Nunca, a proposta não era apenas revisitar, mas reinventar. Como Crítica Chefe do “Séries Por Elas”, minha missão é observar se, além do espetáculo visual, existe alma e substância na jornada desse pequeno herói.

Lançado originalmente em 2015, o longa-metragem se propõe a ser um prelúdio (ou prequel) da história que todos conhecemos. Aqui, não temos o herói já estabelecido, mas sim um órfão em busca de identidade. O veredito inicial? É um filme de uma beleza técnica estonteante, mas que, em sua pressa de ser um blockbuster épico, por vezes perde o fio da meada emocional que tanto amamos no material original de J.M. Barrie.

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A Premissa: De Londres para a Fantasia

A história começa na cinzenta Londres da Segunda Guerra Mundial. O jovem Peter (Levi Miller), um garoto rebelde em um orfanato opressor, é sequestrado por piratas em um navio voador e levado para a mágica e perigosa Terra do Nunca. Lá, ele descobre que seu destino está entrelaçado com uma profecia antiga sobre um salvador que sabe voar.

Diferente das versões anteriores, o antagonista principal não é o Capitão Gancho, mas sim o temível pirata Barba Negra, interpretado por um Hugh Jackman visivelmente divertido no papel. A obra tenta equilibrar o gênero de fantasia com a aventura de formação, onde o protagonista precisa acreditar em si mesmo para manifestar seus poderes. É uma jornada clássica do herói, embrulhada em um papel de presente muito brilhante e caro.

Desenvolvimento de Enredo e Ritmo

O roteiro, assinado por Jason Fuchs, estabelece um ritmo frenético logo nos primeiros minutos. A transição do orfanato para o navio pirata é visualmente criativa, mas o filme sofre de uma síndrome de “excesso de informação”. Há tantos elementos novos sendo apresentados — fadas que parecem poeira estelar, tribos multicoloridas e sereias bioluminescentes — que o desenvolvimento narrativo muitas vezes fica em segundo plano.

O espectador é jogado de uma cena de ação para outra. Embora isso mantenha a atenção das crianças, o público adulto que busca uma coesão maior pode sentir falta de pausas dramáticas. O enredo tenta criar uma conexão profunda entre Peter e a memória de sua mãe, mas essa subtrama frequentemente é sufocada pelas batalhas aéreas e pelas explosões de cores da direção de arte.

Atuações e Personagens: O Carisma de um Vilão e a Promessa de um Herói

O grande destaque do elenco é, sem dúvida, Levi Miller. O ator mirim consegue transmitir a vulnerabilidade e a teimosia necessárias para o papel. Ele não é um Peter Pan convencido; é uma criança assustada tentando encontrar seu lugar no mundo. A química entre ele e Garrett Hedlund, que interpreta um James Hook (o futuro Gancho) ainda jovem e com as duas mãos, é um dos pontos altos. Hedlund traz uma energia de “Indiana Jones” que serve como um bom contraponto ao idealismo de Peter.

No entanto, é Hugh Jackman quem realmente rouba a cena. Seu Barba Negra é teatral, extravagante e genuinamente ameaçador. A cena de sua entrada, ao som de um cover de Smells Like Teen Spirit entoado por centenas de escravos mineiros, é um dos momentos mais bizarros e memoráveis do cinema recente de fantasia. Por outro lado, o elenco de apoio parece por vezes subutilizado em prol dos efeitos especiais.

A Visão “Séries Por Elas”: Representatividade e a Figura Materna

Sob a ótica do “Séries Por Elas”, Peter Pan – Viagem à Terra do Nunca apresenta um cenário ambivalente. A figura feminina central é a Tigrinha, interpretada por Rooney Mara. Aqui, a personagem tem agência: ela é uma guerreira habilidosa, líder de seu povo e essencial para o treinamento de Peter. Ela não é uma “donzela em perigo”, o que é um avanço positivo em relação às versões de décadas atrás.

Contudo, não podemos ignorar as críticas de representatividade que cercaram a obra. A escolha de uma atriz branca para um papel originalmente nativo-americano foi um ponto de discórdia na época. Embora a performance de Mara seja firme, a produção perdeu a oportunidade de trazer uma diversidade mais autêntica para o centro da narrativa.

Outro ponto relevante é a busca pela mãe. A série/filme trata a maternidade como o combustível para a coragem feminina e masculina. A mãe de Peter, vivida brevemente por Amanda Seyfried, é pintada como uma figura de sacrifício e amor incondicional, mantendo o arquétipo clássico da proteção materna como o pilar emocional da história.

Aspectos Técnicos: Um Deleite para os Olhos

Se há algo onde Joe Wright não falha, é na direção estética. A fotografia de John Seale e Seamus McGarvey é vibrante, transformando a Terra do Nunca em um caleidoscópio de cores saturadas que saltam aos olhos. O uso de efeitos visuais é massivo, criando criaturas e paisagens que desafiam a lógica e a gravidade.

O figurino também merece aplausos, especialmente as roupas de Barba Negra, que misturam elementos de várias épocas, criando um vilão que parece um pesadelo aristocrático. A trilha sonora de John Powell é épica, ajudando a elevar o tom de aventura, embora a escolha de músicas anacrônicas (como o rock alternativo mencionado) tenha dividido opiniões por quebrar um pouco a imersão na época proposta.

Veredito e Nota Final

Nota:

  • Veredito: Um banquete visual que encanta pela estética, mas que poderia ter explorado melhor o coração de seus personagens. Vale pelo carisma de Hugh Jackman e pela nova visão de Tigrinha.

Peter Pan – Viagem à Terra do Nunca é um filme que ganha pela ambição visual, mas perde pela falta de foco emocional em certos arcos. É uma aventura divertida para toda a família, ideal para quem quer desligar o senso crítico e mergulhar em um mundo de pura imaginação. Embora não alcance a profundidade narrativa de outras versões, ele entrega um espetáculo técnico que justifica o aluguel nas plataformas digitais.

É uma obra que celebra a coragem infantil e a importância de nunca perdermos a capacidade de acreditar no impossível, mesmo quando o roteiro parece não acreditar totalmente na própria força.

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Magui Schneider
Magui Schneider

32 anos, moradora de Porto Alegre (RS). Psicóloga, Magui é fã de séries e filmes de comédia, drama e romance, e grande admiradora da cantora e atriz Lady Gaga. Ela contribui com sua visão sensível e analítica, trazendo profundidade, empatia e paixão pelo entretenimento para o portal. Atua como redatora há mais de 5 anos.

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