Pare de ler agora este texto se você não quer spoiler da décima quarta temporada de Grey’s Anatomy. Isso porque o episódio “1-800-799-7233” (14×09) trouxe mais do que a luta contra a violência doméstica para a trama. Também veio imbuído de uma luta pela representatividade trans.

Há uma fala no diálogo desse episódio que a showrunner Krista Vernoff reescreveu mais vezes do que ela poderia contar. Mas o impacto dessa fala – do ator trans Alex Blue Davis (que interpreta o novo interno Casey) para sua chefe, Bailey (Chandra Wilson) – fez valer a pena milhões de reformulações: “Eu sou um orgulho homem trans, Dr. Bailey. Eu prefiro que as pessoas me conheçam antes de descobrirem sobre meu histórico médico.”

A cena acontece depois que Casey acabara de salvar Bailey e todo o Grey Sloan Memorial Hospital de um hacker, que tendo invadido o sistema de informática e o sistema de refrigeração, deixou vários pacientes em perigo e quase fechou o hospital. O episódio também seguiu a revelação bem pessoal de Casey, deixando que tanto que seus novos colegas quanto os telespectadores o conhecessem como pessoas antes de saberem algo extremamente pessoal sobre ele.

“Nós trabalhamos muito duro e muito próximo ao Alex e ao GLAAD [um grupo ativista pela comunidade LGBTQ] nessa trama”, disse Vernoff ao The Hollywood Reporter“A cena na qual Casey revela para Bailey que ele é ‘um orgulhoso homem trans’ foi reescrita mais vezes do que qualquer outras coisa – nós a queríamos pontualmente perfeita.”

Inspirada pela proposta de proibição (e desde então bloqueada) do presidente Donald Trump do alistamento de pessoas transexuais do serviço das forças armadas, Vernoff começou a contar a história de um veterano trans. Vernoff intencionalmente escalou um ator trans para o papel do Dr. Casey Parker, um dos novos internos da série.

“Nós queríamos que audiência pudesse conhecer o personagem antes que soubessem de informações médicas privadas; queríamos que sua revelação não fosse algo como ‘A-ha!’, um choque, mas uma revelação genuína da verdade desse personagem quando ele se sentisse seguro com alguém”, disse Vernoff.

O referido episódio resolveu o cliffhanger do hospital deixado na midseason finale com Casey confidenciando a Bailey que ele foi preso por hackear o sistema de computadores do Departamento de Trânsito. Bailey inicialmente fica chocada com o histórico do interno não ter esse importante fato. É quando Casey revela que foi por causa de um erro em sua carteira de habilitação: o departamento de trânsito local se negou a emitir para ele um nova carteira com o gênero apropriado depois da transição, então ele hackeou o sistema e ele mesmo ajeitou as informações.

“Muitas pessoas não entendem o que você quer dizer quando você fala ‘erro’ na carteira de motorista – eles acham que é um erro de digitação”, contou Davis ao THR. “Não era o suficiente para as pessoas entenderem o que mulher-para-homem é e é difícil ter isso mudado [na carteira de habilitação] em muitos estados. É uma questão séria.”

Davis, que anteriormente participou de episódios de 2 Broke GirlsNCIS: Los Angeles, disse que ele sabia que quando foi escalado ele interpretaria um personagem com nuances cômicas que vem de um estilo ao nível de Sandra Oh de direcionamento – e que também era trans.

“O que é interessante na série, no episódio e na visão de Krista para esse personagem é que ele é muito mais do que ser um trans”, Davis disse, apontando que ele vê a trama de Casey como um território inexplorado na tela pequena. “Eu chorei na mesa de leitura, foi bem emocionante para mim. Eu estava esperando por um momento como esse na TV por toda minha vida. Eu sou honrado de dizer aquela fala na TV porque tem sido um longo caminho.”

De fato. Assim como Ellen Degeneres se assumiu em sua sitcom da ABC, Ellen, em 1997, foi um marco na história da televisão e da cultura pop, personagens transexuais estão ficando cada vez mais comuns na telinha: Shameless da Showtime conta com o ator trans Elliot Fletcher (que também interpretou personagens trans em Faking ItThe Fosters) numa trama romântica com um personagem gay; Laverne Cox de Orange Is the New Black fez história na televisão aberta interpretando a primeira personagem trans a estar no elenco regular de uma séria da tv aberta, na curta Doubt, da CBS; e muitos atores trans participaram de Transparent, da Amazon. Mas o que Davis e Vernoff esperam que Grey’s possa fazer é ampliar os tipos de narrativas com personagens e atores trans.

“Pessoas trans por anos têm sido representadas como motes de piadas, vítimas e vilões e não como pessoas completas e eu não tinha noção disso até que passei pela experiência do filho dos meus amigos revelando que era trans”, disse Vernoff.

Esses amigos, que são casados, são os antigos showrunners de Grey’s Tony Phelan Joan Rater (cujo filho inspirou a personagem de Laverne Cox em Doubt) e com quem Vernoff mantém proximidade depois de trabalhar com eles desde a segunda temporada de Grey’s. O filho de Phelan e Rater, Tom Phelan, interpretou um personagem em The Fosters).

“Quando Tom fez a transição, eu me descobri confusa, assustada e perplexa por tudo porque eu nunca tinha conhecido pessoalmente uma pessoa trans [nem entendido] o que isso significava para Tom”, confessou Vernoff. Ratter na época, lembra-se Vernoff, mandou um longo email para amigos e família no qual ela colocava perguntas e respostas que eles poderiam vir a ter sobre seu filho. Vernoff foi tocada pela experiência e nunca esqueceu o sentimento de amor e aceitação que ela viu para Tom de Phelan e Ratner e daqueles ao redor deles.

“Perceber que uma pessoa trans é como qualquer outra pessoa com um jornada nesta vida – elas não são vítimas, vilãs, esquisitas ou erradas; elas não são nada do que as pessoas acreditam quando apoiam leis como a que Trump promoveu”, disse Vernoff. “Minha meta como uma roteirista, com uma contadora de histórias, é ajudar a iluminar essa experiência como uma aliada. Eu contactei o GLAAD para me ajudarem nisso porque eu sou apenas uma aliada e não um membro da comunidade LGBTQ. Eles tiveram muito prazer em ajudar.”

Para o nascido em Los Angeles Davi, também cantor e compositor cujas músicas já estiveram em shows como Pranked, da MTV, ver tramas mais inclusivas nas quais personagens trans não são vistos de modo sensacionalista é uma mudança bem-vinda.

“A TV está abrindo um grande escopo de papeis [para personagens trans]: Laverne interpretou uma advogada em Doubt, e eu interpretando um médico – ambos papeis ainda não foram vistos antes [para personagens trans]”, disse Davis. “As pessoas podem ver pessoas trans por um novo prisma: essas são pessoas que anda entre nós e são seres humanos que têm vidas. Elas não são definidas por serem trans.”

E como o debate sobre atores gays que interpretam papeis de hétero que (felizmente) já veio e acabou, Davis e Vernoff esperam que a próxima fronteira seja ver atores trans interpretando personagens em que o gênero não seja a trama central, assim como atores trans interpretando heterossexuais em que sua transexualidade não tenha impacto no papel.

“O que é importante para é lembra que há oportunidades por aí em que eu não tenho que interpretar um trans”, disse Davis. “Eu sou um ator. Eu amo atuar. Eu realmente amo que eu também esteja representando um grupo de pessoas que têm sido sub-representadas, e isso é incrível. E ser um ator que também é trans, seria maravilhoso se todos os papeis oferecidos a mim por conta de como as pessoas me veem e como eu me defino.”

Sobre o que vem no futuro para Casey, Vernoff diz que os escritores conversaram sobre escalar um interesse amoroso para o personagem de Davis. A showrunner também espera se reunir com Fletcher, com quem ela trabalhou em Shameless, e escalá-lo como “apenas um cara” em Grey’s.

“Há tantas histórias bonitas para contar e representatividade muda mentes e corações”, Vernoff sobre o impacto da arte na sociedade. Ela menciona Shonda Rhimes, criadora de Grey’s, por adicionar personagens como Arizon (Jessica Capshaw) e Callie (Sara Ramirez) em um tempo em que ainda era considerado raridade colocar pessoas gays ou bissexuais na TV e ter a audiência se apaixonando por elas antes que sua sexualidade fosse revelada. “Quando há intolerância no mundo, as pessoas podem apontar e dizer ‘Não, eu tenho um amigo que é gay e é alguém que você conhece’ – e você percebe que é um personagem que você ama na TV. É assim que nós influenciamos pessoas a abrirem suas mentes e seus corações.”

 

Essa é parte da razão pela qual Vernoff que tentar e evitar contar uma história em que Casey enfrente qualquer adversidade por quem ele é. “Uma das coisas sobre as quais falamos com o GLASS é que seria revolucionário apenas contar histórias humanas sobre personagens trans. Há uma considerável quantia de ódio que já está retratada e ódio alimenta ódio. Eu só queria que Casey fosse uma pessoa completa que é um veterano do exército, um bom médico e alguém da turma – que por acaso é trans. Eu não queria promover ódio”, ela disse.

Isso não quer dizer que Casey não revele seu histórico médico novamente em um próximo episódio, pois Vernoff e os escritores de Grey’s ainda não encerraram o último terço da décima quarta temporada.

“Nós conversamos sobre como, quando e porque pessoas trans abrem seu histórico médico privado para a comunidade. Casey talvez o faça para advogar sobre, se tivéssemos um paciente que fosse trans ou um médico que fosse insensível com um paciente mas eu imagino que Casey tenha se aberto para alguns internos”, aponta Vernoff. “Minha meta para Casey era revelar gentilmente seu histórico médico para Bailey e, por extensão, para os EUA e então mantê-lo em nosso mundo como o médico que ele está se tornando. Eu disse a GLAAD e ao Alex que estou aberta a continuar falando e trabalhando com eles se houver mais histórias seriam de grande ajuda ou caminhos em que eu possa ser uma aliada.” 

Confira abaixo um bate-papo entre a GLADD, Alex Blue Davis e Krista Vernoff – infelizmente, apenas em inglês: