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Brooklyn Nine-Nine: um exemplo de representatividade latina

Brooklyn Nine-Nine: um exemplo de representatividade latina

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Comédia é o gênero que envelhece mais rápido. O que já não achamos engraçado diz muito sobre a evolução da nossa sociedade. Quando grupos que viviam à margem ganham voz para dizer que algo não é engraçado, um enorme passo foi dado. Nesse momento em que a internet deu voz à minorias para questionar o poder, uma comédia sobre a força policial estadunidense, com um elenco diversificado e sem medo de criticar o seu entorno, é quase o ideal do que comédia deveria ser agora.

Brooklyn Nine-Nine é a comédia da Fox sobre a 99º delegacia de polícia do Brooklyn, Nova York. É estrelada por dois detetives homens brancos que entram em constante contradição com o estereótipo de masculinidade, um capitão negro e gay, um sargento negro, duas detetives latinas e uma secretária branca, que nunca é colocada como menor que os policiais da delegacia. O ambiente policial é hostil àqueles personagens e, ainda que o esquadrão proteja uns aos outros e se ame e respeite incondicionalmente, eles estão completamente conscientes daquela hostilidade.

Em meio a essa diversidade de personagens estão Amy Santiago, interpretada por Melissa Fumero, e Rosa Diaz, interpretada por Stephanie Beatriz. As duas policiais latinas que, não só são personagens importantes para a série e eficazes em seu trabalho, mas absolutamente não têm tempo para estereótipos de mulheres latinas na TV. Elas são mulheres na força policial, muitas vezes mais capazes que seus colegas homens e latinas combatendo o crime ao invés de causá-lo, como muito é visto no entretenimento.

Amy Santiago é uma nerd obcecada por organização e aprendizado. Ela ama seu trabalho e é boa nele, em todos os seus aspectos, inclusive a papelada que muitos de seus colegas odeiam. Ela é mais inteligente que seu interesse romântico masculino e branco, Jake Peralta. Não só a série deixa isso muito claro mas o próprio Jake também deixa bem claro. Quando a personagem é alvo de piada, é porque ela é inteligente até demais, esforçada até demais, empolgada com seu trabalho até demais. E é incrível que possamos rir junto com uma mulher latina que é boa demais naquilo que ela é paga para fazer e que, ainda assim, tem um desejo incansável de ser cada vez melhor.

Rosa Diaz talvez seja o fenômeno mais interessante nesse caso, porque em uma série policial ela é o único personagem que se encaixa no estereótipo do policial badass que estamos acostumados a ver. Ela dirige uma moto, está sempre de jaqueta de couro, tem armas demais, pode resolver qualquer coisa com seus punhos e sua paciência é curta. Ela é a durona da série. O comum é que esse personagem seja sempre um homem, ela chega a me lembrar a Ron Swanson de Parks and Recreation, mas Rosa é uma mulher e ela não é branca.

Brooklyn Nine-Nine é um exemplo de representatividade por simplesmente não levar a etnia de seus personagens como quem eles são. Dan Goor e Michael Schur escrevem pessoas e a representatividade vem em decorrência de escolherem atrizes latinas para interpretá-las. Quando se escreve um pedaço de papelão modelo do que se acha que latinos são, com seus sotaques fortes, roupas coloridas e humor histérico, a certeza é de não representar, porque ser latino pode ser parte de uma pessoa mas não é quem a pessoa é.

Amy Santiago e Rosa Diaz são completamente diferente uma da outra, mas têm muita humanidade em comum. Elas parecem pessoas reais, que se vestem para o trabalho preocupadas com o trabalho acima de qualquer outra coisa. Têm personalidade muito além de uma cultura de origem, têm agência e batem o pé quando qualquer um tenta tirar isso delas. Nós somos mais lembrados que elas são mulheres e são latinas pelo ambiente policial hostil àquelas características do que qualquer coisa.

A esperança é que o futuro seja esse, que possamos rir junto com pessoas completas de todo o tipo de cor ou forma, sem medo de rir de nós mesmos porque ninguém está rindo da nossa existência, de algo que não podemos mudar. A esperança é que a TV esteja aderindo a dar atrizes latinas papéis de pessoas antes de qualquer outra característica.

Brooklyn Nine-Nine representatividade
Nathália Gonçalves Estudante de cinema e desistente de jornalismo, carioca estressada de 20 anos de idade, problematizador ligado 24/7. Uma vida definida por analisar mídia e questionar padrões.

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