Na última sexta-feira (01), o mundo assistiu a queda de um dos reis do Festival de Cinema de Cannes, Harvey Weinstein. Após ter sua glamurosa vida transformada em caso de policia e ser, formalmente, acusado de estupro e ato sexual criminoso, Weinstein concordou em pagar US$ 1 milhão em fiança, além de usar um monitor de tornozelo e entregar seu passaporte. Vale ressaltar que estamos falando de um homem que usou este e muitos outros festivais da indústria televisiva e cinematográfica pra realizar sua predação sexual tendo a possível certeza de que nada disso viria à tona.

Cannes é um dos eventos de maior destaque no circuito do ramo no mundo e, certamente, a falta de oportunidades para competir nos mais altos níveis aliada à alta visibilidade do evento acabou contribuindo para que as diretoras se tornassem ativistas na luta pela igualdade de gênero. É muito possível que dezenas dessas mulheres que foram agredidas e assediadas por ele ao longo de sua carreira, muitas delas ali muito próximo ao palco principal deste festival, nunca tivessem pensado que este dia iria chegar, ainda mais da forma como tem sido, mas chegou.

Menos de uma semana antes, ainda na cerimônia de premiação 2018 Cannes Film Festival, a atriz, cantora, modelo, roteirista e cineasta italiana  Asia Argento, que contou que Weinstein a estuprou neste mesmo festival, subiu ao palco e disse frases como: Este festival foi o seu terreno de caça” e “não vamos permitir que vocês fujam por muito tempo”. O momento, obviamente, abalou a cerimônia e suas palavras reverberaram pelo mundo inteiro. Confira neste vídeo!

Em Cannes, o júri, liderado pela atriz Cate Blanchett, premiou dois dos três filmes dirigidos por mulheres em competição: o terceiro lugar, o Prêmio do Júri, a Nadine Labaki por seu filme Cafarnaum e o melhor roteiro para Alice Rohrwacher para Happy as Lazzaro.

Para o histórico do festival – que é basicamente ignorar a existência e produção das mulheres por décadas –  homenagear esses dois filmes com premiação é mais um reforço para o coro de que nós mulheres podemos e devemos ocupar os mesmos espaços e competir no topo da lista desta indústria ao lado dos homens.

Por outro lado, mais uma edição de Cannes findou-se e nada de novo sob o sol na premiação de maior prestígio, a Palma de Ouro:  Jane Campion continua a ser a única diretora mulher a ganhar por  pelo seu trabalho em O Piano.

Cannes na superfície é linda, mas uma camada abaixo percebe-se como é apenas mais um lugar de opressão de gênero e misoginia. A indústria cinematográfica e televisiva não está interessada em histórias protagonizadas, idealizadas e executadas por mulheres,  e isso é para cima e para baixo na cadeia alimentar – dos filmes à venda no mercado até como os críticos mais masculinos revisam filmes dirigidos por mulheres.

Cannes até tem um espaço reservado ao pensamento da indústria para a produção feminina, mas, quando é colocado na ponta do lápis, percebemos que trata-se apenas de mais uma tentativa de afirmação de que algo está sendo feito, quando, na verdade já está mais do que provado que essa medida em bom português não passa de algo “para inglês ver. Quando vão nos levar – e levar nossas produções – a sério eu não sei, mas nós precisamos questionar e mudar essa realidade urgentemente.

cannes 2018