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Crítica de Anora: quando o conto de fadas acaba, quem protege Ani?

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Anora foi dirigido e escrito por Sean Baker, venceu a Palma de Ouro e conquistou cinco Oscars em 2025, incluindo melhor filme. A história de Ani, uma trabalhadora do sexo que se casa com o filho de um bilionário russo, parece à primeira vista uma releitura irreverente de Cinderela. A armadilha é que essa fantasia depende de um homem rico disposto a não contrariar sua família.

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Imagem: Universal Pictures

Em muitas comédias românticas, a diferença de classe é uma dificuldade a ser superada pelo sentimento. Baker inverte a lógica. Em Anora, a fortuna de Ivan permite que ele transforme desejos em decisões imediatas; mas a mesma riqueza facilita que sua família desfaça essas escolhas quando se torna inconveniente.

Ani não é ingênua nem passiva. Trabalha, negocia, responde, enfrenta os homens enviados para controlá-la e insiste no valor de suas próprias decisões. O problema é que força de vontade não equivale a poder institucional. A união precisa do consentimento de ambos para ser desejada, mas sua continuidade é desmontada por uma estrutura social que Ani não consegue enfrentar de igual para igual.

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O humor de Sean Baker não é uma fuga do desconforto

O roteiro começa com a velocidade de uma fantasia moderna: festas, presentes, viagens, casamento impulsivo. Quando os funcionários da família entram em cena, o tom muda para uma busca frenética e desajeitada, em que adultos se comportam como crianças tentando resolver um problema criado pelo privilégio.

O contraste de registros é a assinatura mais interessante da proposta. O público pode rir do absurdo enquanto percebe que a pessoa mais exposta às consequências é justamente quem tem menos dinheiro e menos proteção.

Mikey Madison e a recusa de reduzir Ani à sua profissão

O papel de Madison exige uma personagem capaz de projetar confiança e, ao mesmo tempo, sofrer a violência do julgamento social. Ani é identificada repetidas vezes por sua profissão, como se isso anulasse seus sentimentos e seu direito de exigir respeito.

A centralidade de sua perspectiva permite questionar essa operação moral: para Ivan, festas e sexo são manifestações toleradas da juventude rica; para ela, os mesmos encontros se tornam argumentos para desqualificá-la. A diferença está menos no comportamento do que no lugar social de cada um.

Madison ganhou o Oscar de melhor atriz por esse trabalho, reconhecimento que reforçou a dimensão da protagonista dentro de um filme frequentemente lembrado por suas mudanças de tom.

Ivan e Igor: duas formas diferentes de poder masculino

Ivan, vivido por Mark Eydelshteyn, parece encantador enquanto tudo é jogo e diversão. Quando o casamento exige responsabilidade, sua fuga expõe o caráter frágil da promessa. Igor, interpretado por Yura Borisov, surge como parte da engrenagem destinada a pressionar Ani, mas aos poucos demonstra gestos de reconhecimento e cuidado.

Seria confortável transformar essa oposição em uma escolha simples entre dois pretendentes. O filme é mais interessante quando permite notar que Igor também participa da coerção. Ele não é um herói exterior ao sistema; é alguém que trabalha para ele e ainda assim consegue perceber a humanidade da mulher que foi enviado para controlar.

O final sem recompensa romântica é o argumento mais forte

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Imagem: Universal Pictures

A partir daqui, há spoilers. Após a anulação, Igor leva Ani para casa e devolve sua aliança. No carro, ela inicia uma aproximação física, rejeita o beijo dele e acaba chorando em seus braços.

A cena não dá ao público a satisfação habitual de ver a personagem recompensada com outro relacionamento. O sentido está no gesto interrompido, na dificuldade de receber afeto e na ausência de explicação. Sean Baker afirmou em entrevistas que desenhou deliberadamente esse encerramento para permanecer aberto.

O filme tem coragem de deixar a personagem em processo, não em triunfo. A perda do casamento não é compensada por uma solução imediata. É uma escolha coerente com uma obra preocupada em desmontar a fantasia de que a proximidade com a riqueza produz automaticamente liberdade.

Onde a proposta merece debate?

A mistura de humor e violência emocional pode provocar reações opostas. Há quem encontre no caos da busca por Ivan uma forma incisiva de sátira; há também o risco de que a energia cômica suavize a percepção das condições humilhantes impostas à protagonista. Não são respostas mutuamente excludentes.

Outro ponto de debate é a tentação de interpretar a conclusão apenas como nascimento de um romance com Igor. Essa leitura é possível como esperança futura, mas não está confirmada pelo roteiro e reduz uma cena sobre autonomia, consentimento e esgotamento a mais uma promessa de salvamento masculino.

O que fica de Anora?

O mérito central do projeto está em usar um casamento impulsivo para expor quem é autorizado a errar sem grandes consequências e quem paga pela fantasia alheia. A fortuna de Ivan permite que ele abandone o conflito; Ani precisa carregar o que aconteceu.

Por isso, sua última imagem importa mais que qualquer festa ou cerimônia: depois de tanta gente decidir por ela, a personagem finalmente ocupa um pequeno espaço em que não precisa oferecer uma explicação. Anora encontra sua força nesse desconforto e na recusa de confundir felicidade com um final romântico obrigatório.

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