Antes de tudo deixa eu já te explicar que não sou marvete e nem dcnauta. Não li todos os quadrinhos da Marvel – mas provavelmente li todos os da Mônica dos anos 90 – e adoro cinema e filmes de heróis. Tem gente que gosta de musicais para reviver a magia do cinema, aquela coisa das pessoas começarem a cantar do nada em qualquer lugar. Para mim, a magia do cinema está nos filmes de super-heróis e heroínas. Eles podem fazer tudo, precisam de pouca lógica, afinal são seres que não existem mesmo e os efeitos enchem a tela, aceleram o coração e dá até vontade de gritar no cinema (fiz isso em Guerra Infinita, desculpa, foi mais forte que eu, não vai acontecer de novo).

No entanto, por muito tempo assisti o mundo ser salvo por homens: Superman, Batman, Capitão América (meu vingador favorito), Homem de Ferro, Thor. A Mulher Maravilha, por exemplo, só existia pra mim nos desenhos dos anos 90 que eu assistia, lembra dela na Liga da Justiça com aquela nave transparente? Mas os tempos são outros e as mulheres, como uma força econômica no mundo, começaram a reivindicar seus espaços também no universo cinematográfico de heróis. Ganhamos Mulher Maravilha e agora Capitã Marvel, já contando os minutos para o filme da Viúva Negra. Não é uma questão de lacre, é uma questão de querer ver-se representada, já que essas heroínas existem desde sempre nos quadrinhos, por que não as víamos nas telas?

E Capitã Marvel é incrível, do começo ao fim o filme não precisa de retoques, não deixa pontas soltas, não enrola o espectador, faz rir na medida, é emocionante e poderoso. É um filme de origem que não tem nem a pretensão e nem a missão de dar continuidade ao enredo que vem sendo narrado pelos Vingadores. Cumpre seu papel de apresentar Carol Danvers e sua Capitã, além de sutilmente introduzi-la a um universo que já acompanhamos. Sem dúvidas é um acerto da Marvel que, convenhamos, até hoje não apresentou nenhuma obra-prima cinematográfica e já nos fez engolir muita porcaria – tô falando com você Thor, Homem de Ferro 3, entre outros.

Carol Danvers é uma mulher como tantas de nós. Cresceu ouvindo que não era capaz de ir além, que como mulher, provavelmente não faria nada de valoroso no mundo dominado por homens. Assim como nós também, Carol se levantou cada vez que caiu, incansavelmente. Carol Danvers – e nós – fez isso a vida toda, e agora (e desde sempre, né queridãns?), ela é a mais poderosa do mundo.

Como mulher, Carol foi encontrada pela força e também foi a força das mulheres que estavam com ela. Sua amizade com Maria revela quão poderosa é a união entre mulheres. Ao criarem um laço de cumplicidade estabeleceram uma rede de apoio, foram arrimo uma da outra e cresceram juntas. Ao contrário do que tentam nos convencer há anos, nós mulheres não somos inimigas ou concorrentes, na vida profissional ou pessoal, somos – e devemos ser – aliadas.

Ao contrário das inúmeras críticas ao desempenho de Brie Larson, ela está incrível. Imprime um tom engraçado à personagem sem ser jocoso. Brie não precisa ficar rindo o tempo todo, como querem os nerdinhos inconformados, porque sua graça e seu carisma estão justamente no tom sarcástico de suas tiradas, na ironia. A personagem diz tudo com o olhar, é sutil e assertiva. O corpo todo de Brie Larson interpreta a personagem. Ela não precisa ficar rindo escancaradamente para agradar ninguém. Ela fala, esboça um mover de lábios e estão lá os olhos que fazem a piada ter sentido e graça. Ela fala sem precisar dizer, e se você não entendeu e continua achando ela sem graça, sinto muito, eu adorei.

Além disso, a relação que que ela e Nick Fury constroem é sensacional. Uma reclamação geral da machaiada nerd é que não tem nada a ver com Nick Fury lavar louça e brincar com o gato. Devem achar que realizar tarefas normais da vida adulta, como lavar louças e alimentar o animal de estimação não é digno deles. Mas acreditem, homens podem e devem lavar a louça, a roupa, o banheiro e sua própria sujeira.

Outro fato é que o Fury de Capitã Marvel, apesar de já ser um coronel do exército, ainda não é Nick ~motherfucker~ Fury. Ainda é 1996 e este é um personagem em construção. Sua relação com Carol, Goose, Couson são parte da formação do chefão da iniciativa Vingadores que ele se tornará.

Por último, o roteiro é incrível. Coloca na tela uma discussão muito pertinente sobre territorialidades, refugiados, dominação, política e violência. Há muitas referências a situações contemporâneas da nossa sociedade, elas estão todas lá para fazer pensar, pode ser que não funcione com todo mundo, mas elas estão lá. E a referência aos anos 90 é uma ode a nós. Nós garotas (e garotos) que crescemos nos anos 90, que dançamos aquelas músicas, que rebobinamos VHS, que também tivemos uma camiseta do NIN, alugamos fitas na locadora e nos virávamos sem celular.

A despeito do boicote anunciado por uma parte das pessoas, Capitã Marvel cumpre seu papel, apresenta sua personagem, a introduz no MCU com brilhantismo, quebra paradigmas ao colocar mulheres como protagonistas não apenas de um filme, mas de suas próprias histórias e também não força draminhas amorosos. Carol Danvers levanta todas as vezes, Higher, Further, Faster, More.

Capitã Marvel