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Crazy Ex-Girlfriend e a importância de uma comédia corajosa

Crazy Ex-Girlfriend e a importância de uma comédia corajosa

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Desde sua estreia, Crazy Ex-Girlfriend sempre foi uma comédia inteligente, inovadora e desafiadora. Mas agora em sua terceira temporada, toda a construção de personagem da protagonista, Rebecca Bunch, aliado ao humor e números musicais muito auto conscientes, culminou em torná-la, para mim, a série de comédia mais importante da atualidade. Não há nada na TV, e provavelmente nunca teve, que discuta os assuntos que Crazy Ex-Girlfriend discute de forma tão destemida e verdadeira.

Rebecca Bunch é uma ex namorada maluca, ainda que o termo seja sexista. Ela mudou de cidade para perseguir seu ex e tornou o único objetivo em sua vida ficar com ele. Durante as duas temporadas anteriores da série, eu frequentemente me perguntava como eu conseguia me identificar tanto com a Rebecca. Eu nunca faria nada do que ela faz. Mudar de cidade por um cara, se enfiar em uma festa de família do cara em que a namorada dele vai estar, mexer com a vida de colegas de trabalho que você acabou de conhecer só para alguém dizer que você é boa, entre tantas outras atitudes fundamentalmente erradas e completamente malucas que ela tem durante sua jornada de personagem.

A verdade é que Rebecca sequer é uma pessoa boa a maior parte do tempo. Mas essa é a sua história. E enquanto desaprovamos suas atitudes, há esse dolorido desejo de que ela melhore, de que ela seja boa. Porque tudo que ela quer é exatamente tudo que nós queremos, ser feliz. E é perceptível o quão mais difícil é para ela do que para todos a sua volta.

Crazy Ex-Girlfriend é inteligente e efetiva por inúmeros motivos. Os números musicais entram nos momentos certos e fazem piadas criativas e surpreendentes. Praticamente todos os personagens possuem arcos profundos e interessantes e há tantas pessoas talentosas envolvidas com a série que eu poderia ficar o dia todo aqui listando qualidades. Mas há um motivo muito específico porque essa série é especial e porque ela é mais importante do que qualquer comédia pela qual eu já tenha me apaixonado antes.

Quanto mais a série avança, mais nós rimos enquanto lágrimas escorrem. Quanto mais pensamos naquela piada auto depreciativa que Rebecca ou Paula fizeram e da qual rimos no momento, mais triste a gente fica, mais sentimos um aperto terrível no coração. Não importa o quão exagerada seja a reação da Rebecca a algum acontecimento ou o quão distante de nós sejam suas atitudes, sempre entendemos de onde ela está vindo. Entendemos Rebecca de um jeito que na maior parte do tempo não entendemos as pessoas com doenças mentais na nossa vida.

Meu diagnóstico só veio oficialmente em 2016, mas eu diria que sofro com depressão desde 2013. Ver a série usar a palavra depressão abertamente, sem julgamentos e sem rir daquela palavra, sempre foi uma coisa poderosa pra mim. Aquele negócio de se ver refletido na tela que tem um efeito muito louco. Na terceira temporada, no episódio que foi ao ar dia 17 de novembro, a Rebecca foi diagnosticada oficialmente. Ela tem Transtorno de Personalidade Borderline. Eu só conheci duas pessoas na minha vida com esse diagnóstico. Ver Rebecca descobrir que tem essa doença, me fez pensar em como às vezes eu posso não ter considerado o quão difícil era para aquelas duas pessoas se relacionarem comigo e com todos à sua volta.

No episódio anterior ao diagnóstico, exibido dia 10 de novembro, Rebecca tenta se matar. Assisti-la engolir comprimido atrás de comprimido foi uma espécie de catarse para mim. No dia anterior eu tinha engolido a maior parte da minha caixa de comprimidos para dormir. Não para me machucar nem nada, só para desligar um pouco as sensações terríveis que eu andava tendo. Assistir Rebecca de certa forma repetir minhas ações, foi tão assustador que quando o episódio chegou ao fim, com Rebecca pedindo por ajuda, demorou um bom tempo para que eu conseguisse parar de chorar.

Eu liguei para um novo psiquiatra para dar uma chance a um novo tratamento, já que o atual claramente não estava funcionando. Enquanto eu marcava minha consulta, minha mente não para de voltar à Rebecca cantando sobre seu diagnóstico. Não que eu não esteja satisfeita com o meu, mas aquela sensação eufórica da possibilidade de melhorar é tão familiar para mim quanto a sensação de isolamento e vontade de desistir que Rebecca sentiu no episódio anterior. Eu espero que as nossas histórias se reflitam mais na euforia daqui pra frente.

A série não é a comédia mais importante da atualidade pra mim apenas porque me vi refletida de uma forma que eu nunca vi antes, mas porque quando eu conto aos meus amigos sobre a dor inexplicável, a dor de cabeça e a vontade de apertar a tecla mute no mundo eles não entendem por completo. Porque quando essa imagem sem cor que a gente passa sobre a depressão a maior parte do tempo entra em conflito com meu humor ácido e quão alta pode ser minha risada entre uma noite escura e outra, eles ficam confusos.

Crazy Ex-Girlfriend pinta a imagem perfeita do que é entender e absorver o mundo de um jeito neuro atípico. A série é a musical e colorida história de uma mulher aprisionada em sua incapacidade de se portar e se comunicar da mesma forma que a maioria das pessoas à sua volta e o quanto isso machuca, mas o quanto ter gente disposta a te estender a mão e te ouvir, pro bem ou pro mal, tem o poder de remendar os buracos que o mundo fez em você até então.

Ah! E a série não é só sobre isso. O que é um bônus. Crazy Ex-Girlfriend oferece discussões sobre sexualidade, etnia, padrões de beleza, como a mídia representa mulheres, como a sociedade valoriza amor romântico de forma compulsiva, construções familiares, maternidade compulsiva e por aí vai. Nessa série com um termo sexista como título, o objetivo é desconstruir não só o que leva esse termo a ser dado às mulheres, mas todo tipo de relação humana abordada na mídia.

Então, Rebecca Bunch é uma ex namorada maluca, mas só se você olha de fora. Se você assiste a história dela de verdade, ela é um ser humano tentando desesperadamente encontrar uma maneira de ser feliz, com uns obstáculos absurdamente grandes no caminho, mas não insuperáveis.

Crazy Ex-Girlfriend depressão.
Nathália Gonçalves Estudante de cinema e desistente de jornalismo, carioca estressada de 20 anos de idade, problematizador ligado 24/7. Uma vida definida por analisar mídia e questionar padrões.

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